Premium Tiago Bettencourt : "Nunca se pôs hipótese de ser músico. Tinha de ter profissão de gente"

O músico dá hoje um concerto a 360º no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Ao DN recorda o início da carreira, quando estudava Arquitetura e não sonhava ser músico, e explica como esconde a vida nos meandros das letras.

Tiago Bettencourt sobe hoje ao palco do Coliseu dos Recreios para um concerto a 360.º. "Se quiseres fazer um concerto em dezembro no coliseu tens de fazer no circo, porque a estrutura está montada. A minha ideia foi: 'Bora usar a estrutura e tentar esse formato que ainda não fizemos.' Faz mais sentido fazer assim do que no Coliseu grande, porque este álbum é mais intimista", explicava já no final da entrevista.

Referia-se ao seu último álbum, Da Procura (2017). Todavia, sabe que há canções que têm de ser tocadas: Carta, Canção de Engate ou Morena. O músico que começou nos Toranja cresceu à frente de todos e a sua música, que conta essa história, está aí para quem a quiser ouvir. Ele há uns tempos voltou a ouvir o primeiro álbum dos Toranja e gostou do que tocavam aqueles miúdos.

Em entrevista ao DN, recorda como se tornou músico enquanto estudava Arquitetura sem sonhar que um dia esta seria a sua vida. Nunca chegou a estagiar com Gonçalo Byrne, como estava previsto. Regressa sempre à Linha de Cascais onde cresceu, e de onde a certa altura teve de se afastar para olhar "o lado mais negro" das coisas. Não esconde que quando apareceu na música lhe torceram o nariz por ser betinho. Amanhã, alguns dos amigos da infância desse tempo estarão no coro do concerto. Outrora também ele esteve no coro do Estoril.

Escreveu: "Volta sempre ao princípio. Lembra-te da semente, da razão que a plantou." O que é o seu princípio?

Acho que é começar do princípio sempre que vou gravar um álbum, é tentar ir buscar aquela inocência de quem ainda não fez canção nenhuma e ir buscar esse gosto de fazer canções. Senão ficas a pensar mais em fórmulas: como é que vou fazer para que esta música tenha sucesso e não o que vou fazer para que seja uma boa canção, que é o mais importante. Quero muito que as pessoas oiçam a minha música, mas não quero que isso seja a minha prioridade. Se a canção chegar às pessoas, perfeito. Mas tenho sempre de ir buscar a inocência de quando eu fazia canções no quarto.

Tocava com amigos, tocava no coro da igreja. Mas nunca se pôs a hipótese de ter uma banda. Até porque nunca se pôs a hipótese de ser músico. A minha família é muito conservadora, tinha é de ter uma profissão de gente.

Como é que começou?

Com 19 ou 20 anos. Conheci o Pedro Puppe no primeiro ano da faculdade [de Arquitetura] e convidou-me a fazer uma banda. Foi aí que ele começou a picar-me para fazer umas canções. Eu tocava só guitarra, não pensava nisso. Comecei a tocar aos 16 anos. Tive aulas de piano, mas esqueci tudo, porque não me davam grande prazer, eram particulares, às quintas-feiras à noite. Eu e o meu irmão não adorávamos aquilo. E quando acabaram as aulas pedi ao meu pai uma guitarra. Tocava com amigos, tocava no coro da igreja. Mas nunca se pôs a hipótese de ter uma banda. Até porque nunca se pôs a hipótese de ser músico. A minha família é muito conservadora, tinha é de ter uma profissão de gente. Até muito tarde nos Toranja a música foi uma brincadeira.

A música não era um plano B?

Inconscientemente sim. Conscientemente era só uma coisa que eu fazia quando chegava a casa. Às vezes preferia ficar a tocar em casa em vez de ir sair à noite, porque me dava mais prazer. Mas nunca foi um sonho concreto.

A afinidade com a arquitetura era verdadeira ou mais forçada?

