Premium O verão quente dos politólogos

Já estão de férias, mas os jornalistas continuam a ligar-lhes. Os eventos no BE e no PSD não dão sossego aos mais conhecidos cientistas políticos nacionais.

Marina Costa Lobo, António Costa Pinto, Adelino Maltez, André Azevedo Alves, Nuno Garoupa - já para não falar do mais alto comentador da nação, Marcelo Rebelo de Sousa. Todos analisam a política diária e não lhes tem faltado matéria nos últimos dias. Eis, em síntese, o que pensam.

Marina Costa Lobo estava de férias e por isso recusou o pedido de um jornal para comentar as incidências do caso Ricardo Robles. Contudo, ontem, já em Lisboa, acedeu a falar com o DN tanto desta história como da promessa/ameaça de Santana Lopes de criar um novo partido na direita liberal.

Sobre o caso do vereador bloquista em Lisboa que foi obrigado a renunciar, esta cientista política não tem dúvidas: sim, "pode ter um impacto" no Bloco, "porque o voto do BE permanece urbano e é volátil"; "porque a sua demissão não se prende com um tema político especifico de Lisboa, é um tema que é mobilizador para eleitores do Bloco a nível nacional, especialmente nos círculos onde elege mais deputados"; "porque pode retirar ao BE uma bandeira implícita que ostenta, junto com o PCP - a de ser o partido dos urbanos precários"; e, finalmente, "porque sugere que a imagem de desinteresse económico dos líderes do BE pode estar longe da realidade".

"O episódio Robles põe em causa o suposto 'desinteresse' económico que é apanágio do BE".

Ou, dito de outra forma: "O episódio Robles põe em causa o suposto 'desinteresse' económico que é apanágio do BE, que visa representar as classes urbanas mais escolarizadas e precárias, não os proprietários de imóveis avaliados em milhões de euros." E "a forma como a oposição e os media conseguirem colar ao BE a imagem de um partido de líderes com 'interesses económicos' pode ser prejudicial para a relação do BE com o seu eleitorado".

E sobre Santana Lopes? Ora aqui o que se passa é que "em todas as eleições surgem novos partidos e raramente conseguem representação parlamentar". Exemplos: MMS, MEP, PDR, Livre. Portanto, "além do PAN, desde 1999 que só o BE conseguiu fazer eleger deputados". Isto "é pouco" mas "há muita abstenção e muita insatisfação do eleitorado, pelo que o potencial para aparecimento de novos partidos está lá", e "quem estuda a falta de sucesso dos partidos novos explica-o em parte devido à falta de lideranças carismáticas".

Poderá então Pedro Santana Lopes ser esse líder? "Certamente o apoio e a visibilidade que continua a ter nos principais canais de televisão e jornais deste país é uma alavanca importante para uma candidatura." Mas Santana "não convenceu o partido e dificilmente convencerá o eleitorado, que o conhece em vários cargos sem brilho e já lhe deu uma derrota clamorosa em 2005". Além do mais, "o eleitorado de direita preza muito a governabilidade, mais do que o de esquerda, onde as ideologias são mais marcadas, pelo que também o terreno para a fragmentação à direita não será fácil".

"[Formou-se] uma conjuntura crítica que pode ajudar à criação de uma nova formação política."

Sobre Santana Lopes, António Costa Pinto, outro politólogo do Instituto de Ciências Sociais, diz que "pode não ser muito difícil" a um novo partido do ex-líder do PSD "irromper no plano parlamentar", mesmo com uma força pequena, porque o sistema eleitoral "não é tão fechado como parece". Há grandes círculos eleitorais - Lisboa, Porto, Setúbal, Braga - e, além disso, "com a crise no PSD e com o CDS aparentemente a não conseguir capitalizá-la em seu favor", forma-se "uma conjuntura crítica que pode ajudar à criação de uma nova formação política". Conseguindo esta representação parlamentar, "ajudaria a cumprir muitas funções", nomeadamente "nas alianças de direita". E certamente, pelo caminho, "fazendo uma grande mossa no PSD".

Quanto ao caso Robles, a certeza para António Costa Pinto quanto aos efeitos no Bloco é só uma: "Consequências terá, com certeza." O que falta é saber quais, porque ainda "é muito cedo". Certamente, consolidar-se-á a imagem "de que o BE é um partido igual aos outros". Mas no cômputo geral das esquerdas não deverá haver grandes mudanças: o BE, a perder votos com esta história, irá perdê-los, na opinião deste cientista político, para o PS - o partido onde, aliás, foi buscá-los no seu processo de crescimento eleitoral.

Terminada a época dos exames, um outro cientista político, Adelino Maltez, já foi chamado à SIC Notícias para dizer o que pensa. Falando ao DN, Maltez disse estar convicto de que o caso Robles não terá grandes efeitos no BE. "Vai tudo continuar como dantes, [o eleitorado] vai esquecer." E o caso, acrescenta, só mostrou um partido já com idade suficiente para ter um corpo dirigente "com as virtudes e os defeitos dos políticos normais". Flutuações na votação do BE existirão - mas existiram sempre, "nunca foi um partido estável" no seu eleitorado.

"[Santana] tem uma quota pessoal no eleitorado aí de uns 5%, e isso não é mau."

Já quanto a Santana, o caso é outro: o agora ex-militante do PSD "tem uma quota pessoal no eleitorado aí de uns 5%, e isso não é mau." O novo partido que venha a ser o seu "até poderá ultrapassar o CDS".

Ouvido pelo Expresso, um outro especialista na análise da atualidade política, Nuno Garoupa, viu o caso do vereador do BE em Lisboa como significando as "dores de crescimento de um partido de protesto transformado em conselho fiscal do PS". Os bloquistas, disse, "se não aprendem a gerir as dores de crescimento arriscam-se a voltar para os 5%".

No mesmo sentido se pronunciou, à Lusa, André Azevedo Alves, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. O caso foi "bastante grave para o BE", sobretudo "pela natureza da conduta e pela contradição flagrante com o discurso" dos bloquistas.

"[Marcelo] está de férias mas não nos dá férias."

Quem poderá beneficiar é, no seu entender, o PS, uma vez que "haverá mais eleitorado flutuante entre o PS e o BE do que com o PCP". "Poderá haver alguns ganhos também para o PAN porque poderá haver alguma sobreposição e algum eleitorado flutuante entre o Bloco e o PAN, apesar de ter menor expressão."

Pelo meio de tudo isto surge o Presidente da República - "que está de férias mas não nos dá férias", como brinca Adelino Maltez. Do caso Robles não falou, mas das incidências do PSD sim (e até foi previamente notificado por Santana da sua decisão de deixar o partido).

Para a posteridade, Marcelo deixou duas frases, no sábado. Frase 1: "O que me preocupa é que a oposição não se fragmente, que deixe de ser uma alternativa de poder." Frase 2: "Para mim o partido é uma família e não se muda uma família, mas tenho grandes amigos que pensam o contrário, que é uma opção como outra qualquer e que se muda de partido quando se entende que já não corresponde àquilo que se pretende. Eu tenho uma visão diferente."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).