Carta sínica

Deu-se a globalização económica sem se acautelar idêntica globalização política, sem garantir o respeito universal pela democracia e pelos direitos humanos.

Em 11 de Dezembro de 2001, a China aderiu com pompa à Organização Mundial do Comércio. Que esse facto tenha ocorrido exactamente três meses depois dos ataques às Torres Gémeas de Nova Iorque é algo que na altura passou despercebido, mas que agora adquire um significado singularíssimo, quase profético. Em resultado disso, o Ocidente abriu as portas do comércio mundial a quem produz e negoceia em condições de enorme vantagem, por praticar vários dumpings (ambiental, social, etc.) e por não estar sujeito aos constrangimentos próprios da democracia e do Estado de direito. Por não estar sujeito às regras antigas, hoje caídas em desuso, que nos impunham tratar com dignidade e justiça os nossos semelhantes.

As empresas e os governos festejaram a entrada da China na OMC, pois assim conquistaram acesso a um mercado de milhões de potenciais compradores e puderam fazer milionários negócios ou até instalar as suas fábricas em terras de mão-de-obra escrava, sem sindicatos nem greves. Também os cidadãos-consumidores ficaram encantados, pois doravante puderam gastar à farta em produtos baratíssimos. As cidades encheram-se de lojas de chineses, com colas que não colavam e pregos que não pregavam, mas com o tempo e o dinheiro eles foram melhorando as coisas e hoje até produzem os telemóveis-espiões da Huawei. Actualmente, a China tem quatro vezes mais utilizadores de telefones móveis do que os Estados Unidos. É obra.

Quer dizer, deu-se a globalização económica sem se acautelar idêntica globalização política, sem garantir o respeito universal pela democracia e pelos direitos humanos. Antigamente, no mundo de ontem, só se podia ser membro de organizações como o Conselho da Europa ou a União Europeia se se cumprissem determinados requisitos de liberdade e justiça, e à conta disso a Turquia desespera desde 1987 para que a deixem entrar na UE. Com a China é diferente: todos os dias ela entra pela Europa adentro sem pedir autorização ou solicitar licença. A China proteccionista é o maior parceiro de negócios da União, perante a qual a Europa teve o ano passado um défice comercial de 185 mil milhões de euros (Portugal também registou recordes em 2018, o maior défice comercial de sempre com a China, 1,7 mil milhões de euros, com um aumento de 14,7 % das importações e uma diminuição de 21,9 % das exportações).

No entanto, a questão não é económica, ou não é só económica. Acima de tudo, é política ou, se preferirem, é civilizacional. A partir do momento em que a hegemonia do mundo está a ser transferida para uma potência ditatorial e não democrática, para um país que não respeita sequer os seus próprios cidadãos nem os seus direitos mais elementares, a democracia fica ameaçada em toda a parte do planeta, incluindo no Portugal da EDP e da REN, do BCP e da Fidelidade. Vemos confusões e tumultos nas ruas de Hong Kong, com a polícia a carregar sobre os manifestantes pela liberdade, e julgamos que o problema é deles. Não, não é, o problema é nosso, também é nosso. Imagine-se que os Estados Unidos tinham uma dívida de mais de um trilião de dólares a Adolf Hitler, que é o que agora Washington deve a Pequim. Teria sido possível, com uma dívida desse montante, a América combater o nazismo na II Guerra? E não, não venham falar em sinofobia e dizer que a China de agora é diferente da Alemanha nazi, pois Mao Tsé-Tung matou muitíssimo mais gente do que Adolf Hitler e continua a ser venerado e aclamado, e até tem o seu retrato exposto em destaque na Praça de Tiananmen, o epicentro dos massacres de 1989, nunca renegados. Agora, um matemático criativo da Universidade de Shandong veio dizer que Mao matou "apenas" uns três ou quatro milhões de compatriotas, mas os estudos mais fiáveis continuam a apontar para 30 a 70 milhões de mortos. Aliás, 45 milhões de mortos no Grande Salto em Frente, a campanha lançada por Mao em 1958-1960, é o número referido por um grande especialista, o holandês Frank Dikötter, que, numa entrevista há dias ao Le Monde, dizia que "a China é um Estado que impõe a amnésia" e onde não existe, evidentemente, qualquer monumento ou memorial às vítimas do maoismo. Enquanto isso, por cá proclamamos o "direito à memória" e lembramos, e bem, os mortos das nossas ditaduras, mas ai de quem, governos incluídos, ouse recordar os milhões de vítimas da Revolução Cultural ou do Grande Salto em Frente, o maior massacre não militar da história da Humanidade. O Dalai-Lama foi silenciado, é hoje um pária no concerto das nações, o Tibete foi riscado do mapa e Taiwan vai pelo mesmo caminho: neste momento, só 17 países mantêm relações diplomáticas com Taipé.

