"O primeiro carro dos meus pais, um Taunus 12M, foi trocado por litros de vinho"

Brunch com Leonor Freitas, empresária da Casa Ermelinda Freitas.

DN

É já depois de voltar a conduzir no asfalto e no horizonte surgirem os dizeres "Casa Ermelinda Freitas" inscritos num enorme retângulo grená (parte do edifício da adega) que tenho a certeza de que o GPS não me enganou. Como setubalense, sei que para ir até Fernando Pó o habitual é apanhar a Nacional 10 até Águas de Moura e depois virar à esquerda, mas partindo de Lisboa vim sempre por autoestrada até à saída da Marateca, depois fiz uns poucos quilómetros na Nacional 10 até entrar num daqueles caminhos municipais que abundam no concelho de Palmela. Num pequeno cruzamento, rodeado por vinhas, tive de perguntar a um agricultor, que vinha de trator, se estava no caminho certo. E estava. Era só seguir em frente até encontrar o caminho-de-ferro e depois virar à esquerda e acompanhar o traçado da ferrovia.

Fernando Pó, afinal, apesar das minhas desconfianças do GPS, já não é "o fim do mundo" que era quando aqui nasceu, na véspera de Natal de 1952, Leonor Freitas, a empresária dos vinhos que muitos pensam chamar-se Ermelinda, na realidade o nome da mãe. "Não me incomoda nada que façam essa confusão", diz, entre risos, Leonor, quando nos sentamos à mesa, já na sede da empresa. Joana, a filha e sucessora designada (esta é uma empresa com tradição de mulheres à frente, mas já lá iremos), está ao seu lado e é quem me pergunta se quero um café e uma fatia de bolo de laranja caseiro. Aceito, até porque ainda é cedo e há muito tempo para o combinado brunch de estilo vinícola.

"Foi uma opção de amor. Senti que não conseguia vender aquilo a que a família tinha dedicado tanto amor, tantos esforços. Eu própria não sabia, mas foi de facto uma opção de amor e uma garra para dar continuidade àquilo que era da família. Tive de aprender a viver com a instabilidade económica, mas no fundo tenho de dizer que ainda bem que a minha infância me marcou tanto para eu voltar", explica Leonor sobre o seu ingresso no mundo dos vinhos, no final da década de 90, quando o pai, Manuel João, morre e a mãe, Ermelinda, fica sozinha a aguentar a firma, conhecendo tudo da produção, desde o plantio da vinha até à destilação, passando pela vindima, mas alheada da parte da gestão.

A parte da papelada não metia medo a Leonor, licenciada em Serviço Social e que depois de terminados os estudos em Lisboa tinha trabalhado para o Estado em Setúbal nessa área, coordenando vários projetos sociais. O desafio grande era mesmo a parte da produção do vinho, mesmo que desde pequena sempre tivesse contactado com as vinhas, com os 60 hectares familiares, só que os pais, entusiasmados com a menina que aprendia tudo com facilidade na escola, queriam que a filha tivesse outra vida, incentivando-a a ir para Setúbal fazer os estudos secundários e depois para a capital fazer o curso. "Tive de aprender muito quando assumi a empresa. Tive de ter a humildade de pedir, a humildade de arredondar espinhos. Eu costumo dizer que é como os picos da rosa, e, quando a rosa estava florida, ter a humildade de que podia voltar a crescer. Fiz várias formações, houve também muita intuição, mas o ter saído daqui e estudar fez toda a diferença. A escola é de facto a melhor coisa que podemos dar e fazer. Os meus pais sempre quiseram que eu pertencesse às pessoas que sabiam mais do que eles, que só tinham a 4.ª classe. E eu também queria, queria muito sair deste meio rural, gostava de comunicar. Era uma família muito simples, mas que me deu grandes exemplos de trabalho, honestidade, de ligação ao próximo, e a minha infância no meio destas vinhas marcou-me. Sempre a saber das dificuldades e do amor que tinham, isto deixou-me marcas que eu não sabia que iam ficar para o resto da vida e que foram importantes para o sucesso da Casa Ermelinda Freitas", conta Leonor.

Fico a saber que hoje são 500 os hectares sua propriedade, comprados a primos, e não só, quase tudo nesta região de terras de areia, na parte de Palmela, um concelho extenso, que já faz fronteira com o Alentejo. Aliás, o apeadeiro de Fernando Pó serve a linha do Alentejo, passando por ali comboios para Évora ou Beja. O entusiasmo pelas coisas do vinho e da terra em geral também levou, mais recentemente, Leonor a comprar uma quinta no Minho e outra no Douro, "que vai mesmo até ao rio", sublinha. Joana, atenta, traz uma garrafa de azeite extra virgem Quinta de Canivães, do Douro, uma incursão da empresa numa área nova. Molhando pedacinhos de pão no azeite, dá logo para perceber como é bom.