Eu sempre gostei de artes. Cheguei a estar inscrito em Belas-Artes, em pintura. Mas, mais uma vez, também era uma profissão muito arriscada.

A arquitetura era a mais séria das artes?

Exatamente. E adorei o curso de Arquitetura. Ainda hoje adoro arquitetura. Tenho saudades, às vezes faço umas miniobras em casa. Mas acho que não ia aguentar ser arquiteto, porque 90% da profissão é burocracia. A parte criativa é muito pequena.

Chegou ao fim do curso? Sobreviveu a Projeto?

Sim. Eu gravei o último álbum no 5.º ano. E depois não fiz o estágio, que ia fazer com o [Gonçalo] Byrne. De repente o álbum começou a ter imenso sucesso, e eu falei com ele para dizer que ia adiar mais um aninho para aproveitar esta fase.

Os arquitetos chegaram a estar entre os seus heróis?

Ainda em abril fui ao Japão e estive em Naoshima, que é uma ilha com não sei quantas obras do Tadao Ando, arquiteto que eu idolatrava quando estava a fazer o curso. Foi uma emoção gigante estar pela primeira vez em várias obras dele. Por isso, sim, há muitos arquitetos que eu olho como rock stars ainda, e que me emociona ir às obras deles. O Peter Zumthor é um arquiteto que eu adoro também.

É muito claustrofóbico ser músico só em Portugal

Essas viagens que faz são turísticas ou a procura é outra?

As viagens fazem-me bem para eu arejar um bocadinho, porque é muito claustrofóbico ser músico só em Portugal. Temos de lidar com o mundo da música portuguesa que às vezes também pode ser um bocado short-minded. Por isso eu tenho de me afastar um bocado, para ter noção do que estou a fazer. Não posso estar à espera que as coisas aconteçam rápido em todos os álbuns. A música que eu faço é esta, não é um pop cheio de sucesso, tenho de aceitar que existem outros géneros, e outras forças a mexerem-se no mundo da música, o dinheiro, os lobbys.

Nessas alturas como é a sua relação com a música?

Como normalmente vou sozinho tenho muito tempo para ler e escrever, e acabam por surgir algumas músicas. Nesta viagem ao Japão escrevi pouco, compus mais umas coisas assim mais instrumentais, porque tinha gravado o álbum há pouco tempo e acho que estava numa fase em que não tinha nada para dizer. Acho que temos uma fase vazia depois de deitarmos tudo cá para fora. Mas é bom para absorver.

O que é que vai vendo ao viajar tanto em Portugal de concerto para concerto?

Eu noto uma diferença abismal desde a altura em que comecei a tocar até agora. Notei a diferença do começo da internet, que se nota não só na roupa das pessoas, na forma como as pessoas se vestem ou se arranjam, mas também em termos de informação, de cultura. De repente, um país que era bastante desinformado está muito cosmopolita ao longo de todas as terras, por mais recônditas que sejam.

Não desligar do país quando se passa o tempo fechado a escrever canções ou na estrada é um desafio, uma tarefa?

Eu não passo o tempo na estrada. Num ano bom, nós temos concertos todos os fins de semana. Grande parte do tempo passo em casa, a ensaiar. É uma vida muito tranquila. A escrever para outras pessoas também.

De repente tinha emigrantes a comentar o Aquilo que eu não fiz e a mandar mails

Nos concertos percebe a forma como as pessoas vivem? Estou a pensar nos temas mais políticos ou sociais como Aquilo Que Eu não Fiz ou Eu Esperei.

