Marinha afunda navio que acompanhou invasão de Timor em 1975

Operação vai decorrer nesta terça-feira ao largo da Madeira, 43 anos e um dia após o início da primeira e mais importante missão militar da corveta Afonso Cerqueira.

Manuel Carlos Freire
As corvetas Afonso Cerqueira e João Roby (da mesma classe) fundeadas na ilha de Ataúro na véspera da invasão da Indonésia (mas o iate que se vê em primeiro plano não é o norte-americano). | foto D.R.
Comandante Rodrigues Pereira em agosto de 1975, durante a escala da corveta no porto de Áden, na então Republica Popular e Democrática do Iémen do Sul. | foto D.R.
Operações preparatórias para o afundamento da corveta. | foto D.R.
A equipa de mergulhadores responsável por definir e executar um plano de aberturas no casco do navio com recurso a cargas explosivas. | foto D.R.
A corveta atracada no Funchal. | foto D.R.
Elementos da guarnição da corveta e bombeiros combatem o incêndio que esta deflagrou a bordo, em 1998. | foto Arquivo

O iate com um jovem casal norte-americano a bordo surpreendeu a guarnição da corveta Afonso Cerqueira ao largo de Díli, na tarde de 6 de dezembro de 1975. Não pelo pedido de ajuda da mulher, alegadamente grávida, mas pela insólita presença no que era então uma zona perdida no mapa. Só que a surpresa transformou-se em estranheza quando, já no interior do barco, os militares portugueses viram a quantidade e a potência dos equipamentos de comunicações.

"Não é habitual numa embarcação de recreio com oito a dez metros de comprido", conta ao DN o comandante Rodrigues Pereira, um dos oficiais do navio de guerra que, faz nesta terça-feira 43 anos e um dia, deixou Lisboa em direção a Timor para a primeira e mais importante missão militar da corveta Afonso Cerqueira.

A ida a Timor em 1975 "foi a grande missão do navio", sublinha Rodrigues Pereira.

O navio vai ser afundado hoje pela Marinha ao largo do cabo Girão, a oeste do Funchal. Ficará a cerca de 40 metros de profundidade, para fins lúdicos - mergulho recreativo - e como recife artificial para favorecer o desenvolvimento da vida marinha no Parque Natural Marinho do Cabo Girão, diz o porta-voz da Marinha, comandante Pereira da Fonseca.

A ida a Timor em 1975 "foi a grande missão do navio", sublinha Rodrigues Pereira, que integrou a primeira guarnição - mais de uma centena de militares - da Afonso Cerqueira. Esta corveta, construída no início dos anos 1970, chegou a Portugal em julho de 1975.

Foi ainda na fase do treino básico inicial, em terra e no mar, que a corveta recebeu ordens de largada para Timor. Perante a agitação política que marcava a vida naquele território, o tempo de abastecimento "foi muito curto", tanto que o navio partiu com "grande parte do material na pista do helicóptero, para ser depois arrumado e colocado nos paióis pelo caminho", recorda Rodrigues Pereira ao DN.

Após a largada, a 3 de setembro de 1975, o navio atravessou o canal do Suez no dia 11 e chegou quase um mês depois à Austrália. Em Darwin, a 1 de outubro, embarcou o então comandante da Defesa Marítima de Timor, atual contra-almirante Leiria Pinto, "fazendo de prático e de piloto no reconhecimento da costa" do território timorense, lembra Rodrigues Pereira.

Após dois meses em ações de patrulha no mar territorial da então colónia portuguesa, durante os quais reabasteceu nos portos de Macau, Darwin e Singapura, a Afonso Cerqueira - já acompanhada pela corveta João Roby (ainda em atividade) - fundeou novamente ao largo de Ataúro a 6 de dezembro de 1975.

Nesse mesmo dia, em que o iate norte-americano acostou à corveta, terminava em Jacarta a visita de dois dias do então presidente dos EUA, Gerard Ford.

Num clima quente e húmido onde mesmo pequenas feridas "levavam semanas a sarar", evoca Rodrigues Pereira, a guarnição recebera nessa noite instruções precisas de Lisboa e "vindas diretamente da Presidência da República": atuar apenas caso fossem alvo de ataque.

Mas se a Indonésia invadisse Timor, "deveríamos levantar ferro e rumar para águas internacionais", lembra o comandante, que às quatro horas da madrugada seguinte iria iniciar o turno de oficial de quarto.

Ora, prossegue o oficial, "cerca de dez minutos antes, ainda com noite cerrada, dirigi-me à ponte. Quando abri a porta de acesso à casa do leme, verifiquei que o pessoal de serviço se concentrava em redor do radar de navegação. Dei uma olhadela e, milagrosamente, a minha sonolência passou, substituída imediatamente por um acelerado ritmo cardíaco".

