Trata-se

No sábado passado, na Feira da Ladra, tentei ensinar dois dos meus filhos a regatear, mas a coisa não correu bem. Um deles sai mais à mãe e acredita nas coisas que as pessoas lhe dizem, e por isso comeu tudo o que o vendedor quis, que o brinquedo estava em muito bom estado, que tinha extras que eram de outros brinquedos, e que já não havia mais daquilo nas lojas e, qualidade suprema, vinha com caixa. Porque toda a gente sabe que os brinquedos, depois de se brincar com eles regressam à sua respeitosa caixa, guardados sempre na prateleira dos brinquedos, ludo-cemitério de caixas organizadas por tamanho, tipo e idade. Mas ele dizia pai, tem a caixa, e lá largou os dez euros que tinha e trouxe a arena dos Pokémons, com extras e caixa, para casa. E nunca mais ninguém se lembrou da caixa, talvez o mais novo para fazer uma casa (acho que gosta da similitude fonética casa caixa), e ainda por lá está a arena.

Quanto ao outro tipo, o falhanço foi de outro tipo, tão agarrado que estava à nota de dez, também porque achava que ficaria com ela se não a gastasse ali na feira, e depois quando percebeu que não já era tarde, tão agarrado estava e tão agarrado que é que não gastou nada, saiu de casa para ficar em casa. Havemos de voltar, e a conversa vai ser se desta vez tem direito a dez euros, ou a vinte, com os dez que não gastou da outra vez, que é injusto, porque assim o irmão teve dez mais dez, e ainda falta o dinheiro que lhes estou a dever, porque um, uma vez, pôs tabasco nos olhos e eu prometi uma prenda em dinheiro por tão brava façanha, e mais disto e daquilo, que mais pareço o Japão com tanta dívida.

Aproveitámos para pagar uma antiga dívida de simpatia e cumprimentar a dona Noémia, que há muitos anos ali vende móveis, numa das laterais do mercado, ai que ricos meninos, conheci o pai com esta idade, que ricos meninos, já estou um pouco esquecida; esquecida mas entra logo a falar de memórias de ontem como se fossem hoje. Deve ter mais de oitenta, o tempo não para (Elza Soares, que também cantou O Tempo não Para, do Cazuza, lançou em 2015, com 85 anos, o primeiro álbum de originais, Mulher do Fim do Mundo, nome do álbum e de uma das mais bonitas músicas de sempre).

Um dia voltamos à feira para vender, como antigamente, mas para vender é precioso saber comprar, e temos de treinar mais. Mas, pai, vender não é ilegal? É, é preciso ter uma licença, por isso está ali em baixo a polícia a chatear as pessoas (a polícia quando chateia é sempre as pessoas, para transmitir mais inocência), mas quando vier a polícia a gente diz que não está a vender, tapa as coisas com um lençol, e a polícia finge que acredita neste formalismo jurídico que lhes tentei ensinar, mas não perceberam bem, porque se estamos a vender o que é que o lençol a tapar tem a ver?

É também no mercado das coisas velhas que está um dos melhores exemplos do chico-espertismo português. Os carros em segunda mão com um papel no vidro que diz trata-se em maiúscula em cima de um número de telefone escrevinhado a preto, porque um trata-se não é um vende-se, e como não é um vende-se não há que pagar supostos impostos e taxas para a venda na via pública. Claro que trata-se não é vende-se, é trata-se. Trata-se no sentido de conversa-se sobre o carro, todos os assuntos sobre este carro é favor ligar para o número abaixo, em horários de expediente, antes era assim nos anúncios de jornal, ligava-se apenas para os números , fixos que não havia outros, em horário de expediente porque era o telefone do serviço, ou do emprego, que era uma espécie de serviço mas não tão bom, e dava jeito porque as casas não tinham telefone; ou era anúncios que não interessava que se soubesse em casa que existiam. Estão a ver, ali um telefone como antigamente, era preciso fazer com os dedos naquela roda. Também podia ser com uma caneta.

Advogado

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