É neste momento que Joana traz também para a mesa uma tábua de queijos e enchidos, como as que são servidas a quem faz provas de vinho e assim o desejar como extra. E serve-nos um tinto, Vinho das Grutas, que é uma novidade e que de certo modo está na origem desta conversa, pois o meu primeiro contacto com a Casa Ermelinda Freitas, sem ser como consumidor, foi através de um e-mail , há uns meses, de Joana Freitas para assistir à retirada das garrafas que a empresa tinha colocado a envelhecer nas Grutas de Mira de Aire, em Porto de Mós. Leonor faz questão de contar um pouco mais ao pormenor a história deste vinho: "Chama-se Grutas e tinha mesmo de ser assim. Tem várias castas. Foi uma coisa gira que nasceu por espontaneidade. O senhor que gere as grutas gostava muito dos nossos vinhos, tinha um amigo comum e um dia foi dizer-lhe que tinha lá umas garrafas de Dona Ermelinda reserva nas grutas e que o vinho estava espetacular. E ele achou que o vinho estava ótimo. Fomos lá almoçar no dia seguinte, com o enólogo, o Jaime Quendera, que trabalha comigo há 28 anos, e achámos que de facto era diferente do nosso que estava cá. Nasceu aí uma parceria. Nós construímos uma estrutura que não podia estragar as grutas nem podia deixar oxidar as garrafas, fizemos um investimento grande e bem feito e pusemos 12 mil garrafas a estagiar de um vinho de 2015. Era para ser tirado dois anos depois, veio a pandemia e esteve lá cinco anos. Agora tirámos, de facto provámos, demos uma prova aos convidados e nota-se a diferença. O vinho tem mais frescura, é mais vivo, está mais jovem. Portanto, não há dúvida de que com aquela temperatura e humidade constantes leva mais tempo a envelhecer. É um vinho mais agradável de beber. O Sr. Carlos tem sido espetacular e nós já tirámos seis mil garrafas. Estavam a 80 metros de profundidade, teve de ser tudo carregado com mochilas às costas e ao peito, para equilibrar, e depois tivemos de as retirar da mesma maneira. Não se partiu uma garrafa. A minha filha esteve lá a viver quatro dias com a equipa. Temos de agradecer sempre estas colaborações, foi um esforço muito grande mas foi feito com alegria, e agora estamos a vender na nossa loja, numa loja em Lisboa e nas grutas. Estamos muito contentes por ser uma nova experiência, por conseguirmos fazer isto com amizade e parceria e por ser uma coisa diferente." E fazemos um brinde com o Vinho das Grutas, um brinde à mulher que dá nome à casa.

"Sem dúvida que Ermelinda funciona bem como marca, tão bem que me chamam tantas vezes assim, mas foi uma coisa que nasceu naturalmente, porque eu vim ajudar a minha mãe e ela era Ermelinda e eu comecei a fazer tudo em nome dela. Não há dúvida de que é uma homenagem a esta grande mulher que esteve sempre ao meu lado e do meu pai", explica Leonor, que conta que quando assumiu a gestão da empresa familiar (que vem de 1920, da bisavó Leonilde) e montou escritório em casa da mãe, esta não deixava ninguém ir-se embora, mesmo que viesse só para assinar uns papéis, sem almoçar ou jantar com a família. "Ela era assim, generosa, e foi educada daquela maneira", nota. Uma das grandes diferenças que Leonor trouxe à gestão foi o engarrafamento do vinho produzido pela família. "Era antes só a granel. Ainda me recordo que o primeiro carro dos meus pais, um Ford Taunus 12M, foi trocado por litros de vinho", conta, entre risos, mas com os olhos a não esconderem o carinho com que fala sempre da mãe e do pai.

Numa ida de carro a Bordéus, com noites passadas num Campanille, Leonor e o marido, o engenheiro Arménio Campos, que trabalhou na Portucel e também é da zona, apesar de terem começado a namorar em Lisboa, visitaram uma feira de vinhos. E foi aí que, acrescenta a empresária, se lhe abriram os olhos. O vinho não podia mais ser a granel. Tinha de ser valorizado. "Passei a ter outra visão. O vinho é uma joia. É outra valorização. E o saber beber é importantíssimo para mim, pois é uma bebida espetacular quando bebida com moderação. Faz bem à saúde e é completamente diferente acompanhar uma boa refeição com um bom vinho. Para mim era tudo igual quando vim para cá, agora é tudo diferente. É tudo mais valorizado e o que queremos é passar a mensagem do aprender a beber - até aos jovens. Por isso andamos nos festivais a passar a mensagem. Queremos muito um produto português que envolve economicamente o mundo e envolve Portugal. Não é só o vinho, é a rolha, a garrafa, a caixa", diz. Comento, a propósito dos festivais de música, que vi a grande presença da Casa Ermelinda Freitas no EDP Cool Jazz, em Cascais, quando fui ao concerto de Diana Krall. "Procuramos diversificar públicos com estas presenças. Também estamos no Sudoeste."

