O renascer da Alemanha e de Angela Merkel, qual fénix

Comprimidos de estímulo à economia são os medicamentos a tomar nos próximos meses. A Alemanha já o está a fazer. Berlim quer pôr mais dinheiro no bolso das famílias germânicas para dinamizar a economia e travar o desemprego. Entre as medidas mais populares estão a descida do IVA, mas também os cheques-criança e o apoio à compra de carros elétricos.

Apoiar as famílias e estimular o consumo faz que, por exemplo, seja entregue um cheque de 300 euros a cada menor. Tendo em conta o salário mínimo pago no país ou o rendimento médio de um germânico, o valor até parece simbólico (em Portugal teria um impacto muito maior, já que representa cerca de 50% do salário mínimo nacional), mas, em termos orçamentais, representa uma enorme fatia do bolo e é, acima de tudo, um sinal positivo e de confiança que o Governo de Merkel quer transmitir às famílias.

O valor total do programa de estímulo económico alemão é uma autêntica bazuca, pois ascende a 130 mil milhões de euros, quase dois terços do produto interno bruto (PIB) português, referente a dados de 2019. Ao fim de dois dias de discussão, os alemães (da CDU, de Angela Merkel, e os sociais-democratas, do SPD) puseram-se de acordo e o pacote ficou cerca de 30% acima do que tinha sido previsto. Uma vitória para o executivo, mas acima de tudo uma vitória para a Alemanha.

O país está a enfrentar a pior recessão desde o pós-guerra e os alemães sabem disso. Espera-os uma contração do PIB entre 6,3% e 7%. O desemprego já atingiu em maio o nível mais alto desde há cinco anos. Pairam nuvens negras sobre os céus germânicos, mas os alemães, reconhecidos pelo seu pragmatismo, querem perder pouco tempo a reiniciar a atividade económica e não admitem baixar os braços.

Prova disso é também o ambicioso plano industrial que a chanceler apresentou para a recuperação da nação. Há quem diga mesmo que Angela Merkel está a iniciar um novo paradigma de um certo capitalismo industrial de Estado. Angela Merkel afirmou, ao jornal Financial Times, que "o facto de existirem neste momento sete milhões de trabalhadores em lay-off demonstra a fragilidade da situação e dá urgência à resposta que é necessária e à forma como devemos ser bem-sucedidos para estimular a economia e salvaguardar os empregos".

A senhora Merkel, que já tinha sido dada como morta politicamente, renasceu das cinzas, qual fénix. Perante uma crise de que não há memória, a chanceler mostrou que é a verdadeira líder da Europa e que a Alemanha continuará a ser o motor do Velho Continente. Com a Itália fragilizada no seu sistema imunológico, a Espanha ainda de fronteiras fechadas, a França com dificuldades de digestão política, económica e social (que vem de trás e que se agravaram com esta pandemia), resta à Europa voltar a ter um pilar forte alemão, com indústria, com capacidade exportadora e, acima de tudo, como uma visão para o país e para o papel do continente europeu.

Uma Alemanha forte significa uma Europa mais resistente. Portugal pode tirar vantagem desse posicionamento. Não só por pertencer à União Europeia, naturalmente, mas porque muitas fábricas nacionais fornecem peças à Alemanha e também se alimentam de trabalhos que dali vêm em subcontratação. Portugal pode ainda ganhar mais e aprender com este país do norte da Europa. Apesar "de não termos a disponibilidade orçamental da Alemanha para baixar o IVA de 19% para 16%", como referiu nesta semana António Costa, há vida para lá do IVA e há uma política social, de apoio às famílias, e, sobretudo, há um plano industrial de que Portugal também precisa, com urgência.

Jornalista

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