Eu sei que essa música tocou muito as pessoas, que ainda me pedem muito essa canção e eu nesta altura não gosto muito de a cantar. Lembro-me de que a fiz para a cantar num evento onde ia o Prof. Cavaco Silva, que na altura era presidente. Entretanto, já passaram muitos anos e essa canção está envolta numa escuridão que eu não gosto muito de recordar. Não quer dizer que já não seja atual, que não queiramos mais dos nossos políticos, mais transparência, mais proximidade, tudo isso. Mas a canção é um bocado violenta e para mim também é violento cantá-la. Acho que o teatro fica assim um bocadinho mais negro quando eu canto essa canção. Mas as pessoas pedem. Como também o Aquilo Que Eu não Fiz. Acho que mais do que nas terras fisicamente noto na internet, na maneira como as pessoas são tocadas por essas canções e acabam por me contar algumas histórias. De repente tinha emigrantes a comentar o Aquilo Que Eu não Fiz e a mandar e-mails. Na internet as pessoas estão mais à vontade. Nos concertos não há esse tipo de partilha.

Apesar disso, é associado mais a um low profile?

Mas, se reparares, a minha primeira canção chama-se Fome de Mais e falava de uma geração um bocado vazia, também por se calhar eu vir de um meio um bocado vazio. Sempre fiz estas cançõezinhas assim a provocar. Esta canção, Eu Esperei, fala daquilo que se espera, não tem acusações. Cantar para o Cavaco Silva é como se eu mostrasse uma pintura, uma fotografia. Como quem diz: "Estou a olhar para o teu trabalho, para o que estás a fazer." Obviamente não o estava a responsabilizar por tudo aquilo que estava a acontecer no governo. Até porque o Cavaco sempre teve aquele papel um bocado inerte, mas era o presidente. Se estás a cantar para uma dessas pessoas mais vale dizeres qualquer coisa de jeito sobre o teu país e acabares a dizer que amas o teu país. Lembro-me de que comecei essa canção a falar de amor, e a dizer que falta amor a Portugal, falta amar este país. E realmente faltava. Ainda hoje digo isso. Mas de facto hoje amamos muito mais o país do que há cinco ou seis anos atrás.

O que é isso de ter vindo de um meio um bocado vazio?

Vou tentar dizer isto sem ofender ninguém, porque gostei muito da minha infância e adorei crescer onde cresci. Conheci pessoas incríveis, mas como adolescente passei a minha adolescência à procura de um lugar onde estar. Não me sentia bem a fazer aquilo que a maior parte das pessoas que estavam no meu meio faziam. Só a partir dos 16 anos ou quando entrei no coro do Estoril é que de repente descobri gente que gostava de ir a concertos comigo, comecei a ir aos fados com amigos meus. Até ir para a universidade e conhecer o Pedro Puppe não conhecia ninguém que tocasse bateria ou baixo. Tinha vários amigos mas com interesses diferentes.

Intimamente, apetecia-me sair do Estoril e ir conhecer outras coisas. Perceber o lado negro

Era um lugar confortável?

Para mim não, era um bocado desconfortável porque eu não me sentia identificado. Quando tirei a carta a minha vida mudou. De repente vivia em Lisboa, a ver concertos, teatro, que no Estoril não havia. Íamos beber uns copos. Mas atenção: muitos dos meus amigos de infância continuam a ser meus amigos, são meus amigos do coração. Simplesmente, intimamente, apetecia-me sair dali e ir conhecer outras coisas. Perceber o lado negro. Era realmente um sítio muito confortável e apetecia-me conhecer um lado um bocadinho mais diferente da sociedade. Mas volto lá sempre. Por exemplo, quem vai fazer coros agora no Coliseu são amigos que tenho desde essa altura. Tudo pessoas com outros trabalhos, com filhos e família, e por isso tivemos todos de ensaiar à noite.

Senti um preconceito gigante [por vir de um meio betinho]

Do outro lado torceram-lhe o nariz por vir de um meio betinho?

Sim, sobretudo na imprensa mais intelectual, mais virada para a música. Senti um preconceito gigante, sim. Não do público nem do mercado, mas daqueles que nos deviam ter apoiado desde o princípio, porque nós éramos uma banda a fazer boa música em português e não havia na altura. Foi um bocado feio ter acontecido isso.

