"Na escola competia com um amigo para ver quem era mais rápido e tinha melhores notas"

Os estudos, o gosto pela tabuada, o apelido Deco e a paixão pelo FC Porto, a má experiência no AC Milan, os golos no Sevilha e os recordes na seleção. O avançado passa em revista a sua carreira nesta entrevista ao DN e fala ainda dos sonhos e objetivos que pretende concretizar.

André Silva, que faz 23 anos nesta terça-feira, está a dar nas vistas no Sevilha. Já leva sete golos no campeonato espanhol, mais do triplo daqueles que marcou em toda a época passada no AC Milan, clube que pagou ao FC Porto 38 milhões de euros pelo seu passe. Apesar da lesão sofrida no jogo de há uma semana, na receção ao Huesca (2-1), para a 10.ª jornada, a vida corre-lhe bem na cidade andaluz. Os adeptos estão maravilhados com as suas atuações e, segundo o DN constatou, André é já o terceiro jogador do clube que mais camisolas vende, depois de Banega e Jesús Navas. Na seleção, o avançado também se tem destacado pela eficácia - foi o terceiro mais rápido de sempre a chegar aos 14 golos (os que tem atualmente em 29 jogos).

Como é que o futebol entra na sua vida?
Com 6 anos, os meus pais puseram-me a jogar futebol, mas pelo meio houve uns problemazitos. Eu jogava sempre na equipa acima e o meu pai acabou por me pôr a experimentar outros desportos. Pratiquei hóquei, karaté e natação, mas apaixonei-me logo pelo futebol...

Numa entrevista ao Porto Canal revelou que os seus pais o puseram no futebol porque era uma criança egoísta e precisava de um desporto de equipa...
Se calhar os meus pais tiveram razão e conseguiram o que queriam, que o futebol ajudasse a colocar o egoísmo de lado. Ou então julgaram-me mal [risos]. Há coisas que me contam e que eu não me recordo, mas com certeza tinham razão. Parece que eu tinha uma PlayStation e passava tardes inteiras a jogar, enquanto os meus primos e o meu irmão estavam a tarde toda a olhar para mim à espera da vez deles para jogar e que nunca chegava [risos]. Era o dono da PlayStation.

E na escola? Gostava de estudar ou o recreio era a parte melhor?
Nos intervalos jogava futebol, mas sempre gostei de estudar. Eu adorava matemática e educação física. Era rápido a raciocinar e a fazer contas. Adorava fazer a tabuada e fazia-a em todo o lado. É verdade que em miúdos aprendemos as coisas mais rapidamente e para mim foi uma boa base para o futuro. Só não gosto é de fazer contas nos apuramentos. Isso está fora de questão...

Era então bom aluno. Quando decidiu que o futebol era o seu destino?
Já na primária era competitivo, queria ser o mais rápido a acabar os testes e era o que tinha melhores notas. Na escola competia com um amigo para ver quem era mais rápido e tinha melhores notas. Sempre quis ser um dos melhores da turma. Depois as coisas acabaram por se complicar por causa do futebol e das seleções e já não conseguia acompanhar o ritmo. Passei muitas noites a estudar, mas acabei por baixar um pouco, mas sempre com notas razoáveis.

Começou a jogar no Salgueiros...
Fui jogar para o Salgueiros com o meu primo e a partir daí o futebol tomou conta da minha vida. Já não era como jogar na escola com os colegas de turma. Via jogadores a fazer coisas que eu não era capaz e isso deixou-me mal, nada confortável. Não era capaz de dar mais de três toques na bola por exemplo, e havia colegas que até malabarismos faziam. Isso fez-me querer evoluir e superar as minhas dificuldades. Passei a competir comigo mesmo para ser o melhor jogador. Foi assim que me fiz futebolista.

Foi no Salgueiros que ganhou a alcunha de Deco. Hoje ainda faz sentido esta alcunha?
Ele também jogou no Salgueiros e houve uma altura em que o treinador resolveu dar nomes de grandes futebolistas aos jogadores da equipa e perguntou-me qual era o meu preferido. Eu disse Cristiano Ronaldo, mas ele disse que esse já estava escolhido e que eu ia ser o Deco. Como jogava na posição 10 e gostava do Deco aceitei, mas nunca pensei que a alcunha pegasse. Acho que hoje ainda faz sentido... ainda sou bom a fazer assistências, a encontrar espaços e servir os colegas, embora a minha carreira tenha levado outro rumo e agora seja mais de finalizar e colocar a bola na baliza do que a servir colegas.

