Premium "Falta qualidade e igualdade na educação da América Latina"

O novo secretário-geral da Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI), o espanhol Mariano Jabonero, falou ao DN em vésperas de visitar Portugal.

O espanhol Mariano Jabonero assumiu na terça-feira o cargo de secretário-geral da Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OIE) numa cerimónia na Casa da América, em Madrid. Como prometido, a sua primeira viagem após tomar posse, sucedendo ao brasileiro Paulo Speller, será a Lisboa, nos próximos dias 9 e 10 de julho.

A língua portuguesa é a língua fraca na região ibero-americana?

O que tenho previsto para a OIE é que seja uma verdadeira região bilíngue. O espanhol e o português são as duas línguas que ocupam maior território em toda a América Latina e são as de maior crescimento e expansão. São as duas línguas francas do espaço ibero-americano, que é um espaço muito grande, até com uma presença cada vez mais importante e notável em países de língua inglesa, como os EUA.

É então importante apostar no português....

Sim, para mim tem tanta importância quanto o espanhol dentro da OIE. É preciso dar conteúdo político, conteúdo orgânico, à língua portuguesa e à cultura portuguesa, dentro de uma região que tem que ser, necessariamente e realmente, bilingue.

Na educação, Portugal é um país que está a subir nos rankings do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). O que estamos a fazer bem e que exemplos podemos exportar para outros países ibero-americanos?

Essa exportação de políticas sociais, de cultura, é quase impossível, porque as condições de cada país são muito diferentes. Dito isto, acho que na OIE temos que dar valor às coisas boas e às coisas que se fazem bem na nossa região. E começar a superar um certo colonialismo pedagógico. De repente aparecem modelos de referência que são magníficos, que são maravilhosos, como o da Estónia, Finlândia, Singapura ou Coreia, que são modelos que são de sucesso, evidentemente, mas muito longe das nossas realidades. Contudo, junto a eles, não aparece o facto de Portugal ser o país, entre todos os europeus, que até com a intervenção da troika pelo meio, melhorou mais a qualidade educativa nos últimos anos. É há outro dado que é quase desconhecido, que quando conto as pessoas ficam surpreendidas. O país que mais avançou no PISA, em todo o mundo, foi o Peru, que subiu 42 pontos. É preciso contar isso, porque algo de bom fizeram no Peru para que isso tivesse acontecido. Acho que é esse o papel da OIE, dar valor às coisas boas, aos bons exemplos, de boa prática dos países ibero-americanos.

E quais são os principais problemas de educação no espaço ibero-americano?

A falta de qualidade e de igualdade. Na América Latina chegou-se a uma taxa de cobertura de educação primária e básica de 100%. O problema quantitativo que existia até agora, já não existe. As crianças vão à escola, salvo excepções. Têm acesso à escolaridade primária e básica, entre os 5 e 6 anos e entre os 13 ou 14 anos. É uma conquista histórica. Mas é uma escola que reproduz as desigualdades da região. A região latino-americana é uma das regiões mais desiguais do mundo. Brasil, Guatemala ou Colômbia são países recordistas mundiais da desigualdade, na diferença entre ricos e pobres, uma desigualdade que se "encarrega" de perpetuar essa desigualdade.

Além disso a qualidade da educação é baixa. É baixa porque os níveis são baixos, porque os profissionais que se contrataram nos últimos anos, foram milhões de professores para atender a uma escolarização massiva, são milhões de docentes com baixo nível de formação. E o sistema de avaliação da qualidade na América Latina, a prova que te dá a informação, para poder corrigir, é recente. Há países da região que estão a incluir agora o nível PISA, enquanto outros países, como Portugal, já lá estão há 20 anos. E há outro fator, que é a grande diferença entre países. Há países em que se parte de situações de precariedade e dificuldade muito graves, como os países da América Central, que não nos podemos esquecer estava em guerra civil há 15 anos.

Ainda há países com problemas graves, como a crise económica, social e política na Venezuela, ou a crise na Nicarágua. Também terá impacto na educação...

Sim, porque as sociedades civis e os políticos mudam de foco. Neste momento, na Nicarágua, o foco está precisamente na crise de violência, grave, muito grave, com centenas de mortos, que faz com que tudo o resto fique em segundo plano. Se a isso acrescentamos o facto de a Nicarágua ter sido sempre um dos países mais pobres da América Latina, então vemos que o nível de precariedade é muito complicado. Na Venezuela, é algo parecido. É um país no qual há um conflito político muito complexo e já muito longo, e que de uma forma ou outra afeta o funcionamento normal das instituições e do sistema educativo.

