5 mil pessoas enchem Campo Pequeno em resposta a projeto anti-tourada

Um Campo Pequeno quase lotado foi a resposta dos aficionados ao projeto antit-ouradas que é hoje votado na Assembleia da República. A tradição vive e vive-se num espetáculo vibrante a que não faltaram figuras históricas

Apenas começavam a juntar-se ali em volta as primeiras dezenas dentre as mais de 5 mil pessoas que nesta quinta-feira encheram a Praça de Toiros do Campo Pequeno quando se deu o extraordinário encontro. Duas lendas vivas, um português nascido em Moçambique e um sevilhano que marcaram o seu tempo, agora sem capote, estoque ou cavalo mas com a mesma alegria que sempre os empurrou para a arena. Quase 160 anos somados a muitos triunfos voltavam a encontrar-se.

Quem assistiu ao gesto de Ricardo Chibanga - braços abertos para Curro Romero e exclamações de mútuo reconhecimento - não pôde evitar sentir-se pequeno perante o glorioso momento em que voltaram ambos a fazer história. Chibanga e Romero esquecidos dos respetivos 75 e 84 anos, a embarcar numa viagem no tempo, fazendo estremecer de respeito os que tiveram a sorte de assistiram às suas lides mas também aqueles que nunca os viram atuar ao vivo mas guardam a memória dos seus incríveis feitos.

Fosse por essa carga de emoção que permaneceu no ar mesmo depois de desaparecerem ambos dentro da praça fosse pela antecipação do projeto contra as corridas de toiros que vai hoje a votos no Parlamento, nesta noite nem se ouviram as costumeiras palavras de ordem das duas dezenas de ativistas antitaurinos que costumam acorrer à praça em noite de corrida.

Um arranque tão extraordinário deu mais brilho a um cartaz em que se anunciavam Morante, Manzanares e Telles Júnior, além dos valorosos Forcados Amadores do Aposento da Chamusca, enfrentando toiros de Ribeiro Telles e Paulo Caetano. Mas era ainda cá fora que se sentia vibrar o entusiasmo pelo que esta quinta-feira prometia. Em grupos de amigos de liceu que se alargavam com o aproximar da abertura de portas e que se repartiam em novas rodas de convívio conforme o tema da conversa os puxava. Em acenos de reconhecimento entre os da geração seguinte, chegados diretamente do escritório e que ali viriam a reencontrar-se no final do espetáculo para umas tapas e copos. Em famílias completas, dos avós aos netos, três gerações a ocupar as mesas corridas dos restaurantes mais próximos da entrada da praça, previamente reservados para garantir vaga na enchente.

E como sempre acontece onde as caras se repetem com alguma frequência, empregados e donos dos bares e voluntários habituais nas noites de tourada distribuíam sorrisos e vivas e entravam na festa que já ganhava força a fazer impressionantes gincanas e números circenses com pratos e copos cheios que iam distribuindo pelas mesas e pelas mãos dos que esperavam de pé, para total alegria do jovem casal de franceses que aqui decidira vir passar a primeira noite em solo português. "A estreia em Lisboa não podia ser melhor", garantiam ainda antes do espetáculo - que também tem tradição em França, ainda que venha perdendo força. Mas não tem "forrcadus" - a palavra recente a enrolar-se no sotaque, carregada de entusiasmo em antecipação dessa marca identitária tão portuguesa que são as pegas dos forcados. Há cada vez mais turistas nas bancadas daquela praça e não vêm apenas da vizinha Espanha e da também aficionada França. Chegam da Holanda, do Brasil, dos Estados Unidos e acrescentam já alguma cor ao espectáculo.

Preservar a identidade, garantir a liberdade de escolha

Antes de entrar, ainda houve tempo de trocar umas palavras com João Soares, que se sentava à mesa do jantar com Elísio Summavielle e a família - Vera Jardim viria a juntar-se à refeição e à defesa da tauromaquia. "A tourada é uma marca da nossa cultura. Ninguém é obrigado a vir ver, mas a liberdade de escolha é muito importante, é uma marca do Partido Socialista, e deve ser preservada", defendia o deputado e antigo presidente da Câmara de Lisboa, presença habitual às quintas-feiras. "Lá estaremos (no Parlamento) amanhã para votar por isso", há de dizer-me já no seu lugar, numa pausa do espetáculo. Entre o público há caras conhecidas de todo o tipo de áreas - advogados e médicos, arquitetos e artistas -, incluindo Sousa Cintra e Rogério Alves com a arena a separá-los.

João Soares senta-se na primeira fila, ao lado do amigo Elísio, outro aficionado convicto que, tal como a mulher, Cláudia, não falha uma corrida. "Tradição", "preservação do património cultural" e "direito à escolha" são argumentos que também o presidente do Centro Cultural de Belém usa na defesa da arte tauromáquica, para a qual ganhou há quase uma década um novo aficionado, o filho. "Nunca senti que houvesse violência neste espetáculo. Há, sim, beleza", sublinha Francisco, que começou a ir ver touradas com dez anos.

