Quem substituirá Merkel na Europa?

Ao contrário do que aconteceu em Berlim, onde a corrida ao lugar de Angela Merkel começou assim que a chanceler anunciou a pré-reforma, em Bruxelas e pela Europa fora não há candidatos a desempenhar o seu papel na União Europeia. E há, pelo menos, três razões para isso: Merkel tem uma ideia do quer que a Europa seja, a sua ideia de Alemanha precisa dessa Europa, e não há mais ninguém nem nenhum Estado membro que reúna essas duas características: poder e vontade. Tudo isto, sendo razoavelmente evidente, prova ainda outra coisa: a Europa é uma construção (coisa que até os federalistas concedem) frágil (isso já lhes custa aceitar) que (é aqui que a coisa se complica), sem lideranças nacionais convictas quanto à importância e decididas quanto ao que é preciso fazer para a ir construindo, não é garantido que resista. Um problema que o entusiasmo dos federalistas e a emergência de nacionalismos primários agravam.

No seguimento das crises de 2008, foi evidente que a Europa dependeu sobretudo de Merkel. Foi ela quem exigiu a sobrevivência do euro, garantiu a permanência da Grécia, impôs uma (ou alguma) limpeza das contas públicas a sul, incentivou investimentos e deixou claro que não haveria partilha de risco sem partilha de soberania. Ao mesmo tempo que tentou explicar aos alemães a falta que a Europa lhes fazia. Outros fizeram, notoriamente, parte deste processo, mas foi a Alemanha que definiu o rumo. E fê-lo por ser o país que é, claro; mas também por ser o Estado membro que mais presente tem a ideia de que o seu destino depende do destino da Europa e que tem uma ideia clara do que quer que a Europa seja.

Merkel tem uma ideia do quer que a Europa seja, a sua ideia de Alemanha precisa dessa Europa, e não há mais ninguém nem nenhum Estado membro que reúna essas duas características: poder e vontade.

A partida do Reino Unido fará imensa mossa à Europa, entre outras coisas, porque os britânicos são, com frequência, a voz não federalista e a favor do mercado mais sensata. Mas, convenhamos, ninguém terá especiais saudades da visão e da liderança de Brown, Cameron ou May. Não mudaram, ou sequer moldaram, o mundo. Do lado de baixo do Canal, Sarkozy também tentou que a França voltasse a ser uma das potências europeias, mas não se pode dizer que tenha feito história. E quanto a Macron, a maior obra conseguida foi ganhar a Le Pen com um discurso assumidamente europeu e de defesa da democracia liberal. Mas não fez, até agora, muito mais do que isso. As suas ideias para a Europa têm a influência de um discurso e o peso de uma reflexão. Merkel, pelo contrário, marcou. Porque teve tempo e é a Alemanha? Claro. Mas também porque tinha, claramente, ideias sobre e para a Europa. E agora?

A Europa é uma construção de Estados membros. Não existe para lá deles nem das suas lideranças. E por maior que seja o papel da Comissão ou do Parlamento, é nas capitais que está a origem da Europa e a sua permanência (o que, para um europeísta não federalista, não faz mal nenhum). A saída de Merkel pode ser o começo de mais colegialidade ou da rutura. Por enquanto, a alternativa não é outro modelo, é o vazio. Mais do que suficiente para estarmos preocupados.

Consultor em assuntos europeus

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