Não foi bonita a festa, pá

A tomada de posse de Jair Bolsonaro ensombrou outras tomadas de posse acontecidas nesta semana no Brasil. É das vantagens dos governos presidencialistas: quando o chefe é bom, reluz ele, que é o maior; quando péssimo, como foi o caso, sob a asa do abutre abriga-se a tropa fandanga. Ainda se ouviu o piar de uma urubu fêmea: "É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa", ordenou a empossada dos Direitos Humanos, exceto, ao que parece, ministra do inalienável direito à paleta completa. Mais uma governante contraproducente: quando só há azul e rosa, acaba por aparecer demasiado lilás, que é exatamente o que a pastora evangélica e ministra não quer no rebanho dos governados...

Catalisando Bolsonaro as atenções, poupámos com quem o cerca, o que parecia bom. Mas vou arriscar-me a chamar a atenção para Ernesto Araújo, o novo chanceler das Relações Exteriores. Seria preferível não saber que ele falou. Mas na sua tomada de posse Araújo mencionou José de Anchieta, Alexandre de Gusmão, D. João VI e o seu filho D. Pedro, Fernando Pessoa, descobridores, bandeirantes, seringueiros, garimpeiros e tropeiros...

E tendo-os mencionado, Ernesto Araújo parecia ter reposto os portugueses no discurso oficial brasileiro. Por isto e por aquilo, boas e más razões, os portugueses tinham desaparecido na paisagem brasileira. Boas, porque eles foram-se tornando brasileiros, uma parte fundamental que, a não ter existido, o Brasil não se explicaria; más, porque diluídos no todo os portugueses arriscam-se a serem esquecidos. Infelizmente, o novo ministro brasileiro das Relações Exteriores evocou Portugal como ganga rançosa.

Passo a citar, discursou assim o chanceler Araújo: "Pensem, por exemplo, em D. Sebastião [...] Alguém objetará que D. Sebastião morreu pouco depois no areal de Alcácer Quibir, o que é verdade, mas nós estamos falando aqui dele, não é? Nós sabemos quem ele é. D. Sebastião tornou-se um mito, aquele que há de voltar das ondas do mar, num dia de muita névoa. Nós não nos lembraremos das pessoas que ficaram em casa, daqueles que não foram para Alcácer Quibir." Fim de citação, esta semana.

Sim, alguém estava falando de D. Sebastião, em 2019, nos paços do Itamaraty porque alguém, Ernesto Araújo, ensimesmou-se no mito com o mesmo prazer que deixou frases em grego antigo. De D. Sebastião e da sua expedição atoleimada e falhada, ele demorou-se em longas frases. Dos fazedores, que também mencionou, demorou-se nada. Do padre José de Anchieta, o estudante coimbrão que foi para o Brasil entender os índios, citou-lhe uma ave-maria em tupi, sem sublinhar-lhe o significado revolucionário que foi tentar ouvir "o outro" (coisa que seria irónico de se lhe ouvir quando Araújo entra para um governo que quer abrir a Amazónia ao empreendedorismo sem controlo).

Araújo soletrou o nome de Alexandre de Gusmão, não mais, sem lembrar que este foi o pai dos diplomatas brasileiros, aquele que discutiu com Espanha, em nome de Portugal, conseguindo que o Brasil solidificasse as suas fronteiras - quer dizer que Gusmão soube ver no mundo a dimensão já então global. De D. João VI, também mencionado, esqueceu-se que ele não partiu para areias do deserto enfebrecido pela fé, mas foi o estadista que fez do Rio capital de um império pluricontinental. Do nosso e deles D. Pedro que, nascendo em Oeiras, liderou a independência da sua pátria adotiva, o chanceler não referiu que o moviam ideias modernas e constitucionais e não religião a golpes de espada (ainda por cima perdedora). Quem não foi para Alcácer Quibir é quem deve ser lembrado. Foi fazer o Brasil.

O trumpista que pede que se leia "menos o The New York Times" (disse-o várias vezes no discurso), falou de Portugal como o salazarismo falava antigamente, com bafio. Ernesto Araújo não entendeu nada do que Portugal deu ao Brasil. É dizer que entende pouco do Brasil.

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