Português assina estudos em Harvard apanhados em escândalo de fraude

João Ferreira-Martins fazia parte da equipa de Piero Anversa, médico que gerou controvérsia por defender que o coração pode ser regenerado através de células estaminais e que acaba de ver a Harvard Medical School pedir que sejam retirados 31 dos seus estudos. (Publicado originalmente a 5 de novembro)

O início deste século chegou com a promessa de uma verdadeira revolução na cardiologia, uma das áreas que mais mortes provocam em Portugal e no resto do mundo ocidental. Mas 18 anos depois, o pai da teoria da regeneração cardíaca baseada na utilização de células estaminais acabou por cair em desgraça. Piero Anversa, um médico italiano de 80 anos que ficou conhecido por defender que o coração contém células estaminais capazes de regenerar o músculo cardíaco após um enfarte, acaba de ver a Harvard Medical School e o Brigham and Women's Hospital, onde trabalhou entre 2007 e 2015, pedirem para que 31 dos artigos assinados pela sua equipa fossem retirados (retratados) das revistas onde foram publicados.

Os estudos em causa continham "informação falsificada e/ou fabricada", concluíram as duas instituições americanas ao fim de cinco anos de investigação ao trabalho do laboratório liderado por Anversa. Um escândalo de "reiteradas más práticas" que apanha também um português, João Ferreira-Martins, investigador que fez parte da equipa de Piero Anversa em Harvard e que coassinou alguns trabalhos entretanto retirados.

Embora Harvard não tenha informado quais os 31 estudos em causa ou em que revistas foram publicados - o DN enviou perguntas à universidade norte-americana, mas ficaram sem resposta -, há pelo menos 55 artigos publicados pela equipa de Anversa em jornais especializados ao longo dos anos e 15 deles têm como coautor João Ferreira-Martins. Um deles (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22955965), publicado na revista Circulation, já tinha mesmo sido retratado publicamente, em 2014, por adulteração de dados; noutros, Ferreira-Martins apresenta investigação na mesma área da regeneração cardíaca através da utilização de células estaminais (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22851539) e num desses trabalhos é mesmo o primeiro autor (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22275487); e agora em outubro, depois do pedido da Harvard Medical School, o conceituado New England Journal of Medicine (NEJM) retirou um outro artigo coassinado pelo investigador português em 2011 - e que ainda surge no seu currículo publicado no LinkedIn - (https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMe1813802), sobre a utilização de células estaminais nos pulmões. A retratação é a rejeição mais grave do trabalho de um cientista, indicando que a sua investigação tem erros graves.

Foram mesmo alguns dos responsáveis pelo estudo - sem que se saiba se João Ferreira-Martins está entre eles - que avançaram com o pedido de retratação ao NEJM. "Uma revisão dos dados iniciais levou-nos a concluir que já não temos fé na veracidade de algumas imagens", sublinham os investigadores numa nota publicada a meio de outubro, que tem por base as denúncias de manipulação de informação avançadas por Harvard e Brigham. Agora como em 2014, o principal autor dos artigos era Jan Kajstura, uma peça chave na equipa de Anversa em Harvard que foi acusado de ter adulterado dados sobre isótopos de carbono presentes nos corações de 36 pessoas, entre os 2 e os 78 anos, para provar que as mais velhas - que tinham sido expostas a radiações na década de 1950, na sequência de testes nucleares - tinham os mesmos níveis de isótopos das crianças. Conclusão do estudo: as células cardíacas conseguem regenerar-se. Problema: o cientista do Lawrence Livermore National Laboratory que forneceu os dados para a investigação acusou o laboratório de Anversa de ter adulterado a informação para que os corações dos idosos parecessem iguais aos das pessoas mais novas e pediu que o artigo fosse retirado, o que aconteceu em 2014.

Há pelo menos 55 artigos publicados pela equipa de Anversa em jornais especializados ao longo dos anos e 15 deles têm como coautor João Ferreira-Martins.

Piero Anversa rejeitou qualquer responsabilidade na fraude e ainda hoje afirma que continua a ser castigado pelos erros de Kajstura. Em declarações escritas ao DN, João Ferreira-Martins - que rejeitou falar ao telefone por "não ter conhecimentos factuais sobre esta matéria que justifiquem uma entrevista neste momento" - alinha nos mesmos argumentos. "Colaborei com este grupo com toda a seriedade e rigor que me são conhecidos. Se algo de errado foi cometido por algum/alguns dos muitos colaboradores que contribuíram para os trabalhos desenvolvidos, é uma matéria de que não tenho conhecimento, mas que estará naturalmente a ser investigada."

