João Benedito: "Não me deixarei fascinar pelo protagonismo"

Foi guarda-redes do futsal do Sporting, tendo-se sagrado nove vezes campeão nacional. Após abandonar a modalidade, dedicou-se às duas empresas que criou de raiz. Pode ser pai pela segunda vez no dia das eleições e revela que a família não lhe conseguiu conter o desejo de se candidatar.

Bruno Pires
 | foto Jorge Amaral/Global Imagens

João Benedito, 39 anos, o homem que tem "dois empregos" por força das empresas que criou ainda como jogador de futsal. O seu sonho é ser presidente do Sporting. Confessa-nos, depois de avisar que não quer expor a sua intimidade, que a sua família "sabia que não podia conter o desejo" de o ver candidatar-se. "Houve uma decisão a nível familiar, sabem que estou preparado, sabem que este projeto faz falta ao Sporting, tenho o apoio familiar", diz entre sorrisos.

Orgulhoso pelas duas empresas que criou, uma delas "de personalização têxtil, fardamentos, que produz 30 mil peças por mês", João Benedito, candidato pela lista A, não perde a oportunidade de tentar ligar o seu percurso profissional às eleições leoninas. "Foram empresas construídas por mim de raiz, não herdei nada de ninguém e sinto-me feliz porque já passámos aquela fase crítica de dois, três anos e crescemos a uma grande velocidade. Temos já um património acima do meio milhão de euros e todos os investimentos têm sido pagos escrupulosamente", conta. Se for eleito, o futuro das suas empresas está bem definido. "Será a minha mulher a tomar conta delas e eu fico muito confortável com isso, se bem que ela agora também não pode", diz-nos. João Benedito vai ser pai pela segunda vez e a sua filha ameaça nascer no dia das eleições. "Pode, pode nascer nesse dia", confirma quase envergonhado.

"As minhas duas empresas foram construídas por mim de raiz, não herdei nada de ninguém e sinto-me feliz porque já passámos aquela fase crítica de dois, três anos e crescemos a uma grande velocidade. Temos já um património acima do meio milhão de euros e todos os investimentos têm sido pagos escrupulosamente."

Voltando às suas empresas, João Benedito tem outro motivo de satisfação e que pode ser associado ao Sporting, na eventualidade de ser presidente. "Para alguém que gosta do fenómeno da liderança, é bom ver de fora que existe uma organização montada e que continua a funcionar com os colaboradores sem a presença do seu líder. Não imagina o orgulho que é", refere sobre os seus dez funcionários.

Perguntamos-lhe se é possível passar este microexemplo para a realidade macro do Sporting. "É isso que eu quero, que as pessoas que lá estão no Sporting se identifiquem com o seu líder e deem tudo pela sua instituição."

Passando de vez para o assunto eleições, João Benedito revela que não foi a eleições em 2017 "porque tinha deixado de ser jogador apenas nove meses antes". E acrescenta: "Tudo tem o seu tempo para a maturação de ideias e raciocínios, fui-me preparando mas, com honestidade, nunca pensei que as eleições pudessem ser a tão breve prazo."

Se João Benedito for eleito o presidente do Sporting deixará de estar tão visível. O empresário garante que, consigo ao leme, a comunicação "será institucional e virada para os feitos do Sporting". E depois pergunta: "Quando chegamos aos núcleos e olhamos para a história do Sporting nas paredes o que vimos? As verdadeiras referências que são os atletas. Não vemos dirigentes. Quanto menos falarem de mim melhor, quanto menos repararem que eu aqui estou melhor. Estarei sempre disponível para os sócios, mas o foco tem de estar naqueles que vão trazer mais adeptos. Esse tempo para mim já passou quando fui atleta." Ainda o provocamos com o Facebook e o candidato entre dentes desabafa - "sei onde quer chegar" -, mas não se furta à resposta. "Comunicações pessoais, viradas para o eu, não vão existir, até porque prezo muito a minha privacidade. Devido aos anos que tive de exposição mediática não serei uma pessoa que vá fascinar-se pelo protagonismo", garante.

