Unir o país, enfrentar a pandemia e dar a volta à recessão: os desafios do novo presidente

Independentemente de quem for declarado vencedor nos EUA, o cenário não é fácil.

O vencedor da noite eleitoral poderá dizer que quer ser o presidente de todos os norte-americanos -- o democrata Joe Biden já o fez, numa declaração enquanto ainda durava a contagem de votos. Mas num cenário de divisão profunda na sociedade, onde cada um dos lados olha para o outro como se fosse uma ameaça para o país, essa tarefa será mais difícil do que nunca.

Conseguirão os democratas, após meses de mobilização política, aceitar mais quatro anos de Donald Trump na Casa Branca? E se nem o presidente norte-americano respondeu na campanha às perguntas sobre se iria aceitar os resultados em caso de derrota -- e já alegou que houve fraude, ameaçando seguir para tribunal --, que farão os seus apoiantes se ele perder para Joe Biden?

O desafio de unir os norte-americanos é apenas um dos que o futuro presidente terá de enfrentar, com a pandemia de covid-19 e o impacto que esta teve na economia dos EUA também no topo das prioridades.

Um país polarizado

A tensão sente-se nas ruas, com ativistas à esquerda e milícias armadas à direita a planear sair para as ruas. Os protestos já estão aí, por causa da contagem dos votos por correio.

Uma eleição contestada - Trump tem defendido vezes sem conta que os democratas estão a "manipular" as eleições e Biden também chegou a dizer que o presidente só seria reeleito se houvesse "sacanices" nas urnas - servirá como combustível para a violência pós-eleitoral.

Estudos indicam que um em cada cinco norte-americanos com uma forte filiação partidária está disposto a endossar a violência se o outro partido vencer as presidenciais.

Na contagem decrescente para o dia das eleições, mais norte-americanos do que nunca compraram armas (um recorde de 18,6 milhões de armas até ao início deste mês). Normalmente as vendas sobem em anos eleitorais quando os donos de armas temem que um democrata no poder possa restringir as vendas, mas desta vez muitos liberais estão também a correr às lojas, sendo certo que algumas têm tido problemas em repor as reservas de balas.

Várias cidades e empresas prepararam-se para um cenário de violência. As primeiras reforçaram a presença da polícia nas ruas e as segundas, nomeadamente as lojas, protegeram-se como se esperassem a passagem de um furacão, tapando com contraplacado as montras das lojas. É a resposta depois das cenas de vandalismo e de pilhagens durante o verão, à margem dos protestos relacionados com a tensão racial nos EUA ou com as medidas de confinamento por causa da pandemia.

A resposta dos candidatos ao resultado eleitoral será essencial para acalmar (ou incendiar) a situação. No primeiro debate, quando lhe foi pedido que condenasse um movimento de extrema-direita, os Proud Boys, Trump disse-lhes "recuem e estejam a postos", com o grupo a sentir-se legitimado (o presidente mais tarde explicou que queria dizer "fiquem quietos", isto é, stand down, quando disse stand by).

Já depois de começarem a chegar os resultados, Trump proclamou vitória (quando ainda decorria a contagem), alegando que os democratas estavam a tentar impedi-lo de ficar mais quatro anos na Casa Branca. Já Biden, sem proclamar vitória, mostrou-se confiante de que, depois de contados todos os votos, será o vencedor.

Na era das redes sociais e dos telemóveis com câmaras, qualquer imagem de violência de uma ou outra parte corre o risco de se tornar viral, incendiando ainda mais a situação.

Mas mesmo que os piores cenários não se concretizem, o futuro presidente terá pela frente quatro anos em que as suas ações podem servir para desencadear a violência a qualquer momento.

Pandemia

Os EUA chegaram ao dia das presidenciais com mais de 9,3 milhões de casos contabilizados desde o início da pandemia, com uma média de 85 mil novos casos por dia na última semana - só no Luisiana e no Havai, a tendência nas infeções é de queda. Pelo menos 231 470 pessoas morreram de covid-19, um aumento de 533 em 24 horas.

As questões de saúde e a resposta à pandemia de covid-19 são as que mais preocupam os democratas, mas mesmo desvalorizando o novo coronavírus, Trump, se for reeleito, terá de lidar com a segunda vaga, já em curso.

O presidente tem dito que os norte-americanos estão "cansados" de ouvir falar de covid-19, reiterando que os EUA estão a dar a volta à situação e pondo em causa os especialistas, nomeadamente o diretor do Centro Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci, que ameaça despedir (apesar de tecnicamente não ter poder para o fazer).

Uma vez que a tomada de posse é só a 20 de janeiro, e dependendo de como a situação evoluir até então, se Biden ganhar poderá ter de enfrentar apenas o rescaldo e, no melhor cenário, como fazer chegar a vacina a todos. Na campanha tem repetido que ouviria o que a ciência diz em relação à pandemia.

Economia

Antes da pandemia, a economia norte-americana estava a crescer, com o PIB a subir 2,3% em 2019, depois de 2,9% no ano anterior. Os EUA beneficiavam de um desemprego baixo (3,5%), de taxas de juro reduzidas e de um consumo elevado. Eram os argumentos que Trump pretendia repetir uma e outra vez durante a campanha, de forma a segurar o voto dos republicanos e não só.

A covid-19 trocou-lhe as voltas, já que o confinamento trouxe o fecho de empresas e níveis de desemprego recorde (chegou aos 14,7% em abril). Apesar das melhorias desde então (o desemprego chegou aos 7,9% em setembro), a segunda vaga de covid-19 pode voltar a trazer dissabores.

O próximo presidente terá de fomentar a criação de emprego (nesse aspeto, os últimos dois anos de Barack Obama foram melhores do que os últimos dois de Trump) e continuar a recuperação económica, que já começou no terceiro trimestre, com um crescimento de 33,1% (melhor do que o esperado, graças não apenas à reabertura económica, mas aos estímulos pagos aos cidadãos, que receberam um cheque de 1200 dólares). Ainda assim, espera-se uma recessão, com as previsões a variar de 3,5% a 4,3%.

Quem estiver na Casa Branca terá também de enfrentar a questão do défice, que com a pandemia chegou a um recorde de três biliões de dólares em setembro. A dívida já vinha a subir antes da covid-19, por causa da política de Trump de cortar nos impostos, mas a pandemia piorou a situação. O prolongar da crise de saúde no tempo contribuirá para o aumento dos gastos ainda mais. Biden prevê aumentar os impostos, para rendimentos acima dos 400 mil dólares.

(Texto publicado inicialmente a 4 de novembro e atualizado com novos dados)

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