A escola é uma instituição muito resistente e muito difícil de mudar

E nos países onde não há esses problemas, será que se estão a preparar os alunos para o século XXI?

A escola é uma instituição muito resistente e muito difícil de mudar. A escola sempre foi muito opaca. O problema da resistência à mudança é porque, nos últimos 15 ou 20 anos, houve muitas reformas educativas, com mudanças muito rápidas, algumas que não foram até ao fim, e isso fez com que os docentes ficassem céticos. E quando um político vem anunciar mais uma reforma, muitos professores acabam por dizer: mais outra?. E isso gerou inquietude, insatisfação. Por outro lado, o que se fala agora é de uma mudança crucial na escola. Porque o mundo também mudou de uma forma como nunca tinha mudado. Há um dado objetivo. Nunca a educação foi tão importante, a nível da sociedade do conhecimento, mas nunca foi menos garantia. Há 30 ou 40 anos, um rapaz ou uma rapariga fazia o curso de advogado, médico, engenheiro e tinha a vida resolvida. De certeza. Agora não. Tem um curso e tem que fazer um segundo curso. Não há trabalho, há precariedade. E tudo tem a ver com as competências que são exigidas pela sociedade, que são distintas. São as competências comunicativas, científicas, digitais e, muito importantes também, as de nível emocional. Ter boa relação, ter capacidade de trabalhar em equipa, entender-se, ser tolerantes. Tudo isso é um mundo muito novo.

Para essas pessoas, de baixo nível de rendimento, entrar na universidade é mais caro do que era antes para outras pessoas que tinham melhores níveis de rendimento

E ao nível universitário?

Temos um problema muito grave. O ensino universitário expandiu-se de forma meteórica na América Latina, porque felizmente houve um aumento da classe média, houve milhões e milhões que saíram da pobreza. Essa classe média tem filhos que estão a entrar na universidade que são os primeiros da sua família a fazê-lo. Como ocorreu em Espanha e Portugal há uns anos, com uma mudança sociológica. Então, neste momento, há milhões de jovens que entraram na universidade e o que está a acontecer é muito problemático. Por um lado, as universidades públicas, uma parte, não todas, estão a subir os preços das matrículas. Portanto, para essas pessoas, de baixo nível de rendimento, entrar na universidade é mais caro do que era antes para outras pessoas que tinham melhores níveis de rendimento. Porque os custos com os estudos subiram. E, em segundo lugar, ampliou-se a oferta de universidades que eu podia qualificar, sem dúvida alguma, de baixa qualidade. Além disso, é muito complicado validar os títulos noutro país. Mas a mobilidade de jovens entre países é altíssima. Acho que temos que fazer esforços para uma maior transparência do sistema. Saber o que estudam ou não, de que forma, e depois remover obstáculos.

PERFIL

Mariano Jabonero nasceu em 1953 em San Martín de Valdeiglesias, Madrid. Licenciado em Filosofia e em Ciências da Educação pela Universidade Complutense, desempenhou funções técnicas no Ministério da Educação espanhol.

Professor da Faculdade de Educação da Universidade Complutense, é autor de inúmeros artigos, textos e conferências, especialmente sobre educação e Ibero-América. Trabalhou em todos os países ibero-americanos, tendo vivido em vários deles como consultor ou especialista da UNESCO, PNUD, Organização de Estados Americanos e OEI. Entre 2003 e 2010, foi diretor geral da OEI.

Foi diretor de Educação da Fundação Santillana, realizando numerosas iniciativas de cooperação educacional com a UNESCO, a UNICEF e vários governos da região. Recebeu diferentes distinções pela sua dedicação à educação e à cultura, entre elas, a Ordem de Afonso X, O Sábio.

Ler mais

Exclusivos

Premium

robótica

Quando os robôs ajudam a aprender Estudo do Meio e Matemática

Os robôs chegaram aos jardins-de-infância e salas de aula de todo o país. Seja no âmbito do projeto de robótica do Ministério da Educação, da iniciativa das autarquias ou de outros programas, já há dezenas de milhares de crianças a aprender os fundamentos básicos da programação e do pensamento computacional em Portugal.

Premium

Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Premium

João César das Neves

Donos de Portugal

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."