A China é, segundo a Freedom House, o país do mundo com mais prisioneiros políticos e a liderança de Xi Jinping, que segundo vários observadores endureceu severamente a repressão, não hesita em encarcerar advogados, activistas pelos direitos humanos, chefes religiosos, bloggers, jornalistas, defensores dos direitos das mulheres e das minorias. Algum governante ousaria lembrar isso ao presidente chinês numa das suas aparatosas visitas oficiais ao Ocidente?

Dizem alguns que Trump é que é, pois Trump bate o pé à China. Mas Trump, coitadito, não passa de uma expressão pateta e patética do domínio chinês do mundo, e foi eleito pelo grito de desespero dos operários da América profunda que perderam os empregos e o poder de compra por causa de uma globalização desigual e assimétrica. Em 2001, a China representava 39 % do PIB dos Estados Unidos; em apenas sete anos, em 2008, esse valor ascendeu a 62 % e, perto de 2016, o PIB da China passou a representar 114 % do PIB norte-americano (segundo vários estudos, é provável que cresça de forma mais acentuada e sustentada nos próximos anos.) Em Inglaterra há palermas que julgam que, com o Brexit, se vai restaurar o velho Império britânico e o seu poderio sobre os mares, não percebendo que Donald Trump, Boris Johnson e outros populistas de opereta são meras manifestações histriónicas do irreversível declínio do Ocidente. O canto do cisne, o derradeiro estertor. Não admira, por isso, que o actual Representante do Comércio da América, Robert Lighthizer, tenha vindo dizer, no início de 2018, que foi leviana e insensata a forma como os Estados Unidos permitiram a entrada da China na OMC. Nas suas palavras, "os Estados Unidos erraram ao apoiar a entrada da China na OMC em termos que vieram a revelar-se ineficazes para garantir que a China adoptasse um regime comercial aberto e pautado pela economia de mercado". A hegemonia estende-se para lá do comércio, como é evidente, e, além de projectos colossais como a tentacular Faixa e Rota, vê-se em pormenores como este: em quinze anos, o número de alunos africanos a estudar em universidades da China aumentou 26 vezes e actualmente há mais estudantes anglófonos de África a frequentarem cursos na China do que no Reino Unido ou nos Estados Unidos.

Num livro saído há uns tempos, A Queda do Ocidente? Uma Provocação, Kishore Mahbubani, professor em Singapura, começou por lembrar o óbvio: na história da Humanidade, só nos últimos 200 anos a vanguarda pertenceu ao nosso lado. Entre o ano 1 e o ano 1820, as duas maiores economias do mundo foram sempre as da China e da Índia, pelo que a situação que vivemos hoje, diz ele, mais não é do que a reposição expectável do que aconteceu ao longo de 1800 anos, só momentânea e ilusoriamente interrompido pela Revolução Industrial inglesa. É quase como se a ordem natural das coisas pertencesse ao Oriente, que tenhamos de nos conformar com isso e, a bem do "realismo" e do "pragmatismo", tenhamos de nos conformar com os atentados da China à democracia e aos direitos humanos. No fundo, que em nome da Realpolitik sejamos obrigados a abdicar do que somos e como somos, há muitos e muitos séculos.

