Paulo Machado: "Via pessoas ao meu lado a fumar e a injetar-se. O futebol ajudou-me"

O médio de 32 anos terminou contrato com o Aves e está sem clube. Nesta entrevista ao DN fala sem problemas da infância no bairro do Cerco e conta episódios caricatos da carreira, como as meias oferecidas por Mourinho e o bigode que fez sucesso na Grécia.

Isaura Almeida

Estreou-se no FC Porto pelas mãos de José Mourinho. Não é para todos...

Pois não. Tinha 16 aninhos e já estava a trabalhar com a equipa principal. Mas ao fim de semana ia jogar pelos juvenis, pelos juniores ou pela equipa B. Ia para onde pediam e onde era preciso.

Estávamos em 2003, ano da primeira Taça UEFA...

Um grande ano. Fui chamado à seleção de sub-17 e fui campeão da Europa nesse ano em Viseu. Como prémio, o FC Porto convidou os portistas campeões para irem ver a final da Taça UEFA a Sevilha, com tudo pago, um luxo. Fui eu, o Vieirinha, o Tiago Costa, o Hélder Barbosa e o Maradoninha ...

Não sei se ainda se lembra dessa final em Sevilha, encontrei-o no estádio e perguntei-lhe se se imaginava a jogar uma final europeia e a repetir aquele momento. E o Paulo, ainda no relvado, respondeu. "É mais certo acabar numa valeta no bairro do Cerco do que fazer carreira no futebol."

Já não me lembro, mas faz todo o sentido. Essa era a minha realidade na altura. Pode parecer uma brutalidade, mas era assim, eu sabia o que via, o que me rodeava e como muitos amigos acabavam...

Como assim?

Vi muita gente a desviar-se do caminho, uns a roubar, outros a drogar-se. Era frequente ver pessoas ao meu lado a fumar e a injetar-se. Nunca experimentei, mas era fácil ter-me perdido nesse caminho também. Não vou dizer que foi o futebol que me salvou disso, porque sempre soube que não era esse o caminho que queria para mim, mas o futebol ajudou. Quem é que não tem tentações? É preciso força de vontade e hoje agradeço a Deus por ter feito carreira no futebol e conseguir ajudar a minha família. Essa sempre foi a minha meta, o meu objetivo próprio, dar aos meus pais o que eles não tiveram.

Há muita gente que pensa que pode fazer carreia no futebol e não consegue...

Sempre acreditei que com vontade e raça conseguia, apesar de haver uma altura em que achava que queria ser mecânico, gostava muito de carros e não ligava nada à escola... Depois comecei a levar o futebol mais a sério. Afinal, tinha chegado ao FC Porto e o ter nascido no bairro fez de mim uma pessoa e um jogador mais maduro para a idade, deu-me arcaboiço para enfrentar tudo sem medo. Não nasci num berço de ouro, acho que nem berço tinha e isso foi a minha força. Jogar no FC Porto era o meu sonho, não havia nada melhor.

Mas quando diz que a família passava dificuldades, refere-se a quê? Falta da comida...

Sim. Não na minha altura, os meus pais nunca nos faltaram com nada, trabalharam duro para que não nos faltasse nada, mas sei que a eles faltou e por isso eu faço questão de compensar esses tempos com alguma fartura agora.

É verdade que uma das vezes em que foi convocado para a seleção A foi comprar bilhetes para as pessoas do bairro do Cerco?

Isso foi no Portugal-Dinamarca, no Estádio do Dragão. Comprei 300 bilhetes e toda a gente no bairro foi ao estádio. Toda a gente sabia que tinha comprado os bilhetes e fiquei de fora. O treinador, a saber que tinha lá a família toda, deixou-me de fora. Mas fui para a beira deles, fiquei lá a cantar com eles. O meu primeiro jogo pela seleção foi no Estádio da Luz contra a Espanha e ganhamos 4-0.

E agora como está o bairro?

