Premium Incêndio no Museu Nacional deixa ministro e prefeito debaixo de fogo

Sérgio Sá Leitão, quarto ministro da Cultura em dois anos de governo Temer, e Marcelo Crivella, o autarca que é ex-bispo da IURD, não têm intenções de se demitir

O fogo que consumiu o Museu Nacional, maior instituição científica do Brasil e da América Latina, pode chegar à carreira de dois políticos: Sérgio Sá Leitão, o ministro da Cultura do governo liderado por Michel Temer, e Marcelo Crivella, o prefeito do Rio de Janeiro. As pressões pelas suas saídas aumentam a cada desenvolvimento sobre o caso que destruiu mais de 200 milhões de itens históricos do museu, mas nenhum dos dois mostrou intenção de se demitir, para já.

"Claro que não, de onde saiu isso?", respondeu Leitão, o quarto ocupante da pasta em apenas dois anos de governo Temer, a um jornalista que o confrontou com os pedidos incessantes nas redes sociais pela cabeça do ministro. Acresce que dois dias antes do incêndio na Quinta da Boa Vista, o responsável do Instituto dos Museus Brasileiros, Marcelo Mattos Araújo, havia posto o lugar à disposição. E já em junho o cargo de Leitão estivera por um fio após discordância entre o ministro e o presidente da República sobre o destino de verbas públicas da Cultura.

Na revista CartaCapital, o articulista Jotabê Medeiros enumera erros do ministro, num texto chamado "Temer e os anos perdidos da Cultura". Entre aqueles erros, fala de nomeações políticas, como a irmã de Sérgio Cabral, o ex-governador do Rio agora preso com penas recorde na Operação Lava-Jato por corrupção e outros crimes a pedido de um dos braços direitos de Temer, ou de aliados de Paulo Maluf, outro político preso depois de ter integrado por anos a lista da Interpol.

Além de ter excluído a Cinemateca Brasileira da tutela da pasta e de ter exigido, aparentemente por vendetta, do cineasta Kleber Mendonça Filho a devolução de 2,2 milhões de reais (cerca de 500 mil euros) de recursos públicos investidos no premiado O Som ao Redor por irregularidades na prestação de contas - Mendonça Filho criticara o impeachment de Dilma Rousseff, em Cannes, na apresentação do filme Aquarius.

Os candidatos à Presidência da República, da esquerda à direita, acusaram o titular da pasta, Temer e a prefeitura do Rio pelo incêndio. "Os cortes criminosos de Temer em recursos da Cultura estão condenando o nosso futuro e destruindo o nosso passado", disse Guilherme Boulos, do PSOL, de extrema-esquerda. O liberal e amante de privatizações João Amoêdo, do Partido Novo, considerou a tragédia "o resultado da falta de gestão e do abandono político que se vive no Rio". "Infelizmente, dada a penúria financeira da Universidade Federal do Rio e das demais universidades públicas, esta era uma tragédia anunciada", acusou Marina Silva (Rede). "O incêndio tem como culpados os cortes dos últimos anos à ciência, à cultura e à educação", disse Goulart Filho, do PPL. Para Ciro Gomes (PDT), é hora "de atenuar esta tragédia que o desgoverno do Brasil permitiu".

Além de Leitão, o prefeito Marcelo Crivella (PRB), ex-bispo da IURD (e sobrinho do fundador da igreja Edir Macedo), também está na mira. Fragilizado por no mês passado ter vindo a público uma reunião secreta com pastores evangélicos na sede do governo municipal onde lhes garantia vantagens e favores, Crivella conseguiu "perpetrar uma sucessão de absurdos em seis linhas num post no Facebook", disse a jornalista de O Estado de S. Paulo Vera Magalhães. "Defende a reconstrução 'das cinzas', recompondo 'cada detalhe', mesmo que 'não seja o original', e chamou à tragédia 'um incidente'", citou a repórter. Crivella está, entretanto, em silêncio desde aquele post.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

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