Com Montenegro à espreita, Pedro Duarte avança. Estatutos protegem Rio

Dias de brasa no país - e no PSD. Santana Lopes confirma que está de saída e Pedro Duarte afirma-se como alternativa futura a Rui Rio. Marcelo não resiste e tanto censura Santana como alerta para riscos de fragmentação do PSD.

Com o país político a banhos e os portugueses enfrentando uma onda de calor raramente vista, o PSD incendia-se. Dois Pedros pegaram ontem fogo à casa onde sempre militaram: Santana Lopes, ao confirmar, no Observador, a sua desfiliação do partido; e Pedro Duarte, ex-líder da JSD, anunciando, numa entrevista ao Expresso, que será candidato à liderança do partido e exigindo a Rui Rio que se demita já. Perante tudo isto, a direção do PSD manteve-se no mais rigoroso silêncio. Começando pelo próprio presidente do partido, que está de férias.

Quem não se calou foi o Presidente da República (cuja campanha foi aliás dirigida por Duarte). Embora também de férias (nas zonas atingidas pelos fogos do ano passado), Marcelo Rebelo de Sousa não resistiu a comentar a situação no seu partido de sempre. E não escondeu uma nota pessimista: "O que me preocupa é que a oposição não se fragmente, que deixe de ser uma alternativa de poder." Quanto à desfiliação de Santana, revelou ter sido previamente notificado pelo próprio. Ficou uma leve censura: "Para mim o partido é uma família e não se muda uma família, mas tenho grandes amigos que pensam o contrário, que é uma opção como outra qualquer e que se muda de partido quando se entende que já não corresponde àquilo que se pretende. Eu tenho uma visão diferente."

Marcelo pareceu assim partilhar a visão de outros dirigentes do PSD - alguns deles ouvidos pelo DN ontem, sob condição do anonimato -, que dizem que a desfiliação de Santana, associada à ameaça de criar um novo partido na área da direita liberal, poderá ser tão má para o próprio Santana como para o PSD. "Ele pode nem vir a ter votos para ser eleito deputado. Mas os que tiver virão do PSD e, com isso, o partido a passar de um grande partido para um médio partido. Isto vai ser mau para todos", disse um desses dirigentes ao DN.

José Eduardo Martins declarou de imediato o seu apoio a Pedro Duarte.

Quem não concorda com esta tese é José Eduardo Martins, o dirigente do PSD que se revelou durante o mandato da troika a voz mais inconformada dentro do partido a criticar a governação de Pedro Passos Coelho - e que se chegou a perfilar como candidato à sua sucessão.

Falando ao DN, este ex-secretário de Estado do Ambiente aproveitou para declarar o seu imediato apoio a uma eventual candidatura de Pedro Duarte à liderança do partido: "Disse muito do que todos nós pensamos. É uma disponibilidade muito grande para o futuro do PSD, quando se concretizar. Farei tudo o que puder para que tenha sucesso."

Já quanto à desfiliação de Santana Lopes, desdramatizou: "Não acredito que um futuro partido criado por ele tenha efeito eleitoral no PSD. No limite é pior para o CDS. Uma visão mais conservadora da sociedade pode atrair eleitorado centrista."

Rui Rio manteve-se em silêncio e tem a seu favor uma regulação estatutária do partido que lhe protege o mandato pelo menos até ir a votos nas próximas eleições legislativas (algures no outono de 2019, se a legislatura for até ao fim). Para cair agora, teria de se reunir no Conselho Nacional do PSD - o "parlamento" do partido - uma maioria folgada para lhe aprovar uma moção de censura ao órgão que Rui Rio preside, a Comissão Política Nacional.

Carlos Moedas e Miguel Pinto Luz poderão ser também candidatos à liderança do PSD no pós-Rui Rio.

Ora essa maioria não existe, porque Rio junta aos conselheiros nacionais que elegeu na sua própria lista muitos outros que estão no Conselho Nacional por inerência de funções (autarcas, dirigentes da JSD, etc.). Consciente desta realidade - de que os estatutos do PSD protegem o líder -, Pedro Duarte ensaiou no Expresso um argumento alternativo: Rui Rio deve sair pelo seu próprio pé antes das legislativas e dar tempo para que se forje uma nova liderança.

Dirigentes do PSD ouvidos pelo DN alvitram a tese de que a entrevista de Pedro Duarte surgiu neste momento para marcar terreno em relação a Luís Montenegro. No último congresso do PSD, que consagrou a liderança de Rui Rio e uma aliança (entretanto extinta) entre este e Santana, Pedro Duarte não se afirmou claramente como alternativa ao novo presidente do partido, deixando esse espaço para Luís Montenegro.

Duarte apenas subscreveu uma moção com Carlos Moedas - visto, aliás, como outro dos possíveis candidatos à liderança, no futuro. Quem também poderá envolver-se é Miguel Pinto Luz, ex-presidente da distrital de Lisboa. No interior do PSD, por ora parece ser Luís Montenegro quem tem mais apoios.

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