O projeto de João Benedito é assente nos resultados desportivos e o candidato não tem qualquer problema em dar força a esta ideia. "O modelo tradicional assenta primeiro na gestão e depois no desporto, o que eu quero implementar é um modelo com base no desporto e depois na gestão", salienta, daí o carácter "diferenciador" do seu projeto, como não se cansa de referir. E foi assim que convenceu Peter Schmeichel, numa conversa de guarda-redes para guarda-redes, a voltar ao Sporting se for eleito a 8 de setembro. "Este conceito em que todos dentro do clube pensam primeiro no desporto é um atrativo para convencer estas pessoas. E eu pensei que ia ser mais difícil. Do Schmeichel o que posso dizer é que falámos uma vez ao telefone e depois por videoconferência. A ideia de trazer os atletas para dentro da gestão do clube fascinou-o e ele aceitou de imediato", dá conta, para depois ir mais fundo na contratação do dinamarquês. "Após o que sucedeu em Alcochete, precisamos de alguém com prestígio que dê a cara pelo clube a nível internacional", sustenta. O candidato assume mesmo que o representante do Sporting nos sorteios da UEFA "pode ser Peter Schmeichel".

"Do Schmeichel o que posso dizer é que falámos uma vez ao telefone e depois por videoconferência. A ideia de trazer os atletas para dentro da gestão do clube fascinou-o e ele aceitou de imediato. Pensei que ia ser mais difícil."

André Cruz, duas vezes campeão nacional pelo Sporting, é o diretor desportivo de Benedito e também ele foi conquistado com menos dificuldades do que o pensado. "Falámos uma vez por telefone, ele veio a Lisboa e disse logo que o nosso projeto era o que ele pretendia para um clube; a potenciação do atleta, o gabinete de performance, o culto Cristiano Ronaldo. Pensava também que seria mais difícil convencê-lo", admite.

André Cruz, se as eleições correrem de feição, será, na qualidade de diretor desportivo, o "primeiro garante da passagem da estratégia definida pela comissão executiva para equipa técnica e plantel". O brasileiro, em conjunto com o treinador, indicará "reforços, dispensas", mas a decisão será "da administração". "Nós é que tomaremos as decisões", reforça.

João Benedito, tal como advoga para a comunicação do clube, quer uma separação bem delineada. "O presidente estar cara a cara com o treinador e o plantel tem de deixar de acontecer, tem de haver algum institucionalismo. A linha que divide as emoções do balneário da euforia à tristeza é muito ténue. O diretor desportivo é que estará mais perto do treinador. Eu estarei aberto a conversar mas há hierarquias e o poder não pode estar tão próximo do relvado, isso foi o que aconteceu nos últimos anos e não resultou", considera.

"O presidente estar cara a cara com o treinador e o plantel tem de deixar de acontecer, tem de haver algum institucionalismo (...) o diretor desportivo é que estará mais perto do treinador. Eu estarei aberto a conversar, mas há hierarquias."

Continuamos a falar de José Peseiro, com quem privou quando da primeira passagem do técnico por Alvalade - "cruzei-me com ele várias vezes no ginásio do clube nessa altura, já tive algumas conversas com ele, mas desde que assumiu funções não tive qualquer conversa nem tenho de ter". E João Benedito não assegura a permanência do técnico até final da época.

"Vamos ver essa situação. Se os resultados desportivos assim o justificarem, se o Sporting achar que José Peseiro não está a desempenhar bem a sua função ou se fez algo para beliscar a imagem do Sporting e/ou não interpretou os princípios da cultura do Sporting, ele sairá do Sporting. Mas terá todas as condições para desempenhar bem o seu trabalho, ele e todos os outros treinadores da outras modalidades. Se me pergunta, eu digo que até agora estou satisfeito com o trabalho de José Peseiro, é um trabalho positivo, abalado por este clima de instabilidade, mas que será mais potenciado quando entrarmos com a estabilidade que vamos dar ao clube", diz.

