Premium A piada perigosa

No filme Monty Python e o Cálice Sagrado há uma personagem interpretada pelo humorista John Cleese chamada Cavaleiro Negro cuja missão é, de espada em punho, vigiar e defender uma ponte.

Um dia, o rei Artur (Graham Chapman), acompanhado do seu fiel escudeiro (Terry Gilliam), tenta atravessá-la mas o cavaleiro impede-o. Paciente, o monarca começa por argumentar. Sem sucesso, não lhe resta alternativa se não partir para o uso da força: arranca-lhe o braço esquerdo no primeiro embate. Como o Cavaleiro Negro não desarma, corta-lhe o direito. Mesmo literalmente desarmado, o vigilante persiste na intenção de não deixar ninguém atravessar - até perder a perna esquerda e a direita em sucessivos golpes.

Só com cabeça e tronco, vira-se então para Artur e concede: "Tudo bem, acho que podemos chamar-lhe um empate." À medida que o rei e o assistente atravessam a ponte e se afastam, o Cavaleiro Negro ainda grita "a fugir, não é, seus covardes, voltem aqui para verem o que vos acontece".

O sketch foi trazido para a atualidade política brasileira por Olavo de Carvalho, o filósofo (sem, porém, curso universitário) radicado nos Estados Unidos, tido como ideólogo do advento furioso da nova direita nos últimos anos e que desaguou, em outubro, na eleição do seu pupilo Jair Bolsonaro para a presidência da República.

Para Olavo, a esquerda, soterrada nos últimos anos pelo avanço da direita e derrotada nas urnas pelo capitão do Exército reformado, age, ao continuar a argumentar, como o Cavaleiro Negro dos Monty Python.

A Olavo de Carvalho, 71 anos, a viver na Virgínia desde a primeira vitória eleitoral do PT, é reconhecido um mérito: leitor compulsivo, introduziu no Brasil autores conservadores até então mais ou menos desconhecidos.

Mas, se excetuarmos a sua contribuição para a polifonia intelectual, o filósofo é um dos responsáveis pela propagação no Brasil da ideia consolidada à direita de que o nazismo é de esquerda, além de relativizar os malefícios da tortura na ditadura militar brasileira, de considerar a Inquisição uma ficção dos protestantes e de ser um cético em relação à teoria da evolução de Darwin.

Para ele, há ainda um complot mundial orquestrado por gente tão diversa como a multimilionária família americana Rockefeller e o teorizador marxista Antonio Gramsci.

Segundo o essencial do seu pensamento, e por consequência de boa parte da nova direita brasileira, em que se inclui o presidente eleito e os novos ministros da Educação e das Relações Exteriores, ambos indicados por si, existem cerca de 200 grupos económicos interessados em dominar o mundo.

A ideia do "globalismo", iniciada no século XIX, e desenvolvida por intelectuais contratados pelo multimilionário Rockefeller, serve-se, garante o filósofo, da eliminação de automóveis com motoristas e de dinheiro em papel para controlar, numa fonte central, os horários, os itinerários e as transações financeiras de toda a gente.

É para dissolver as células de poder que poderiam resistir a esse projeto, as famílias, que entra em ação a esquerda: ela ocupa, como determinou Gramsci, os espaços culturais, onde promove uma agenda multicultural de forma a esvaziar de significado as tradições judaico-cristãs e banalizar práticas como a zoofilia, o canibalismo e a pedofilia.

A doutrina do filósofo, conhecido por colecionar armas, usar repetidos palavrões e fumar sem parar, foi nos últimos tempos pesadamente veiculada nas redes sociais e através de livros best-sellers. Mas, em simultâneo, é desprezada pela academia e pela imprensa, que sempre a encararam como uma piada.

O que nos transporta de novo aos Monty Python e a um sketch logo do primeiro episódio da primeira série do grupo humorístico britânico, ainda nos anos 60 do século passado, em que filho (Michael Palin) e mãe (Eric Idle) caem redondos, e mortos, no chão após lerem uma piada redigida pelo primeiro. De tão engraçada, a melhor piada do mundo torna-se até, quer na sua versão original em inglês quer na tradução para alemão, uma arma poderosa durante a Segunda Guerra Mundial.

Moral da história: as piadas nem sempre são só engraçadas; também podem ser perigosas, como os delírios de Olavo de Carvalho.

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Daniel Deusdado

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