Colaborei com este grupo com toda a seriedade e rigor que me são conhecidos. Se algo de errado foi cometido por algum/alguns dos muitos colaboradores que contribuíram para os trabalhos desenvolvidos, é uma matéria de que não tenho conhecimento, mas que estará naturalmente a ser investigada.

Relatos de um membro anónimo da equipa de que Ferreira-Martins fazia parte, publicados na altura no siteRetraction Watch, dedicado às investigações sobre a veracidade de artigos científicos, retratavam um dia-a-dia no laboratório conduzido sob um severo embargo informativo. "A equipa era liderada por Piero Anversa, com os líderes de grupos Annarosa Leri, Jan Kajstura e Marcello Rota imediatamente abaixo a supervisionar as experiências. Depois havia um grupo de 25 pessoas, entre instrutores, investigadores bolseiros, estudantes de pós-graduação e técnicos. A informação tinha apenas um sentido, que era para cima, e as conversas entre os diferentes grupos de trabalho eram desencorajadas e muitas vezes proibidas."

Descoberta foi notícia em Portugal

Formado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, João Ferreira-Martins, tal como a restante equipa, já não trabalham em Harvard. O investigador português está em Londres, onde, como informa na sua página doLinkedIn, é especialista em cardiologia na London Deanery, de formação pós-graduada em medicina. Há precisamente sete anos, em outubro de 2011, Ferreira-Martins era notícia em Portugal por ter descoberto que "as células estaminais que se encontram no coração podem servir para prevenir malformações deste órgão durante o crescimento e tratar pacientes com insuficiência cardíaca". Na altura, a Lusa noticiou que "os resultados da investigação demonstraram que estas células são criadas dentro do coração e possuem as propriedades fundamentais das células estaminais, que as tornam tão promissoras, como a capacidade de se autorrenovarem e de se transformarem em diferentes tipos de tecido cardíaco". Um trabalho que chegou a valer a João Ferreira-Martins, então a chegar aos 30 anos, a atribuição de um prémio por parte da Sociedade Americana de Insuficiência Cardíaca.

A questão é que esta ideia, defendida pelo principal responsável da equipa de investigadores da Harvard Medical School da qual Ferreira-Martins fazia parte, já era contestada há uma década por vários especialistas, que nunca conseguiram comprovar a teoria de Piero Anversa. Rui Ferreira, diretor do serviço de Cardiologia do Hospital de Santa Marta e responsável pela área das doenças cerebrocardiovasculares da Direção-Geral da Saúde, lembra-se de ter assistido a conferências de Anversa e do impacto que a sua investigação causou. "Seria de facto revolucionário, a confirmar-se a sua tese, mas há muito trabalho a fazer." Sem comentar a eventual adulteração de dados em estudos publicados pela equipa do médico italiano, Rui Ferreira até admite que "conceptualmente essa teoria é possível", mas não com as células que estão a ser usadas e da forma como estão a ser aplicadas. "Retirávamos o sangue periférico (do braço, por exemplo), era depois sujeito a um processo de purificação, e eram reinjetadas as células mais promissoras. Mas não se conseguiram benefícios. Tem de haver mais investigação."

Uma teoria revolucionária

Em 2000, num congresso da Associação Americana do Coração, Piero Anversa, um médico italiano nascido em Parma e na altura professor na New York Medical College, pôs em causa um principio básico da medicina: que o coração humano não pode ser regenerado. A sua teoria partia da ideia de que as células estaminais, quando no ambiente certo, podem transformar-se em qualquer outra célula do corpo e partia de experiências efetuadas com células da medula óssea em ratos. Por exemplo, ilustrava Anversa, se uma célula estaminal for colocada no coração pode transformar-se numa célula cardíaca. Em 2001, Anversa publicava a sua descoberta na revista Nature.

