Premium Ismaelitas querem receber Aga Khan sob a bandeira de Portugal

Um grupo de portugueses pretende saudar Aga Khan, líder espiritual dos ismaelitas, à sua passagem na Avenida Marquês da Fronteira. Príncipe chega esta sexta-feira a Lisboa

Saída do trabalho diretamente para o Parque das Nações, em Lisboa, Salima Badur Ally não tem dúvidas: o momento mais importante desta semana de celebrações acontece no sábado, "quando Aga Khan se encontrar com a comunidade ismaelita". A comunidade portuguesa de que ela e a família fazem parte. Uma ocasião especial numa celebração especial: o líder espiritual encerra em Lisboa as celebrações do jubileu diamante, isto é, os seus 60 anos como Imam. E a festa começou ontem no Parque das Nações, com exposições e concertos.

O outro dia grande vai ser 11 de julho, quando todas as portas da FIL se abrirem e a converterem na casa da assembleia e Aga Khan liderar uma cerimónia para os cerca de 45 mil ismaelitas que estão em Lisboa para este evento. "Já temos contacto espiritual, é a oportunidade de conectar com ele a nível físico", diz Nigar Kraim, uma canadiana que veio de propósito com o marido a Portugal. Azim Daredia conta que reservaram viagens assim que souberam que as celebrações terminariam em Portugal. Fala desta religião, um ramo minoritário do já minoritário xiismo, como um exemplo de pluralidade. "Aga Khan enfatiza sempre a importância de os mais privilegiados ajudarem e partilharem com os menos privilegiados."

O príncipe chega esta sexta-feira, dia 6, e o Palacete Mendonça, futura sede do Imamat, será um dos pontos de paragem. A pensar nisso, um grupo de portugueses vai esperá-lo, simbolicamente, sob a bandeira nacional no topo do Parque Eduardo VII, mesmo ao lado do edifício, em reabilitação. "Primeiro portugueses, depois ismaelitas", diz Nazim Ahamad, representante diplomático do Imamat em Portugal. A mesma frase repetida pelo marido de Salima, Firoz Badur Ally.

Sentado na esplanada montada à entrada da FIL, ele explica a importância de encontrar Aga Khan nestas cerimónias: "Para nós ele é descendente de Maomé". No jubileu de ouro tinha estado em Paris e o filho, agora com 13 anos, também. Resume assim a proposta do líder: "Qualidade de vida para todos." Firoz Badur Ally trabalha no ramo do mobilário e di-lo seguido de uma gargalhada. "Todos os ismaelitas em Portugal estão nos móveis. Ou nos hotéis." É o que se diz, mesmo não sendo verdade.

A mulher de Firoz, Salima, é coordenadora do departamento comercial da transportadora Rangel e estes dias serão também de trabalho. "Por acaso, a minha empresa ganhou o contrato de logística, e ser ismaelita facilitou a comunicação. E junto o útil ao agradável."

Agora, a Altice Arena, Pavilhão de Portugal e Feira Internacional de Lisboa estão reservadas à comunidade até à próxima quarta-feira, dia 11.

Para lá dos tapumes decorados de verde, e com o típico charbagh , só entram membros da registados nas celebrações do jubileu de diamante (pessoas da comunidade e os seus cônjuges). A entrada é gratuita. Apenas no concerto na Altice Arena, aberto ao público, se cobravam bilhetes. "Todos pagam, é a nossa maneira de funcionar sempre", explica Nazim Ahamd ao DN. Os preços variavam entre os 10 e os 200 euros. As comunidades em situação mais precária, como as do Iraque ou da Síria, pagaram menos.

As entradas no complexo do Parque das Nações foram distribuídas entre 35 países aqui representados, dando primazia aos que não receberam a visita de Aga khan no ano do jubileu de diamante. Portugal é o 12.º território que Aga Khan visita neste périplo em que celebra os seus 60 anos à frente da comunidade ismaelita. O conselho nacional de Portugal também representa Moçambique, Angola e Espanha.

Três exposições, na FIL, mostram o trabalho que tem sido levado a cabo pela Rede Aga Khan para o Desenvolvimento. A primeira é uma mostra de oito fotografias do filho mais novo do príncipe, ele mesmo promotor da Fundação FON - Focused on Nature. Já Rays of Light mostra em 250 fotografias o percurso do príncipe. É um álbum de família em grandes dimensões. Com os pais, com o irmão, quando foi aos Jogos Olímpicos de Inverno em representação do Irão, jovem estudante em Harvard, jogando hóquei no gelo, no gabinete em Paris... E do Canadá veio uma pequena mostra do que se pode ver no Museu Aga Khan, e que pretende divulgar a cultura e arte islâmica.

Será esta uma forma de mostrar outro lado do Islão, após o 11 de Setembro? Al Karim Mangi, voluntário que organizou as exposições, diz que não. "Sua Alteza nunca reage. Toma decisões a longo prazo." Aga Khan completa 82 anos a 13 de dezembro. É responsabilidade dele pensar na sucessão, decisão que deixará em testamento. Preocupa-o? Al Karim diz que não. "Não preciso. Funciona assim há 1400 anos."

Cuca Roseta cantou hindi no concerto aberto a não ismaelitas

O primeiro dia da festa terminou com um concerto aberto ao público na Altice Arena. Cuca Roseta foi a artista portuguesa convidada e abriu o espetáculo. "Sinto muito orgulho de cantar aqui esta noite", disse, em inglês, para o público. "Nunca cantei esta canção nem esta língua", avisou na despedida. Mas se para ela era novidade, a reação do público mostrou que era um clássico. "Uma canção muito bonita sobre alguém que não queremos que parta", explicou um dos espectadores, elogiando a fadista. O argelino Cheb Khaled foi outro dos convidados de uma noite que terminou com Vishal & Sheka.

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