Lares de idosos em Caracas não sobrevivem sem ajuda

Dos 80 lares existentes na capital venezuelana, apenas dez sobrevivem. Lar Padre Joaquim Ferreira acolhe 60 idosos.

Só em Caracas, nos últimos tempos, dos 80 lares existentes apenas dez sobrevivem. O Lar Padre Joaquim Ferreira acolhe 60 idosos. Uns pagam a diária, alguns uma parte, outros nada, porque não podem. Só com muito engenho e dedicação é possível manter a instituição a funcionar.

Agustín da Silva ficou viúvo há 30 anos. Há vários meses no hospital Domingo Luciani, em Caracas, já estava recuperado. Tinha de sair, mas não tinha para onde ir. A solução foi recolher este madeirense, de 75 anos, no lar. Uma instituição que fica à saída da capital venezuelana, em direção a Maracay. Quando lá chegamos, Agustín, acabado de entrar, estava no meio de um corte de cabelo. É apenas um dos muitos afazeres diários do lar que tem o nome de um sacerdote português que viveu em Caracas. Um padre que esteve nos momentos de festa, como aniversários, casamentos e batizados, mas também nas dificuldades. Nesta parte inspirou várias iniciativas de solidariedade. Dar o nome ao lar foi uma forma de reconhecer esse trabalho.

Dar muito com pouco

É uma luta diária. Manter as portas abertas do lar só é possível com a ajuda e a dedicação de muitos, de uma forma direta ou indireta. A instituição tem capacidade para acolher uma centena de pessoas. Há ainda lugares, mas não há meios. Os voluntários e as pessoas ligadas à instituição estão no limite. Cinco irmãs da congregação Marta e Maria, com sede na Guatemala, dão uma ajuda preciosa.

Marilu de Andrade desde muito nova é voluntária, aprendeu com a mãe, a filha já está integrada no denominado grupo das netas. Não perde o sorriso, apesar de todas as agruras da vida. A família, proprietária de várias padarias, viu quase todas encerradas nos últimos tempos devido à crise - uma delas foi expropriada. Marilu, a secretária da direção, é quem nos faz a visita guiada ao lar que, como explica, "é um filho da Sociedade de Beneficência das Damas Portuguesas".

Para sublinhar o esforço e a dedicação necessários à manutenção do projeto, recorda que dos 80 lares existentes em Caracas, 70 já encerraram. Quer no interior do edifício quer nos arredores, é fácil constatar a limpeza e a manutenção dos espaços, incluindo jardins. "Esse talvez seja o nosso erro", diz sempre a sorrir. "Se mostrássemos isto, em pior estado, talvez nos ajudassem mais". Mais a sério, sugere às várias entidades que "venham conhecer o trabalho, é sempre um prazer recebê-las".

Um olhar mais atento mostra que o edifício precisa de obras. Completou 14 anos a 10 de junho, Dia de Portugal e das Comunidades. Os elevadores, extremamente necessários para pessoas com mobilidade reduzida, estão avariados. A solução é transportar os idosos pelas rampas, em cadeiras de rodas, o que só é possível com muito esforço. São necessárias máquinas de lavar e as canalizações precisam de uma intervenção urgente. Despesas que chegam facilmente a muitos milhares de euros. Daí o apelo veemente dos responsáveis: "Toda a ajuda é importante, urgente e absolutamente necessária."

Um apelo dirigido às diversas entidades, especialmente ao governo regional da Madeira - que entregou donativo, e autarquias, mas também aos privados. São vários os que, em nome individual ou empresarial, contribuem para o funcionamento desta instituição. Destaque para a Academia do Bacalhau, mas com a crise o número de participantes nas iniciativas que promovem para angariação de fundos diminuiu substancialmente. Mais de 130 empresários são igualmente parceiros, mas não chega. E fica o aviso: "A ajuda cá significa poupança lá. Se não houver condições para acolher esta gente, vai ser necessário fazê-lo na Madeira."

Uma solução seria um apoio mensal ou uma ajuda substancial, cada ano. E dão o exemplo dos lares das comunidades italianas e espanholas que recebem uma ajuda fixa, dos respetivos governos. Também foi feita uma candidatura a um programa lançado pelo governo de Lisboa, em dezembro último, mas não foi aprovada.

Outras das carências têm que ver com o pessoal, especialmente enfermeiros. Muitos profissionais estão a abandonar o país à procura de melhores condições de vida. Atualmente trabalham no lar 20 funcionários, incluindo cozinheiros, empregados de limpeza, lavandaria, condutores, vigilantes, um médico e um terapeuta ocupacional.

Com a hiperinflação que atinge o país é difícil, se não impossível, fazer um orçamento. Qualquer estimativa fica desatualizada em poucos dias. "A parte mais complicada é assegurar salários, a alimentação para todos os dias, os medicamentos que são caros ou simplesmente não existem no país, os transportes e, claro, a manutenção do edifício. Toda a ajuda é pouca". É necessária uma mobilização geral nesta causa que deve ser assumida por todos.

Texto originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira

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