Faltava falar de alguns temas, mas Benedito, que já tinha resistido a um problema do gravador do DN, não dava mostras de quebra. E, quando lhe perguntamos porque não divulgava o nome do CEO, voltou a tentar marcar pontos diferenciadores entre a sua lista e as restantes seis. "O tema do CEO é uma primeira vitória desta lista, fomos nós que o trouxemos para a campanha e todos os outros têm falado dessa necessidade. Isto atesta a visão estratégica e a qualidade de análise das pessoas desta lista", sublinha, ganhando fôlego para explicar porque quer um CEO transversal entre clube e SAD.

"O meu CEO é sportinguista, sócio há mais de 20 anos, nunca esteve em nenhuma direção, não fez parte de conselhos de acionistas, não é da família de nenhum dos outros candidatos. Posso dizer que é o melhor do mercado."

"É uma figura, perfil, função que faça a gestão das áreas não desportivas. A estratégia será o conselho diretivo a definir, esta pessoa terá uma função não decisória, terá uma função executiva. Até hoje temos tido para estes cargos pessoas ligadas aos órgãos sociais que saem após quatro anos e o desconhecimento invade a estrutura do clube. Agora saiu o Dr. Carlos Vieira, que era a pessoa mais conhecedora a nível financeiro, quando ele chegou também saiu a pessoa que lidava com estes dossiês. Isto prejudica o clube", sintetiza, antes de dar o remate final sobre o perfil do CEO que tem apalavrado. "É sportinguista, sócio há mais de 20 anos, nunca esteve em nenhuma direção, não fez parte de conselhos de acionistas, não é da família de nenhum dos outros candidatos. Posso dizer que é o melhor do mercado, a partir de dia 9 vai defender o Sporting com os princípios que nós queremos, mas este tipo de pessoas não está no mercado, se algo de inesperado acontecer não posso levá-lo no dia 9 para a minha casa e dar-lhe emprego."

Perguntamos a João Benedito se foi aliciado por Frederico Varandas a unir-se à lista do antigo diretor clínico e o candidato não nega: "Falei com o Frederico e outras listas falaram comigo. Sei que houve vários contactos entre várias listas, mas este projeto faz sentido porque tem um carácter diferenciador de todos os outros em que o sucesso financeiro passa pelos resultados desportivos. Agora o normal é não ganharmos, mas o normal tem de ser ganhar e estar mais vezes a ganhar do que a não ganhar."

A finalizar, Miguel Albuquerque, diretor do futsal, durante mais de dez anos superior hierárquico de João Benedito que no dia a seguir ao seu ex-atleta apresentar a candidatura se aliou a Frederico Varandas. Ficará Albuquerque em Alvalade se Benedito vencer nas urnas? A resposta passa por um ataque à conduta de Frederico Varandas. "Esta questão tem de passar primeiro por perceber como se chega a ela. Não acho normal que qualquer candidato possa envolver colaboradores do Sporting na campanha e dizer, orgulhosamente, que as pessoas são livres para decidir. Imagine nas próximas eleições a possibilidade de os candidatos fazerem propostas a funcionários para estes participarem. Estamos a falar de promiscuidade. Não quero tecer comentários. Vamos falar com a pessoa e perceber o que se passou. Quem? Temos o vice-presidente para as modalidades, que fará esse contacto", responde, para depois desmentir ter uma má ou uma não relação com Albuquerque. "Isso é mentira. Temos uma relação normal, ainda quando saímos da apresentação das listas estivemos algum tempo a conversar. Está a dar-se protagonismo a mais a um colaborador. Sei que a gravidade da situação assim o exige, mas não podemos expor a vida da pessoa na praça pública em relação ao seu futuro."

"Não acho normal que qualquer candidato possa envolver colaboradores do Sporting na campanha e dizer, orgulhosamente, que as pessoas são livres para decidir."

E assim terminou a conversa, que se quis ligeira, com João Benedito, realizada na sede de candidatura, mesmo em frente ao Estádio José Alvalade. "Escolhi este sítio porque, passados dois anos, volto a estar diariamente aqui no estádio, é um sítio especial."