Está muito diferente. É o mesmo bairro, o meu Cerco, mas nada a ver... Os meus pais ainda lá vivem e nem querem mudar. Eu continuo a ir lá todos os dias fazer uma visita aos meus pais ou jogar às cartas com o pessoal no café e dar dois dedos de conversa.

Sempre assumiu as origens humildes. Houve algum momento de vergonha ou complexo por ser do bairro do Cerco?

Nunca passei vergonha por isso, se tivesse não falava tão abertamente como falo. Mostro a toda a gente que sou uma pessoa de bairro. Não me esqueço de onde vim só porque tenho mais um pouco de dinheiro. Toda a gente do bairro fica feliz.

Voltando ao FC Porto. Lembra-se da estreia com a camisola dos dragões?

A partir do momento que treinei com a equipa principal podia acabar para o futebol, mas quando joguei... fiquei realizado, era o meu objetivo jogar no clube do meu coração. Quando fui chamado pela primeira vez o bairro foi em peso ao jogo... A maior parte das coisas já não me lembro, estava radiante. Sei que a estreia foi para a Taça de Portugal, com o Vilafranquense, no antigo Estádio das Antas. Ainda joguei nas Antas, um estádio histórico... Hoje sinto-me um felizardo por causa disso. Entrei para o lugar do Sérgio Conceição. Nos jogos da Taça tínhamos de ir de fato e nesse dia fui de fato, mas de meias brancas... Gozaram comigo e fizeram-me desfilar no balneário de meia branca, mas para mim era igual, eram meias e eu podia estrear-me. Mas foi uma algazarra tal no balneário que o Mourinho me chamou e deu-me umas meias pretas. Ainda as tenho, nunca mais as usei, estão lá bem guardadas, para mim foi um gesto muito importante e depois passaram a ser um pedaço de história. Gostei da brincadeira, mas fiquei traumatizado, ainda hoje não uso meias brancas.

Tinha 16 anos, como ia para os treinos?

Ia à boleia com o Quaresma e às vezes com o Bosingwa. O Quaresma ofereceu-se, não tinha problemas de ir ao bairro e como morava perto... Chegávamos muitas vezes em cima da hora ou atrasados, combinavam às 09.00 e chegavam às 9.20. Lá no bairro já sabiam que me iam buscar e estavam sempre à espera de ver o Quaresma. Eu era miúdo, cheio de medo que me chamassem à razão, mas chegávamos sempre a rir. São dois amigos até hoje.

O que falhou para não ter ficado no FC Porto?

As pessoas perguntam muito isso, mas é preciso ver quem jogava no meio-campo: Costinha, Maniche, Alenichev e Deco... Um miúdo como eu para tentar jogar naquele meio-campo não era fácil [risos].

O que significa o FC Porto para si hoje?

É o meu clube do coração. Uma casa onde estive dez anos. Agora, respeito sempre o clube para onde vou e nunca vou para lá fazer figura de estúpido a dizer que sou do clube X desde pequenino.

Quando lhe disseram que a melhor proposta era do estrangeiro como reagiu?

Depois de jogar no Estrela da Amadora, por empréstimo do FC Porto, achei que era o momento certo para emigrar, para ver como era estar fora do país e longe da família. Foi o melhor que fiz. Hoje posso dizer que tive uma carreira engraçada. Nessa altura o jogador jovem e português ainda não era visto como uma mais-valia como hoje. A política era rodar para ganhar calo e foi assim comigo também.

Passou a ser mais um emigrante, na França, na Grécia, na Croácia...

Fui sozinho para França e fiquei três meses fechado no Centro de Estágios do Saint Étienne. Era dormir, comer, treinar, dormir, comer, treinar... Os primeiros tempos foram muito difíceis. Não falava francês e não percebia nada, nem dava para ver televisão. Felizmente nessa altura estava a dar a Volta à França e eu via o ciclismo, mas só percebia quando eles se referiam à camisola amarela. Depois comecei a ter um professor e em cinco meses já falava francês, até me deram um diploma e tudo, por aprender em tão pouco tempo e sem ir à escola, só duas horas por dia. Depois seguiu-se o Toulouse e correu tudo bem, renovei passado um ano e fiz uma grande época. Quando me falaram no Olympiacos quis logo ir porque sonhava jogar a Champions e eles iam ser campeões. Acabei por ir para a Grécia.

