Meg Ryan: "Só queria que me deixassem em paz. Vi que era tempo de parar"

A atriz americana recebeu em Locarno o Leopard Club Award pela sua carreira. Meg Ryan falou com o Diário de Notícias e contou como se fartou de ser a namoradinha da América e se tornou agora realizadora e produtora.

Foi neste fim de semana que Meg Ryan, a eterna namoradinha da América, recebeu na Suíça, no Festival de Locarno, o Leopardo de honra pela sua carreira. Um dos maiores festivais do mundo prestou assim homenagem a uma atriz que está retirada de Hollywood e aposta agora na produção e na realização.

No luxuoso Hotel Orselina, nas montanhas do lago Maggiore, a atriz de French Kiss - O Beijo recebeu um grupo de jornalistas convidados do festival, entre os quais o DN, para uma breve conversa com sabor revivalista. E encontramos uma Meg Ryan de 57 anos sorridente, suada (em Locarno o ar condicionado é coisa rara) e sem medo de expor o botox facial. "Foi muito divertida a entrega do Leopardo ontem à noite no meio daquela chuvada e trovoada. Meu deus! Como é que este festival conseguiu mover milhares de pessoas da Piazza Grande para o cinema coberto em pouco minutos!? A sério, foi incrível e eu diverti-me imenso, sobretudo depois quando ainda vi pessoas todas encharcadas e divertidas. Foi uma noite muito querida. Gostei de estar ali com toda aquela gente. Nesta altura da minha vida é engraçado estar a ver-me ser honrada e a sentir aquele afeto por todos os filmes que fiz", começa por nos contar. Mas não se sente mais velha com estas homenagens? Perguntamos-lhe timidamente e a resposta continua sorridente: "A vantagem de estar agora mais madura é que me permite pensar que tudo isto não tem tanto que ver comigo mas muito mais com a maneira como as pessoas podem conseguir divertir-se através de mim."

Mais séria, fala-nos do que se está a passar em Hollywood com o movimento #MeToo e considera que no meio está a virtude: "Neste momento, sobretudo em virtude de termos um presidente como Trump, o pêndulo do discurso está muito radical, embora acredite que com o tempo tudo isto vai ficar mais razoável. Creio que o melhor deste movimento é estarmos a conseguir que homens e mulheres encontrem o seu lugar neste caminho para a igualdade de poderes. Isto é só um começo." Um otimismo que tem que ver com uma ideia que a sua persona cinematográfica passou para fora. A Meg Ryan boa rapariga. Pois, mas a atriz chegou a uma altura em que se cansou de ser a "boa rapariga". "A certa altura percebi que depois de certos filmes, sobretudo o When Harry Met Sally - Um Amor Inevitável, estava a ganhar um carimbo, estava a ficar a "namorada da América". Estou tramada, pensei. Mas a verdade é que para mim isso não era verdade, sobretudo porque fazia também filmes dramáticos pelo meio, embora fosse escusado: as pessoas só me olhavam como a atriz das comédias românticas. Vamos ser francos, ser "namoradinha da América" não é um carimbo horroroso, mas não deixa de ser um carimbo, e isso limita."

Aproveitamos a maré de franqueza e tentamos perceber quando teve mesmo aquele clique para deixar tudo para trás: "Lembro-me que o meu filho se formou numa sexta-feira e, na segunda-feira seguinte, estava a mudar-me para Nova Iorque. Foi o melhor que poderia ter feito. Tinha a consciência de que estava cansada. Sabe, foram muitas décadas a ser dirigida, a levar com maquilhagem e com pessoas a tocar-me a toda a hora para colocar microfones e tudo o mais. Depois de três meses num plateau, só queria que me deixassem em paz. Vi que era tempo de parar. Já não tinha paciência para certos aspetos e sentia que estava a perder coisas que as pessoas normais tinham. Quando se está sempre a ser observada há uma tendência para baixar a cabeça e não olhar em frente, coisa que me impedia de olhar para o mundo. Em Nova Iorque tudo mudou - voltei a poder ficar irritada por não conseguir apanhar um táxi. Claro que amei essa sensação. Sou uma pessoa curiosa e não queria que tudo fosse sempre sobre mim." Se pensarmos bem, foi depois de In the Cut - Atração Perigosa (2003), de Jane Campion, que Meg como que se cansou das comédias românticas que fizeram dela um estereótipo. Mulheres!, de Diane English, péssima comédia, já tem 10 anos, e foi a última vez que a vimos no cinema.

Antes de ser atriz, Meg tentou ser jornalista. Desistiu a meio do curso porque acidentalmente começou a representar. Quando um jornalista nórdico lhe pergunta se há parecenças entre as funções, Meg não fica desarmada: "Sim, aqui e ali há parecenças. Quando fazemos um filme temos, através da pesquisa, de nos tornar experts em algo muito específico. Quando um jornalista investiga um caso também tem de se tornar perito desse assunto. Qualquer ator tem de ser um curioso por natureza, o mesmo se aplica aos jornalistas. Creio também que os realizadores são jornalistas na alma: querem sempre saber o máximo sobre os temas que estão a filmar. O que posso dizer do jornalismo atual nos EUA é que está a melhorar desde que Trump chegou ao poder. Estamos a assistir ao ressurgimento do jornalismo responsável. O The Washington Post e o The New York Times estão sempre a descobrir histórias verdadeiras. Espero que essa liberdade seja protegida."

No fim, contou que está feliz da vida como realizadora e produtora e que não tenciona voltar às comédias românticas. Ithaca (2016), a sua primeira realização, na qual dirige Tom Hanks, nunca teve distribuição internacional.

O Festival de Locarno anuncia hoje os prémios de First Look, secção para os profissionais da indústria que visa premiar filmes em fase de pós-produção. Neste ano, Portugal foi o país convidado numa coprodução com o Instituto do Cinema e Audiovisual, e foram seis os projetos mostrados: Gabriel, de Nuno Bernardo, Hálito Azul, de Rodrigo Areias, Golpe de Sol, de Vicente Alves do Ó, Campo, de Tiago Hespanha, Terra, de Rossana Torres e Hiroatsu Suzuki, e Viveiro, de Pedro Filipe Marques. Mais do que nunca, em Locarno, o cinema português é idolatrado...

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