Vocês sabem do que eu estou a falar

"Farta de esperar disponibilidade em farmácia onde me inscrevi em setembro, acabei de tomar vacina c/ gripe, trazida por amiga de França. Pior de tudo foi ouvir de farmacêutica q há vacinas, mas reservadas p/ certas pessoas de certas empresas, q as compraram." Ana Gomes, no Twitter

Poucas declarações têm a capacidade de resumir algumas das principais razões para vivermos num clima de suspeição generalizada que ajudam decisivamente ao crescimento de populismos e a fazer que oportunistas espertalhões medrem.

A ignorância da ilegalidade de trazer uma vacina para território português sem autorização do Infarmed não é relevante. Já o comentário sobre "certas" pessoas de "certas" empresas terem privilégios especiais com base na opinião de uma farmacêutica pode ser visto como uma irresponsabilidade total, uma evidente falta de noção do que deve ser a atuação de um político responsável ou, na melhor das hipóteses, desconhecimento de que alguém com responsabilidade não deve ter conversas de café em público. Mas pode, infelizmente, ser uma exibição de algo pior.

Preferindo eu que fosse a primeira - até pela minha simpatia pessoal pela Ana Gomes -, no final o que resulta desta sua afirmação é a promoção do mais desenfreado populismo.

Despreza-se a presunção de inocência, o respeito pelo bom nome, insinua-se com uma leveza criminosa.

Todo o discurso que leva à tal suspeição generalizada de corrupção e de privilégios ilegal ou imoralmente concedidos é construído lançando acusações vagas, sem provas concretas, contra umas pessoas supostamente poderosas e/ou organizações que serão uma espécie de novos donos disto tudo, tendo por base algo que alguém disse ou por simples achismo.

Se Ana Gomes quer um exemplo do que pode acontecer com estas conversas é perguntar a Paulo Pedroso - que não consigo compreender como participa nesta campanha e avaliza este tipo de discurso.

Claro que, num país em que sobre um ex-primeiro-ministro recaem as suspeitas conhecidas e em que há vários processos por corrupção e favorecimento em fase de investigação ou julgamento, este discurso cai como sopa no mel. É fácil tomar a nuvem por Juno e vender a conhecida tese da corrupção generalizada. André Ventura também o faz. Aliás, é o seu tema principal a que depois junta o racismo, a xenofobia e o desprezo pelos mais pobres (por essas e por outras os dois não se podem comparar).

O problema é que Ana Gomes parece não perceber que a conversa do "anda tudo a gamar", em que concorre com Ventura, apenas ajuda os verdadeiros corruptos. O clima de suspeição generalizada que ela ajudou a instalar, fazendo processos de intenção a torto e a direito sobre políticos, escritórios de advogados e pessoas e empresas de várias áreas, faz que os verdadeiros bandidos fiquem ao lado de pessoas contra quem apenas recaem umas acusações do tipo das da farmacêutica.

Como se isto não bastasse, Ana Gomes é a maior defensora e promotora de pessoas que violam a correspondência entre advogados e clientes, que entram na caixa de correio da procuradora-geral da República e de outros elementos do Ministério Público. Numa frase: Ana Gomes defende quem ataca diretamente o Estado de direito.

Ou então, repito, é populismo puro e duro.

Não ajuda nada ter gente que faz da criação da suspeita generalizada, da venda do pântano, do "anda tudo a roubar", em colunas de jornais e espaços televisivos, modo de vida, como é arrepiante ver organizações que vivem de lançar suspeitas, mas é um preço que se tem de pagar em democracia. Nunca esquecendo os casos concretos de pessoas sem a mínima dignidade para as funções que exerceram e que foram condenadas ou que participaram em compadrios e esquemas vergonhosos, é bom perceber que estes vendedores do pântano também atapetaram o caminho para Venturas e afins.

Mas pior é ver uma militante do Partido Socialista que exerceu cargos políticos importantes ter este tipo de atitudes e basear a sua candidatura à Presidência da República neste discurso é, além de chocante, muito perigoso. Também é muito preocupante assistir ao apoio implícito (apoiando a candidatura) a esta narrativa de ministros em funções - nomeadamente alguém como Pedro Nuno Santos que tem como ambição ser primeiro-ministro - como também espanta ver gente que me habituei a ver como lutadora contra oportunismos e populismos a apoiar a ex-deputada europeia.

Ana Gomes é alguém que já mostrou uma enorme coragem em situações excecionais, desempenhou um papel fulcral na questão timorense e tem sido uma defensora dos direitos humanos na Europa e em Portugal, mas está a prestar um péssimo serviço à saúde da democracia portuguesa promovendo o populismo e os ataques ao Estado de direito.

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