Mas já depois disso, o investigador foi ainda mais longe: que também o coração tem células estaminais que podem ser removidas, tratadas em laboratório e reinjetadas no coração para regenerar o músculo cardíaco a seguir a um enfarte. Em 2011, João Ferreira-Martins explicaria à Lusa que "estas células são criadas dentro do coração e possuem as propriedades fundamentais das células estaminais, que as tornam tão promissoras, como a capacidade de se autorrenovarem e de se transformarem em diferentes tipos de tecido cardíaco".

Como seria de esperar, uma descoberta desta envergadura gerou uma verdadeira corrida à investigação nesta área. Área em que Charles Murry, da Universidade de Washington, e Loren Field, de Indiana, já tinham conduzido experiências, todas elas sem grandes resultados. "Como é que não conseguimos perceber isto?", recorda-se Murry, em declarações ao The New York Times, de ter perguntado à sua colega. Decidiram voltar ao laboratório para experimentar a hipótese de Anversa, mas os resultados foram novamente negativos, tal como aconteceu com outros investigadores que não conseguiram provar a teoria do médico italiano.

No ano passado, Harvard e o Brigham and Women's Hospital pagaram dez milhões de dólares (cerca de nove milhões de euros) num acordo judicial para resolver um processo contra a equipa de Anversa.

A interrogação que se pode colocar é como, apesar de todas as dúvidas em torno da sua teoria, Piero Anversa foi contratado em 2007 para uma das instituições mais reputadas na área, a Harvard Medical School, com uma posição de destaque no hospital que lhe está associado, o Brigham and Women's, onde liderou o Centro para a Medicina Regenerativa. "Os avanços científicos podem ao início parecer controversos", justificou-se na altura o hospital, "e a controvérsia em torno das descobertas não é suficiente para afastar um especialista qualificado".

Mas oito anos depois, Anversa acabou mesmo por não resistir às controvérsias em torno do seu trabalho e foi obrigado a deixar Harvard. No ano passado, Harvard e o Brigham and Women's Hospital pagaram dez milhões de dólares (cerca de nove milhões de euros) num acordo judicial para resolver um processo por a equipa de Anversa ter recorrido a "imagens e informação fabricada" para receber fundos dos National Institutes of Health, agência do governo norte-americano. Mas a investigação interna continuou e redundou agora no pedido de retirada de 31 artigos assinados por Piero Anversa. "É um número de estudos extraordinário", admite ao The New York Times Jeffrey Flier, reitor da Harvard Medical School até 2016. "Não me recordo de nenhum caso como este. Numa reação ao mesmo jornal, Anversa, que entretanto passou por institutos em Itália e na Suíça, insiste que não fez nada de errado. "Sou um idoso de 80 anos que trabalhou a vida toda para ter impacto na área da insuficiência cardíaca. Agora estou isolado."

Ensaios clínicos cancelados

Já depois do anúncio do último mês de Harvard, o National Heart, Lung, and Blood Institute, dos Estados Unidos, decidiu suspender o ensaio clínico que estava a realizar com a Universidade do Texas e que envolvia 144 pessoas. Já tinham sido recolhidas amostras de sangue de 117 delas e 90 doentes já tinham sido tratados.

Sou um idoso de 80 anos que trabalhou a vida toda para ter impacto na área da insuficiência cardíaca. Agora estou isolado.

Em Portugal, adianta Rui Ferreira, há cinco anos tínhamos vários grupos a trabalhar nesta área, mas todos foram abandonando os ensaios porque os resultados foram no mesmo sentido. "Na prática, nós no grupo do Centro Hospitalar Lisboa Central fizemos investigação nessa área sem grandes resultados. Tinha um benefício marginal nos doentes, não houve efeito de agravamento na condição dos doentes, mas também não se notavam melhorias. Houve dificuldade de mostrar a eficácia da utilização das células estaminais na regeneração cardíaca." (Publicado originalmente a 5 de novembro)

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Betinho

"NBA? Havia campos que tinham baldes para os jogadores vomitarem"

Nasceu em Cabo Verde (a 2 de maio de 1985), país que deixou aos 16 anos para jogar basquetebol no Barreirense. O talento levou-o até bem perto da NBA, mas foi em Espanha, Andorra e Itália que fez carreira antes de regressar ao Benfica para "festejar no fim". Internacional português desde os Sub-20, disse adeus há seleção há apenas uns meses, para se concentrar na carreira. Tem 34 anos e quer jogar mais três ou quatro ao mais alto nível.