Tão pequena é a aldeia vinhateira de Fernando Pó que a adega da Casa Ermelinda Freitas, junto com o edifício que serve de escritório mas também de espaço para provas de vinho, se destaca. Pergunto a quantas pessoas da terra dá trabalho: "Somos 103, sempre com a prioridade das pessoas da região. Trabalham aqui famílias inteiras. E depois temos mais 200 temporariamente nas vinhas, mas que é um temporário que ainda é bastante. Cada emprego que crio é uma alegria e uma responsabilidade, mas estou muito feliz pelo que me tem acontecido. Meti-me num turbilhão, mas tenho tido muitas alegrias em estar com as pessoas, com Fernando Pó."

Não será coincidência que o primeiro vinho lançado por Leonor seja o Terras do Pó, ainda que o feliz nome surja por culpa de uma contrariedade, como conta: "É uma homenagem à terra. Aqui são terras de areia. Queria esse nome, mas já havia a marca. Até que a minha filha, que me acompanhou no registo, me deu a ideia e eu pus este nome."

Leonor fala-me do Leo d"Honor, cujo nome tem muito a ver com o seu: "É o nosso topo, é um Castelão. 100% Castelão, de uma vinha com 72 anos, plantada ainda pelos meus pais. É uma produção pequena, de sete mil garrafas, só nos anos de grande qualidade." E acrescenta: "Tenho muitos vinhos, 31 castas, vinhos diferentes, é muito importante para ir ao encontro do consumidor - cada um gosta do seu, e lá fora, pois exportamos parte da produção, também é assim. O campeão de vendas é o Dona Ermelinda, seja o tinto (80% Castelão, Trincadeira e Touriga) ou o branco (Chardonnay, Arinto e Fernão Pires)." Há também um belo moscatel de Setúbal produzido pela Casa Ermelinda Freitas, acrescento, puxando, como bom setubalense, a brasa à minha sardinha.

Joana, que foi decisiva para este artigo, está na primeira linha de sucessão, mesmo que adivinhe eu que Leonor, tão cheia de energia, não pense tão cedo em se reformar. Peço que me explique como é que aconteceu esta presença tão feminina na história da empresa, pois na conversa surgiram nomes como Leonilde, Germana e, claro, Ermelinda. "As mulheres estão à frente por alguma infelicidade dos homens, que têm morrido muito cedo. O meu bisavô e o meu avô morreram cedo, a minha avó tinha 38 anos, depois o meu pai também morre muito cedo e venho eu, que sou filha única. Eu tenho dois filhos, um rapaz e uma rapariga, mas é ela que desde pequena gosta disto. Ele, o João Manuel, também cá trabalha, é informático, mas para ele a irmã, formada em Gestão, que mande nisto tudo, que organize, ele tem muito orgulho e está sempre pronto para ajudar, mas não o ponham a gerir negócio que ele não quer. A quinta geração vai ser outra mulher, a Joana."

Cinco gerações de mulheres, mais de um século. Peço a Leonor que me conte como é que, como mulher, se sentiu ao triunfar num mundo como o dos vinhos, entre tantos outros, que, por tradição, era visto como masculino: "Sinto que sou uma privilegiada, sou uma rural que tem de defender o mundo rural. Tem de o privilegiar, porque eu fui privilegiada. Mas tive as minhas dificuldades. Tive de falar muitas vezes comigo própria "não é por seres mulher que não vais dar continuidade àquilo que é da tua família". A mudança tem de ser muito dentro de nós. Eu compro uvas, porque já a família comprava, e um senhor um dia diz-me que não faz negócios com mulheres. O meu marido, que só estava cá ao fim de semana e tem outra vida profissional, era a ele que lhe perguntavam coisas. E ele dizia: "não é comigo, é com a minha mulher." O grande marco da minha vida foi ter saído para estudar, mesmo noutra área. Eu digo isto aos jovens: nós depois adaptamos. Cheguei cá e não sabia. Por outro lado, tinha outra estrutura. Quem sai aos 10 anos de casa e tem de tomar conta de si tem estrutura. Sabia o que queria da vida e tive de impor limites e de me fazer respeitar... e de me respeitar a mim própria. A primeira vez que fui a uma reunião de vinhos, era a única mulher. Ia a muitos sítios onde era a única mulher. As coisas têm evoluído muito. A minha filha já está a ter menos dificuldades, mas não se pode dizer que estejam abolidos os preconceitos."

Leonor, quase na hora de nos despedirmos, mostra-me uma estante com os prémios da Casa Ermelinda Freitas, "mais de 1500", e depois convida-me a ir à varanda com vista para as vinhas. É uma bela paisagem, da qual podem desfrutar os visitantes, como o grupo que hoje está por cá, incluindo uma turista brasileira que veio cumprimentar Leonor (ou seria a Ermelinda?). "Temos ali um cantinho pedagógico, com 29 castas. Falta plantar duas. Quero que as pessoa percebam o que é este mundo da vinha, das uvas, do vinho", afirma Leonor. Chama-se a isto gostar do que se faz. Muito.

leonidio.ferreira@dn.pt