Hoje é mais fácil viver como músico em Portugal ou ainda é uma aventura?

Acho que continua a ser muito difícil. Não estou a falar de mim. Acho que não me posso queixar. Consegui um lugar, obviamente que tenho de estar constantemente a trabalhar para o manter. Não posso parar, não posso desaparecer de repente e viver bem.

Adorava que a minha música fosse comercial, que toda a gente viesse aos meus concertos, que gostasse da minha música

Às vezes apetece-lhe?

Claro que sim. Apetece imenso fazer outras coisas, mas também tenho de sobreviver. Sei que há muitos músicos que têm de ter outros trabalhos para conseguir viver da música. Músicos bons, que eu admiro. Acho que há muito dinheiro do lado mais comercialão, e digo-o sem qualquer preconceito com a palavra "comercial". Adorava que a minha música fosse comercial, que toda a gente viesse aos meus concertos, que gostasse da minha música e da música mais alternativa do universo. Acho que é para isso que os músicos fazem música, não é só para um grupinho de dez escrever uma critica bacana.

O Tiago cresceu musicalmente à frente de toda a gente. Às vezes revisita esse percurso?

Há um ano ou dois fui ouvir outra vez todo o primeiro disco dos Toranja a pensar que ia achar aquilo: "Hum, nhecos." E achei: "Bem, estes miúdos eram muito criativos, muito loucos, que estupidez termos levado tanta porrada. Este álbum era mesmo porreiro, mesmo fresco naquela altura do campeonato da música portuguesa." Há coisas que eu mudava, mas mesmo naquela altura. Há umas teclas que o produtor quis pôr. Nisso não devia ter confiado. Mas não tinha experiência. Noutras coisas o João Martins fez um trabalho gigante. A Carta, por exemplo, tinha dez minutos. Era gigantesca. Ele disse: "Tira esta parte e esta parte." No fundo, com esses cortes ele estava-me a ensinar a fazer canções. Foi um grande professor. Fomos aprendendo ao longo do caminho. Respeito todos esses álbuns. Acho que é uma fotografia gira do que se passou na minha vida.

Eu comecei a escrever umas coisinhas. O Pedro Puppe dizia: "Tiago isto é péssimo. Nem penses. Manda isso embora." De vez em ele aceitava qualquer coisa. Aos poucos comecei a fazer canções.

Quem mais o ensinou a fazer canções?

O Puppe foi um grande professor em termos de escrita. Eu tinha muitas coisas cá dentro mas não escrevia nada. Já ouvia fado há muito tempo. Ele de repente convidou-me para fazer uma banda mas eu não tinha canções. Eu comecei a escrever umas coisinhas. Ele dizia: "Tiago isto é péssimo. Nem penses. Manda isso embora." De vez em quando ele aceitava qualquer coisa. Aos poucos comecei a fazer canções. Depois mais tarde percebi que o fado foi uma escola gigante de poesia e as coisas que eu ia lendo também.

Já teve de se defender de alguma imagem que as pessoas pressentem de si nas suas canções? Estou a pensar nas recentes reações das pessoas à Tua Cantiga, do Chico Buarque.

Não me acontece muito. Tenho este ar um bocadinho tímido que se confunde com arrogante. Tive de aprender a falar com pessoas que não conhecia bem, porque sempre fui estupidamente tímido. Por causa da minha postura as pessoas sempre me abordaram com algum respeito. Não penso que achem minimamente que sabem alguma coisa da minha vida. Até porque eu escondo um bocado a coisa nos meandros das letras. Há lá muitas coisas da minha vida, outras que já não são. Quando escrevo a letra, a certa altura já não é a história sobre a qual comecei a escrever, já é outra. Há muitas pessoas que se sentem muito identificadas com as letras: "Quase como se fossem as minhas palavras a falar da minha vida." Eu acho isso muito bonito. Levam isto para a vida deles. E não se levam a eles para a minha vida.

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