"Mas isso agora não é uma moda?"*

Não se chega aqui com facilidade, sem breu e tropeções, sem desesperança. Não se é feliz, confiante de quem somos, sem ter atravessado desertos, sem ter esperado outro fim, sem ter querido outro fim. Chegar aqui, com a resistência de quem não teme, com a lucidez de quem encontra um lugar - o seu lugar, um lugar igual, de filho e de irmão - sem enfrentar vertigens, medo.

Poder ser, simplesmente ser, sem pedir consentimento, sem esperar comiseração, sem perder uma gota de dignidade, sem vergonha ou receio, só deixa de ser uma miragem para se converter no quotidiano, no ar que circula, depois de esgotadas outras possibilidades, testados muitos esconderijos, ensaiadas tantas mentiras, comprimidos que se imaginam centenas de vezes, daqueles que tomaríamos e nos fariam normais, sem dedos apontados, risos desenvergonhados.

Não tenciono utilizar o meu percurso - tão privilegiado quando comparado com milhões de outros que só encontraram chão, terra batida, solo, sem conseguir levantar-se, esgotando-se - para construir uma tese, sequer para assumir uma legitimidade nova, acrescida, algo que não tenho, porque não há outra legitimidade que não a reservada à pessoa por ser pessoa, e essa é total, máxima (e acredito tanto nisso, com todas as minhas forças).

Mas não posso desfazer-me desse percurso, eliminá-lo, como se a minha identidade fosse descartável, um apesar. E nesse percurso, feito quase sempre no sentido de perceber que o mundo não termina na ponta dos nossos dedos, no último dos prédios que vemos, e se estende a uma admirável infinidade de anseios e almas, não encontrei nenhuma avenida, nenhuma espécie de passeio, como se me pudesse deixar levar pela corrente - e sobretudo, sobretudo sobretudo sobretudo, nunca encontrei um cruzamento, uma opção, que me permitisse escolher a minha identidade, seguindo uma qualquer moda.

Encontrar esse cruzamento, essa opção, é o sonho primeiro de todos os que começam a saber-se diferentes. E é um sonho persistente, absoluto, que nos consome, que nos leva o espírito e o engenho: encontrar esse momento em que posso optar, em que posso optar por ser igual a todos os outros, à norma, deixar-me perder na multidão. Um sonho tão intenso que pode durar anos, uma vida inteira, e que nos mutila, reduz.

Abandonar esse sonho, isso sim, foi uma opção. E sei, ainda hoje, o que a motivou: perceber que a procura desse sonho era feita de desamor, mentira, torpor - uma dor que nos transforma em piores pessoas, que nos aproxima da maldade, da falta de amor, da inveja. Chegar ao outro, à luz e ao amor do outro, tentar chegar ao bem, ser capaz da limpidez que nos permite amar, só me foi possível a partir dessa escolha, de que me não arrependo um segundo. Uma escolha motivada apenas pela verdade, não pela moda.

Advogado

*Pergunta que me foi feita nesta semana, a propósito da orientação sexual, num evento sobre diversidade, e que resume tantas observações que fui ouvindo na vida.

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