Rui Pinto herói ou vilão? Depende...

Teremos mesmo de decidir se Rui Pinto é herói ou vilão? O dilema que ele nos coloca é sério. É o de continuar a acreditar nas instituições como as conhecemos, sobretudo a judicial.

É legítimo andar à pesca de informações no ciberespaço mesmo sem ter ao certo um alvo? Pode um hacker obter informações em barda sem ter qualquer suspeita e ir apanhando o que encontra? Pode fazê-lo mesmo que haja qualquer motivação para que o faça, pessoal e socialmente falando? E o que fará depois com essas informações? Guardá-las-á? Usá-las-á na imprensa? Entregá-las-á às autoridades?

Todas estas perguntas estão a ser levantadas no complicadíssimo caso de Rui Pinto, o hacker português que atingiu os píncaros do whistleblowing (denúncia) com a sua participação no Football Leaks, escândalo mundial sobre corrupção no mundo do desporto. Detido preventivamente em Portugal depois de ter sido extraditado da Hungria, este jovem pálido de cabelos em pé talvez seja muito mais importante do que parece. Até para a sociedade como a conhecemos.

Como hacker, ele não é o herói óbvio. Talvez não fosse nunca, tendo em conta a sua atividade. Mas podia ter garantido essa aura, como acontece com tantos denunciantes. Isso não aconteceu, em parte, pela área em que atuou. O futebol queima - e ter beneficiado com a sua ação uma fação desportiva também não ajudou. Rui Pinto permaneceu uma figura estranha, não consensual, polémica. Além disso, há também a suspeita de que terá participado numa tentativa de extorsão (que ele não nega totalmente, embora não lhe dê a importância que as autoridades que o detiveram deram).

Recentemente, soube-se que Rui Pinto não se limitou a entrar em computadores ligados ao processo Football Leaks, mas que andou a pescar a toda a linha. Terá invadido e-mails, espiado mensagens e discos em várias instituições, nomeadamente do Ministério Público (DCIAP, DIAP), de procuradores importantes, do Ministério da Administração Interna, de magistrados.

Porque o fez? Porque podia. De um lado, contou com a sua sabedoria, do outro, com a fragilidade dos sistemas que encontrou. E o que fez com a informação encontrada? Nada. Até ao momento da detenção, guardou-a. Portanto, não se sabe o que pretendia fazer nem com quem queria trabalhar - jornalistas ou autoridades. Nem tão-pouco o que estaria dentro desses e-mails que pudesse provar alguma irregularidade. Até agora, segundo as autoridades, não tem colaborado para abrir essa informação - que está encriptada - nem para explicar como seria importante.

Teremos mesmo de decidir se Rui Pinto é herói ou vilão? O dilema que ele nos coloca é sério. É o de continuarmos a acreditar nas instituições como as conhecemos, sobretudo a judicial. Ou acharmos que já nada vale a pena. É o de considerarmos que podemos combater a podridão de dentro do sistema - ou se, porque ela atingiu o próprio sistema, temos de o fazer de fora, com meios menos ortodoxos e mais revolucionários.

Num certo sentido, nunca houve um tempo mais complexo para estas questões serem levantadas - quando a tecnologia permite tudo e a ética é uma questão opcional. Precisamente, o risco de tudo isto é que é discricionário. Quando não há leis, ou melhor, quando se ultrapassam as leis, também não há proteção possível. Para começar, a proteção da privacidade.

Normalmente os whistleblowers, ou denunciantes, trabalham à margem da lei até lhe entregarem os seus resultados, deixando-a, depois, atuar. Rui Pinto está a ir um pouco mais longe do que isso, pondo em causa o sistema, tendo os seus advogados falado até de "assédio judicial". O seu lugar para a história dependerá das suas próximas atitudes. E também, é certo, das de quem o investiga. No resultado deste processo estaremos a jogar uma parte do futuro do nosso sistema.

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