Trabalhos

Às vezes são pequenas frases, coisas com pouca importância, comentários em tons diferentes, observações entre uma conversa normal. A primeira vez foi há vinte anos, estava na faculdade e aceitei um trabalho como motorista. Uma família de milionários franceses veio a Portugal, ao Douro, celebrar um aniversário. Os convidados foram metidos num avião, não sabiam para onde iam, desembarcaram no Porto, trouxeram cozinheiro, nem sabia que se podia viajar com cozinheiro. Vieram todos, até os amantes, identificados como tal, le baiseur de madame, pais, filhos, amigos. Aristocracia. Os ricos.

Numa das viagens - quiseram ir a Lamego - a conversa fluía, os filhos, fulano de tal pdg daqui e dali, a não sei quantas que se separou, já toda a gente sabia daquilo, e no meio da conversa, um que ia ao lado do condutor, ao meu lado, pediu que se calassem, tinha uma pergunta, uma inquietação. Quando se anda de carro, é melhor ter pedra do lado direito e vinha do lado esquerdo, ou pedra do lado esquerdo e vinha do lado direito? E todos comentaram, que quando tinham estado no Chile já tinham tido essa conversa, e que é melhor, suponhamos, a vinha do lado direito, porque o campo de visão vai mais para a direita e a barreira de pedra do outro lado, como quem protege. Não recordo as palavras todas, mas foram dez minutos disto.

Ter sido motorista destes milionários foi muito importante, não tanto por ter visto milionários ao vivo pela primeira vez, uma espécie de safari ontológico, mas sobretudo por ter percebido que havia pessoas que discutiam o lado da estrada da vinha e da pedra. O significado da experiência tem oscilado: desde o deslumbramento pela riqueza, o testemunho do ócio no seu estado mais puro, a subtileza estética, o spleen traduzido no não saber mais do que se falar. Tenho oscilado entre o que pensar sobre aquela conversa, mas não há estrada com vinha que não me lembre dela. A família continua rica, provavelmente o aniversariante já morreu, um segundo no Google responderia, mas prefiro não saber, como se ainda houvesse coisas que não conseguíssemos responder, e todos eles, todos nós, com vinte anos mais, talvez não falem de vinhas e de pedras, ou talvez falem, talvez todos falemos sempre de uma forma qualquer dos lados das estradas.

E lembrei-me disto outra vez porque um casal amigo, com perto de 80 anos, americanos bem estabelecidos queixavam-se do neto e da sua preguiça crónica. Tentei perceber o porquê da embirração (deve ser uma nora, mas isso não perguntei), tendo em conta um bom curso numa excelente universidade, responderam em coro que o miúdo tem 21 anos e nunca trabalhou, a não ser um verão num campo de férias qualquer como monitor de tiro com arco e de outras coisas que dão jeito no dia-a-dia, como pode vir a ser alguém? Foi há muito pouco tempo, mas será também uma daquelas frases que vão ficar a ressoar. A naturalidade como foi definida a preguiça de alguém de 21 anos por nunca ter trabalhado. Sobretudo num país como o nosso em que temos uma ideia estranha do trabalho dos jovens, dos estudantes. Devia ter trabalhado mais, muito mais. Vejo que isso está a mudar, os meus alunos começam a fazer qualquer coisa, mas são uma minoria e na maior parte não é trabalho, são trabalhos, coisas sem a dificuldade e a aridez inerentes ao trabalho. Promoções em espetáculos, algum rececionismo, mais muito ainda aquela ideia de que só trabalha a sério quem tem necessidade. Como se todos não tivéssemos necessidade de aprender a trabalhar, que é a única coisa que ninguém nos ensina. A não ser o trabalho.

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