O brasileiro que espalha corações pelas paredes de Lisboa

O artista brasileiro Vital Lordelo espalha cartazes nas paredes do Chiado, de Alfama ou do Cais do Sodré com mensagens sobre afetos. Ilustra as palavras que lhe dão e cola-as nas ruas de Lisboa.

Vital Lordelo, de 34 anos, veio de Brasília, a capital federal do Brasil, para Portugal há dois anos para estudar Desenho, para se encontrar com Pessoa e para conversar com os portugueses através de cartazes. O artista ilustra as palavras que lhe dão e cola-as nas ruas de Lisboa.

"Há um texto de [Fernando] Pessoa que diz que 'tudo está em tudo'. Cartazes e pessoas dizem coisas. Eu agarrei na linguagem publicitária e transformei-a numa linguagem artística", conta Vital. O brasileiro que estudou publicidade sobrepõe uma frase ou uma palavra a um desenho com o objetivo de interpelar o outro.

"É um burburinho. É um grito. É a rua que conversa comigo. Eu criei estes cartazes para dialogar com as pessoas. Gosto quando falam umas com as outras, quando deixam mensagens nos cartazes", explica.

Vital já criou 28 cartazes. Destes, 26 estão em português, um está em francês e o outo em alemão. Trabalham todos o mesmo tema: os afetos. O coração é a imagem central da obra do brasileiro; foi aliás a partir desse desenho que desenvolveu a ideia para o primeiro cartaz -"Há coragem sempre agora" - que cola nas ruas há já seis anos.

"As palavras dos cartazes foram-me dadas", diz. São sugestões de pessoas que vai conhecendo, são pensamentos que ouve numa conversa de café, que lê numa exposição ou num livro. A literatura portuguesa é uma das fontes de inspiração preferidas do criador.

Vital imprime entre 50 e 100 cartazes por tiragem e espalha-os pela capital portuguesa, em zonas como Chiado, Alfama ou Cais do Sodré. E está satisfeito com a reação do público português, porque as pessoas "são muito mais de intervir nos cartazes do que danificá-los". O primeiro cartaz, que colocou na freguesia de Santa Maria Maior, esteve na parede mais de um ano mesmo com o desgaste provocado pelo clima e pelos comentários de quem por ali passou.

"Quem consome a arte acaba a tomar partido dela. Eu considero isto quase ativismo, porque é levar isto para a rua e espalhar a mensagem. É um movimento orgânico. Há pessoas no Brasil que me escrevem a perguntar o que podem fazer para voltar a ver os cartazes na rua", refere.

O artista já não expõe nas paredes do Brasil há dois anos, altura em que veio para Portugal com a família. Quis vir descobrir mais sobre a origem da sua língua e embrenhar-se no ambiente do local onde Fernando Pessoa viveu. Na mala trouxe Bernardo Soares dentro do Livro do Desassossego. Até agora, conta que tem sido uma experiência transformadora e prevê que a dinâmica Portugal-Brasil tenha influência na forma como abordará os seus cartazes daqui em diante.

Vital Lordelo não tem formação artística, é autodidata. Começou por estudar Jornalismo e a criatividade levou-o a mudar de curso para Publicidade, onde aprendeu a produzir cartazes. A primeira vez que colou um dos seus trabalhos na rua foi em 2012. A ideia surgiu-lhe porque as pessoas o abordavam constantemente para pedir para contar a história da frase "Há coragem sempre agora", o título da exposição que fez em Belo Horizonte em 2011. Imprimiu 100 cartazes e espalhou-os pela cidade de Porto Alegre, onde então vivia. A reação de quem viu apanhou-o de surpresa: recebeu várias mensagens a perguntar quando colocaria o próximo.

Quanto à escolha do formato, Vital optou inicialmente pelo tamanho A2 com letras garrafais para poder mostrar ao seu pai, que tinha apenas 10% de visão, o trabalho que faz. Embora se mantenha fiel às características com que começou a produzir os cartazes também já os expõe com outros tamanhos.

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