Por falar em ordem natural, e já que agora celebram, com mortos nas ruas de Hong Kong e paradas militares em Pequim, os 70 anos da República Popular da China, convém falar do planeta. Desde 2006, a China é o maior emissor de CO2 do mundo. Na distribuição per capita, e dada a sua população gigantesca, a RPC fica aquém dos EUA, mas no cômputo total a sua produção de dióxido de carbono ultrapassa a da América e da Europa juntas (!), e a tendência é para aumentar - e muito. Há várias e belas proclamações oficiais, mas a verdade é que, por exemplo, o recurso ao carvão, um dos combustíveis mais poluentes que existem, tem vindo a crescer significativamente, sem sinais de abrandamento. A RPC, como é óbvio, não é a responsável exclusiva pelo aquecimento global mas a explosão económica chinesa das últimas décadas e o ritmo alucinante das alterações climáticas são fenómenos interligados. Alguns especialistas asseguram mesmo que as grandes cidades chinesas acabaram por criar um novo tipo de poluição atmosférica, que combina a poluição habitual do mundo industrializado e a poluição por pequenas partículas típica dos países em vias de desenvolvimentos. O pior dos dois mundos, portanto. Em 2013, houve 1,37 milhões de mortos por poluição atmosférica na República Popular da China, um país que agora se orgulha de pertencer ao primeiro mundo mas que, no seio desse clube selecto, ocupa sempre os últimos lugares nos índices de qualidade de vida dos seus cidadãos. Os mais condescendentes dizem que se trata de uma característica atávica daquela civilização milenar e que o desprezo pelo valor individual de cada pessoa é ditado por uma obsessão pelo "colectivo". Contudo, se aceitarmos isso como uma inevitável originalidade sínica, estaremos a ceder naquilo que somos e naquilo que nos define, também a nós, como civilização singular.

A entrada da China na OMC representou a chegada ao mundo globalizado de quase mil milhões de trabalhadores, o que, juntamente com o afluxo dos trabalhadores da Europa de Leste pós-comunista, implicou o declínio dos salários reais e a perda maciça de muitos postos de trabalho no Ocidente, levando ainda, como notou um relatório de 2017 do Banco de Compensações Internacionais, a um aumento da desigualdade no seio das economias ocidentais. Seria apressado e injusto atribuir à China as culpas por tudo o que de mal acontece à face da Terra, das alterações climáticas às desigualdades sociais. E é louvável e positivo que muitos milhões de chineses tenham sido resgatados da miséria, que tenha surgido uma nova classe média próspera e que agora muitos chineses possam viajar pelo mundo, contribuindo alegremente para a devastação dos centros históricos das principais cidades europeias. Em 2016, já havia mais de cem milhões de turistas chineses, e desde então os números têm vindo sempre a subir. Nem todos, porém, podem viajar quando querem. No passado mês de Setembro, os diplomatas acreditados em Pequim ficaram estupefactos ao saber que os funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros viram canceladas as suas férias de Verão. Ao que parece, foram todos obrigados a permanecer em casa para ir à escola do Partido e para reflectir sobre o novo slogan para os próximos tempos: "Permanecer fiel ao compromisso inicial, manter sempre o espírito da missão." Que "compromisso inicial" será esse e em que consistirá tal "missão" é algo que não sabemos. Mas sabemos que, desde o mês de Junho, 90 milhões de membros do Partido receberam ordens para aprender o significado desses chavões. Na escola de quadros do Partido Comunista da China, a oeste de Pequim, por onde passam anualmente dez mil estudantes, o novo slogan é estudado com disciplina e afinco. A última vez que o presidente Xi Jinping lá esteve, no passado dia 3 de Setembro, pronunciou um discurso vigoroso e belicista, em que a palavra "luta" foi usada 53 vezes. É preciso dizer mais?

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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