Nesta noite, há outras crianças espalhadas pelas bancadas. Com quase metade da idade, como o pequeno de Guillermo, aficionado dos quatro costados que é presença comum no Campo Pequeno. Há adolescentes, jovens casais, grupos de amigos, quarentões e gente mais velha que se entusiasma à entrada do cavaleiro português João Ribeiro Telles Júnior. Momentos antes, levantava-se a praça em peso, virada para o camarote ao alto, em ovação ao mítico matador Curro Romero, homenageado com uma placa comemorativa no 60.º aniversário do seu triunfo apoteótico naquela praça. Agora soltavam exclamações em uníssono a cada ferro bem cravado, com a mesma garra com que vaiavam manobras pouco artísticas e maus desempenhos.

Erros sem perdão

Não há piedade nem perdão num espetáculo de emoção em estado puro e que preza tanto os valores presentes numa tourada. E os erros são punidos no instante em que são feitos. Foi assim que aconteceu com o segundo toiro lidado pelo matador espanhol José María Manzanares, a praça a vir abaixo em assobios de protesto, lenços brancos a sobrepor-se ao colorido do espetáculo. "O toiro era pequeno, parecia um bezerro ou menos do que isso, não entusiasmou ninguém." Nem o próprio matador, que o lidou desanimado e desentusiasmado. "O público queria ver mais de Manzanares." A justificação é de Paulo Pessoa de Carvalho, empresário tauromáquico e presidente da Prótoiro (Federação Portuguesa de Tauromaquia), que vai trocando impressões com os companheiros de camarote, onde se incluem o presidente e a vice-presidente da Câmara da Chamusca, Paulo Queimado e Cláudia Moreira, e Nuno Pardal, presidente da Associação Nacional de Toureiros.

Ali de cima, a praça estende-se a toda a volta, lindíssima, imponente nos seus 126 anos vibrantes de dourado e vermelho-sangue, a orquestra a dar ritmo e alegria aos mais de 5 mil aficionados que vibram com a atuação do cavaleiro português que abriu a corrida e voltou a estar à altura do que dele se esperava na segunda lide. Mas é cá mesmo em baixo, na trincheira, que melhor se entende a mestria no bailado do cavalo lusitano de João Ribeiro Telles Júnior na cara do toiro, depois do ferro.

"Com um cartaz como de hoje, a praça devia estar lotada", lamenta Paulo Pereira, relações públicas do Campo Pequeno. Não é que seja um espetáculo caro, embora possa sê-lo - os preços variam entre os 10 euros nas galerias e os 365 euros do abono de temporada (inclui 11 corridas e uma novilhada) na barreira. Nem sequer é por falta de afición, ainda que Paulo Pereira reconheça ser difícil hoje captar jovens talentos para esta arte - "dá muito trabalho, custa muito dinheiro e é preciso uma enorme entrega e sacrifício para ser toureiro". Acontece que o espetáculo tauromáquico tem muita concorrência. "Não é fácil montar uma temporada em que as corridas não coincidam com os festivais de verão, os jogos do Mundial e toda a oferta cultural que Lisboa tem."

Na cara do toiro

Mesmo para quem já viu a muitas corridas, ver passar os valentes forcados, observá-los enquanto cumprem os seus rituais antes de saltarem determinados para a arena, assistir a uma pega quase a um esticar de braço de distância tem uma força única. A explosão de uma pega bem feita e a coragem de voltar a enfrentar o toiro segundos depois de uma tentativa fracassada, o encaixe perfeito do cara, só possível de aguentar com a solidariedade dos companheiros, o rabejador a aguentar o animal no momento em que os outros sete largam o toiro, arrastado pela sua bravura num movimento circular cujas marcas permanecem desenhadas na areia mesmo depois de homens e animal terem saído de cena.

Assim tão perto sente-se aquilo que de mais longe só se intui: a perfeita cumplicidade e espírito de grupo, os valores mais nobres que se sobrepõem ao medo, o respeito mútuo e pelo toiro. Decerto não saíram desiludidos da praça com a atuação dos Forcados Amadores da Chamusca, aqueles franceses que ali foram por esta experiência.

Seiscentos quilos de força e bravura a meia dúzia de metros, cara a cara com o portentoso toiro negro. A essa curta distância, olhos nos olhos com o imponente animal, o espetáculo tauromáquico ganha uma dimensão diferente do que se vê das bancadas. É emoção pura a encher-nos a alma. Os sentidos arrebatados pelos cheiros, pelas cores de azul e verde fortes salpicados de brilhos dourados e prateados nos fatos, os bandarilheiros de capote atento a dançar entre a cor da areia e o cor de rosa, a banda a marcar o ritmo da festa.

É tão difícil abarcar tudo de uma vez quanto é impossível descrever a riqueza de uma corrida de toiros com absoluta fidelidade. Sem que se esqueça momentos que fazem transbordar de beleza o espetáculo, como as lides oferecidas a grandes figuras e as flores, peças de roupa e adereços que voam para a arena a homenagear o autor de uma lide extraordinária - prontamente devolvidas após a volta de agradecimento. Como o respeito entre homens e animais e os valores que enchem a praça antes, durante e depois de uma corrida, ou a coragem que se sente no olhar concentrado do toureiro e do forcado.

Há uma parte imensa do espetáculo que só nos atinge quando o experimentamos. E que talvez só se apreenda verdadeiramente no momento solene em que todas as vozes se juntam para cantar o Hino de Portugal, no fim da corrida. Então entendemos que está ali uma marca da identidade do povo português.

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