Uma luz bruxuleante...

Regresso com muito gosto ao Diário de Notícias. Aqui colaborei regularmente desde 1978 até 1995, e recordo com saudade João Gomes, Mário Bettencourt Resendes e Helena Marques... Noutras crónicas terei oportunidade de lembrar tantos amigos, mas hoje fico-me por quem nos deixou...

Falarei de cultura e de ideias. É, pois, o futuro que importa. Foi Joel Serrão, historiador e pedagogo, quem disse que a "cultura portuguesa" é a cultura do povo português, vista como movimento criador, com um tempo ainda por fazer. No fundo, a cultura está condicionada, "não por misteriosas e incompreensíveis virtudes ou vícios rácicos, mas pela nossa história, pela construção e a mentalidade dos grupos sociais e das suas tarefas, temporalmente consideradas". Os elementos de permanência não são assim fáceis de descrever.

Apesar de a nossa língua ser falada por mais de duzentos milhões de pessoas - há um caminho de exigência que tem de ser trilhado: "Quando tivermos, em mais larga escala, uma literatura e uma arte com o nível a que podemos aspirar; quando tivermos ciência de facto e filosofia a sério", poderemos aspirar a ter uma cultura madura. Mas "se existe 'uma maneira de ser portuguesa', impô-la seria tirania perfeitamente dispensável." Deveremos, pois, evitar "impor fictícias unidades a priori, arquétipos a que incriticamente devamos submeter-nos".

Esta mesma questão constituiu o cavalo de batalha de Eduardo Lourenço na sua "psicanálise mítica do destino português". "Não há cultura sem autonomia; ora, a autonomia implica a humana diversidade, imagem da própria vida". Urge, deste modo, fazer um caminho de compreensão da "cultura em Portugal" a caminho de uma "cultura portuguesa", aberta e complexa - baseada na valorização da educação e da ciência, da criatividade e da aprendizagem. "Onde não haja ciência não há nem pode haver filosofia. Onde não haja filosofia não há nem pode haver ciência que mereça tal nome". Eis por que razão deve prevalecer a abertura e o sentido crítico. "Diante da filosofia estrangeira, nem complexos de inferioridade nem megalomanias".

Eis o ponto: "Teremos filosofia a valer quando, libertos de tais perturbações, tenhamos alcançado, pelos nossos meios, o nível que nos permita o diálogo autónomo". Diálogo relativamente a problemas comuns e universais. Na linha de António Sérgio, Joel Serrão põe a tónica não só na audácia da reflexão, mas no permanente sentido crítico. Assim deveremos falar de um patriotismo prospetivo, capaz de valorizar o que é próprio e a solidariedade cívica, com recusa da tentação de uma fantasiosa glorificação do passado.

Lídia Jorge tem-no afirmado, e é com gosto que a vemos receber o Prémio da Feira Internacional do Livro de Guadalajara da Literatura em Línguas Românicas e dedicar o galardão aos escritores da sua geração que se recusam a criar "literatura fútil". Precisamos de defender o bem comum. Jaime Cortesão afirmou emblematicamente: "Toda a história escrita tende a tornar-se uma interpretação atual do passado. Por isso se tem dito que cada geração escreve, à sua maneira, a história. Assim é, e assim deve ser."

Oiça-se Jorge de Sena no belo poema, "uma pequenina luz bruxuleante e muda / Como a exatidão como a firmeza / Como a justiça. /Apenas como elas. / Mas brilha. / Não na distância. Aqui / No meio de nós. / Brilha"...

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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