As escolhas de Rui Rio

De uma coisa podemos estar certos: manter os mesmos rostos, insistir nas mesmas pessoas resultaria sempre numa derrota.

Para quem gasta o latim deste e do outro mundo a garantir que Rui Rio quer transformar o PSD numa muleta do PS esta semana não correu de feição. Não é que isso não fosse uma descarada mentira com uma incompreensível amplificação, mas tornou-se insustentável.

Digamos que aqueles que têm uma agenda para destruir o PSD ou transformá-lo, no mínimo, num partido de direita conservadora ficaram sem discurso e os que, legitimamente, não concordam com a atual liderança terão de arranjar outra forma de fazer oposição interna.

Não será altura de avaliar se as propostas de Rui Rio serão melhores ou piores do que as de António Costa ou se serão mais ou menos exequíveis, o facto evidente é que são diferentes. Maior ou menor carga fiscal, prioridade a uma economia mais amiga das empresas e dos empresários e menos formatada pelo Estado, maior aposta num crescimento económico sustentado em exportações e menos no consumo interno, inversão da política de inexistente investimento público são algumas das provas irrefutáveis de que há visões divergentes de se olhar para aspetos muito importantes da nossa realidade. Poucas coisas serão melhores para a saúde da democracia do que a evidência de que há propostas alternativas e outras formas de percorrer caminhos.

Não foi apenas na explicitação de alguns aspetos programáticos que Rui Rio trouxe novidades. A apresentação de alguns cabeças-de-lista do PSD para as próximas legislativas foi um sinal também de muita importância.

Nada garante que os novos protagonistas que esta direção do PSD traz para a ribalta política sejam melhores do que os anteriores. Mas é evidente que Rui Rio quis mostrar à sociedade civil que o partido está aberto a novas pessoas e a novas vozes. E isso não só é importante para a imagem que a comunidade tem do partido como é vital para o próprio PSD.

O facto - que aqui já repeti várias vezes - é que o partido está seco de ideias e de projetos. Não tem conseguido renovar-se e não só foi afastando os quadros que tinha como não conseguiu captar outros. Contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas com curriculum, provas dadas e capacidade política que nos últimos anos vieram para o partido. A máquina fechou-se sobre si própria e rejeitou tudo o que vinha de fora. Infelizmente, pelas piores razões. As autênticas agências de emprego e de carreirismo em que se transformaram, em larga medida, as máquinas dos dois maiores partidos promovem os medíocres, os que seguem cegamente quem lhes arranja um emprego na autarquia X, no instituto Y ou mesmo quem os coloca como deputado. E não há como não ver, foi pior no PSD do que no PS. Mais, até o CDS e o BE foram capazes de atrair mais pessoas qualificadas.

Rio, promovendo novos quadros e gente nova (não apenas jovem), tenta trazer não só novas ideias e novas formas de pensar como mostra ao partido que tem de se abrir. E que ninguém tenha dúvidas, se o PSD não se regenerar, se não conseguir atrair pessoas para a militância com qualidade, se não mostrar a essa gente que há espaço para desenvolver projetos e ideias, se a máquina permanecer como está, se o caciquismo continuar a prevalecer, a morte será mais lenta ou mais rápida mas inevitável.

Noutro sentido, basta olhar para aquilo que tem sido o definhar do partido nos grandes centros urbanos para perceber que algo tinha de se fazer. Parece que anda muita gente esquecida do que foram, por exemplo, os resultados nas últimas autárquicas em Lisboa e no Porto, na dificuldade de sequer arranjar candidatos minimamente apresentáveis. De uma coisa podemos estar certos: manter os mesmos rostos, insistir nas mesmas pessoas resultaria sempre numa derrota. Com a nova gente resultará ou não, mas está a tentar-se reestruturar um edifício que com certeza ruiria se se mantivesse como está.

E, claro, não se compreenderia que quem não concorda com a atual linha do partido fosse proposto para deputado. Não se tente, porém, confundir as pessoas: um partido com a dimensão do PSD é muito mais do que os seus deputados. O facto de militantes com história e que prestaram serviços relevantes ao partido não fazerem parte da lista de candidatos a deputado não lhes retira a importância que têm. Mais, o que une os militantes de um partido tem de ir muito para lá de circunstâncias conjunturais. Está-se, logicamente, a pensar em pessoas que querem que o partido permaneça fiel aos seus princípios doutrinários e à sua história, não a quem quer mudá-lo radicalmente. Esses, que se reúnem em movimentos que rejeitam essas traves-mestras, apenas estão no PSD para o destruir e se tivessem a mínima dignidade deveriam abandonar a militância. E isto vale para o PSD ou para qualquer outro partido.

Ao mesmo tempo que segue programática e ideologicamente a linha tradicional do partido, Rui Rio percebeu que só tentando atrair novos protagonistas e abrindo o partido à sociedade civil permitirá que o PSD permaneça como fulcral no nosso sistema político. É um percurso com muitas pedras no caminho e dificilmente terá resultados no curto prazo, mas não há outro.

Assim vai o projeto europeu
O italiano Salvini e os que querem destruir o projeto europeu obtiveram uma vitória ao impedir que Timmermans fosse designado presidente da Comissão Europeia. Foi o holandês o líder da batalha contra os ataques à democracia liberal em países como a Hungria e a Polónia e Orbán e os seus aliados não lhe perdoaram. Apesar dessa vitória, a direita moderada mantém o poder. Só esta pode travar o crescimento dos radicais populistas e nacionalistas. Nada podia ser pior do que de um lado termos as forças democráticas e europeístas de direita e esquerda e do outro os que querem criar o caos. É fundamental que a alternativa não seja essa. Em política não há soluções ótimas, a maioria das vezes temos de escolher entre o pior dos males. No caso concreto, não foi preciso chegar a isso - ou, no pior dos cenários, ainda não foi. Apesar de a influência de uma gente que luta contra tudo o que se lutou nas últimas décadas não poder ser evitada, manteve-se, na essência, um equilíbrio ainda saudável de forças. Podia ser bem pior.

Hey, hey, my, my
Os festivais de música de verão já começaram - o meu favorito, o Primavera Sound, no Porto, até já lá vai - e trazem de novo uma enorme quantidade
e diversidade da melhor música popular (e outras) que se faz no mundo. Por esta altura, também começa o rosário de patetices sobre o dinheiro que as pessoas gastam a ir a estes festivais e os comentários sobre alguns produtos ilegais que por lá se consomem (como se só se consumissem em festivais...). Há mesmo um país paternalista, ultraconservador e avesso à liberdade. Sendo eu um rapaz de uma certa idade e eternamente apaixonado por música, lembro-me bem de um espetáculo de uma banda importante ser uma raridade ou de uma considerada menos mainstream acontecer quando o rei fazia anos. O nosso mundo está bem melhor, pelo menos o dos portugueses que gostam de música popular e da diversão associada a ela. Hey, hey, my, my, rock and roll will never die.

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