No radar eram visíveis cinco ecos - leia-se navios indonésios, de fabrico soviético e italiano - ao largo de Díli. Quando, minutos depois, surgiram mais dois pontos no ecrã, Rodrigues Pereira pediu autorização ao comandante para ativar o Centro de Informações em Combate (CIC) do navio.

Ligados os radares de aviso aéreo e de artilharia, colocadas as peças de artilharia em prontidão e ativado o sonar, mais surpresas: havia um submarino a cerca de 1500 metros do navio e estavam "sete aéreos lentos" - helicópteros - em aproximação.

"Cerca das 04.10, o vigia do navio informa que dos navios avistados são lançados foguetes iluminantes" contra Díli. "Num pulo, galgo os três degraus da escada de acesso à ponte, agarro nos binóculos e corro para o exterior do navio", já com os primeiros alvores da madrugada a dar alguma visibilidade à zona.

"Tinha começado a invasão!", recorda Rodrigues Pereira, que ficou a observar o dispositivo naval indonésio e o efeito das granadas tracejantes com que Díli estava a ser bombardeada. "Verifiquei, entretanto, que o iate americano desaparecera", conta ainda o oficial na reforma, um historiador que viria a ser diretor do Museu de Marinha.

"Os dois navios portugueses elevam imediatamente o seu grau de prontidão para combate e preparam-se para embarcar os membros do gabinete do governador [coronel Mário Lemos Pires] e do seu Estado-Maior", uma vez que este militar era igualmente comandante-chefe de Timor-Leste.

"Regressado ao CIC, pude observar que os aéreos lentos contornavam a ilha de Ataúro, a cerca de 35 milhas [56 quilómetros] e se dirigiam para o aeroporto de Bacau, onde aterraram. Eram também visíveis os ecos de outros aéreos voando em redor de Díli", conta o oficial de quarto. Mais, "no radar viam-se também pequenos ecos [lanchas de desembarque] que se aproximavam de terra, junto a Díli", transportando tropas indonésias e do Movimento Anti Comunista (formado pela UDT e APODETI).

"Pelas 06.30, duas horas e meia depois do início da invasão, a visão de Díli era a de uma cidade em chamas." Com base nas comunicações da Fretilin, que à tarde abandonaria Díli em direção às montanhas, "havia centenas de mortos entre a população e as forças invasoras".

A Austrália não apoiou Portugal nem a Indonésia ou algum dos grupos rivais timorenses. Mas o representante da Coroa britânica invocou um decreto do tempo da rainha Vitória para provocar eleições, onde foi eleito um governo conservador que depois apoiou claramente as posições de Jacarta

Com o desembarque de mais dez mil militares indonésios a meio da manhã, os navios portugueses "rumaram para águas internacionais, mantendo-se no entanto à vista de Timor durante 24 horas" antes de rumarem para Darwin, refere o comandante Rodrigues Pereira.

Quem também não interferiu foram as duas fragatas australianas que se mantiveram nas respetivas águas territoriais. Camberra "não se pôs nem do lado da Indonésia nem do lado de Portugal e não auxiliou nenhum dos movimentos envolvidos na luta", tendo o auxílio humanitário a Timor ficado a cargo da Cruz Vermelha Internacional, recorda ainda Rodrigues Pereira.

Contudo, revela o militar, houve um episódio singular que foi motivo de conversas "com alguns australianos que ficaram também admirados com a decisão".

Tratou-se da invocação de "um decreto do tempo da rainha Vitória [século XIX], que nunca tinha sido utilizado, e que diz que o comissário real" - o representante da chefia do Estado britânico nos territórios da Commonwealth - "pode mandar convocar eleições, com o argumento de que o governo então em funções já não representava os interesses e anseios da população". Das eleições saiu um governo mais conservador, "que a partir daí deu todo o apoio à posição da Indonésia", sublinha o oficial.

Quanto à corveta Afonso Cerqueira, depois de reabastecida em Darwin, seguir-se-ia o regresso a Portugal via canal do Panamá - conquistando o estatuto de primeiro navio militar português a fazer uma viagem de circum-navegação após o final da Segunda Guerra Mundial.

As décadas seguintes da corveta Afonso Cerqueira foram de "atividade normal", em que se incluíam "os cruzeiros aos Açores" - onde, em agosto de 1998, deflagrou um incêndio a bordo quando estava atracada no porto da Horta (Faial), recorda ainda o comandante Rodrigues Pereira.

A Afonso Cerqueira, que foi abatida ao serviço a 11 de março de 2015, esteve em fevereiro passado na Madeira - onde há dois anos foi afundada a corveta Pereira D'Eça, também para efeitos de criação de um recife artificial - e no âmbito das medidas preparatórias do seu afundamento, informou a Marinha.