Estamos a falar sempre de clubes com adeptos fanáticos, que acabaram por o idolatrar.

Sempre fui brincalhão e sempre estive disponível para os adeptos. E eles sentiam isso. Eu não era nenhuma estrela. Quando era miúdo e ia ver os jogos do FC Porto também gostava que me dessem autógrafos em vez de me ignorarem, já diz o ditado, não faças aos outros o que não queres que te façam a ti... Há sempre excessos, mas faz parte e tu é que tens de te fazer respeitar.

Na Grécia chamam-lhe o mustaki (bigode), como começou a história do bigode?

Isso é que fez de mim ainda mais famoso [risos]. O meu pai sempre teve bigode e um dia na brincadeira lá em casa disse que ia deixar crescer o bigode como o dele. Comecei por deixar crescer a barba, depois cortei-a e ficou só o bigode. Lá em casa e no balneário acharam piada e fui deixando ficar. Depois começaram a chamar-me mustaki (bigodes em grego). Um dia cortei-o e nas redes sociais parecia que os adeptos estavam todos chateados comigo. Voltei a deixar crescer e até o banco da Grécia quis fazer uma publicidade...

Nos sub-17 ganhou a alcunha de O Trator...

Sim, mas isso mudou um pouco. Agora jogo mais a 8 e apurei mais a parte técnica, mas na altura era mesmo um trator, varria tudo a meio-campo. Ou passava a bola ou o jogador.

Porquê o regresso a Portugal e o Desportivo das Aves, que tinha acabado de subir e era um projeto arriscado...

Eu regressei por causa do meu filho mais velho, que ia começar a escola. Eu jogava no Dínamo de Zagreb, mas lá não havia escola em inglês e eu não queria pô-lo na escola croata porque sabia que mais ano menos ano ia embora. Optei por voltar durante um ano para acompanhar o primeiro ano de escola. Assinei pelo Aves porque gostei do projeto que me foi apresentado, achei que era um projeto interessante.

A época correu como esperava?

Sim, ajudei a equipa a manter-se na I Liga e a conquistar a Taça de Portugal. Gostava de ter jogado mais a nível pessoal, mas isso...

Isso...

Isso agora não interessa nada. Já passou.

E o que ficou dessa experiência na Vila das Aves...

A conquista da Taça de Portugal. Já se sabe que quando se ganha qualquer coisa isso é que conta. E comigo é assim, ganhas, festejas. Festa é comigo, e ganhar no Jamor com o Aves era no mínimo inesperado. Foi uma coisa única. Agora é normal falarem que o Sporting não estava bem e tal, mas dentro de campo é que conta e foi lá que nós vencemos. O Aves fez o seu trabalho e ganhou bem, daqui a 20 anos ninguém se lembra de que o Sporting tinha problemas, vão-se lembrar, isso sim, de que o Aves ganhou ao Sporting e conquistou a Taça.

E como reagiram os jogadores quando souberem que apesar de vencerem a Taça de Portugal não iam jogar a Liga Europa?

Eu já não tinha tanta esperança assim, porque sabia que não ia jogar e ia-me embora. Mas o plantel estava a contar com isso e foi uma grande desilusão quando se soube que o clube tinha falhado o licenciamento. Fizeram a festa a pensar que iam jogar nas competições europeias e afinal de contas...

Assinou por uma época e já acabou. E o futuro?

Estou livre e à espera de propostas. Treino todos os dias para me manter ativo e em forma. O mercado está muito parado. Vou esperar mais um pouco para ver se aparecem mais propostas. Depois sento-me com a família e decido.