Depois vai para o FC Porto. O que se lembra da estreia na equipa principal, na época 2015-16?
Foi num jogo com o Lopetegui e acho que até marquei dois golos. As coisas correram bem, mas era só uma pré-época, embora para mim significasse muito na altura. Depois voltei para a equipa B e só regressei à equipa principal mais tarde. Estreei-me nos jogos a sério no Dragão com uma derrota com o Marítimo, na Taça da Liga (3-1). Não saí com boa cara do campo. Estreei-me mas foi um dia mau.

Apesar de ter jogado menos de duas épocas no Dragão, é o melhor goleador do século XXI do FC Porto. Os títulos individuais contam para si?
Eu ligo ao presente e ao que faço nesta época. O passado é passado, as coisas vão acontecendo, os recordes vão sendo batidos e há que continuar a olhar para o futuro e não viver do passado. É verdade que gosto de alcançar objetivos individuais, em golos e tudo, mas o futebol é um desporto coletivo e prefiro muito mais um título coletivo, como ganhar a Liga, do que ser o melhor marcador do campeonato e não o vencer, porque são os objetivos coletivos que ficam na história e levam os adeptos aos estádio. Tenho os meus sonhos e os meus objetivos, mas não os revelo a ninguém para não me chamarem tolo [risos].

O que significa o FC Porto na sua vida nesta altura?
O FC Porto é o clube do meu coração. O clube onde aprendi a maior parte das coisas, que me deu carinho, que me deu tudo o que eu precisei para chegar onde já cheguei. E sou muito agradecido ao clube por isso.

Saiu do FC Porto por 38 milhões de euros. Agora o Transfermarket diz que vale 57 milhões de euros. Sente o peso dos milhões?
Eu não olho muito para o futebol pelo lado financeiro. Eu quero ser feliz, gosto de competir, gosto de ganhar, e sinto-me bem nesse ambiente de treino e jogo, um depois do outro. É isso que me faz evoluir.

A vida em Sevilha está a correr bem?
Está a correr muito bem e tem pernas para andar. Estamos num bom momento. Mudámos a nossa mentalidade. Depois de duas derrotas sentimos que tínhamos de mudar. O nosso objetivo é ganhar e jogamos para isso. Estou contente pelos golos, mas mais pelas vitórias do Sevilha.

Fazer um hat trick na estreia não é para todos. Aliás ninguém o conseguia há 25 anos na Liga espanhola, igualou um feito de Romário [ex-Barcelona]....
Podem dizer que foi sorte, mas as coisas acontecem por alguma razão. A verdade é que cada pessoa faz a sua sorte e é preciso trabalhar para ela. Não vou dizer que foi por acaso, mas é preciso continuar a trabalhar porque só três golos não chegam...

Neste caso, são já sete golos na Liga espanhola em dez jogos. E dois deles ao Real Madrid...
Sim, é verdade. Esses dois golos ao Real talvez tenham chamado mais a atenção. Não é todos os dias que lhes ganhamos por 3-0. Foi no dia de aniversário da minha mãe e emocionei-me quando marquei. Confesso que nesta altura não esperava ter sete golos e estas vitórias. Sempre fui positivo, mas não imaginava isto.

Podemos contar com o André Silva para o prémio Pichichi [melhor marcador da Liga espanhola]?
Claro que todos os avançados gostavam de ser Pichichi, mas há muita liga e trabalho pela frente. Gostaria sim de ser o melhor marcador, mas eu não ponho limites ou objetivos de golos. É muito difícil, mas eu acredito que consigo!

Dos sete golos na Liga espanhola qual foi o que lhe deu mais gosto marcar?
Talvez o último, porque o último é sempre o mais importante e o próximo será mais importante do que o último...

O último foi um golo anulado pelo videoárbitro (VAR)...
Pois... Esse não conta.

Como é marcar e festejar um golo e ter de esperar quatro minutos, que foi quanto demorou o árbitro a decidir anular o golo que marcou ao Huesca, para saber se vale ou não?
É verdade que tira um bocado a magia ao futebol, mas as coisas são como são. O que posso dizer é que acho que a maior parte dos jogadores atuais que começaram a ver o futebol na televisão olham para isso de forma estranha. Eu não serei a pessoa certa para discutir se o VAR é ou não uma mais-valia para o futebol. O que eu espero é que assim como tira magia, acrescente mais justiça.

Apesar da boa forma e do bom desempenho nem sempre foi titular. Mesmo depois de marcar dois golos ao Real, no jogo com o Barcelona foi suplente. O que sente um jogador no banco, ainda mais um tão competitivo como o André diz que é?
A verdade é que nenhum jogador gosta de ficar no banco. Eu se pudesse jogava todos os jogos e estava lá dentro até o árbitro apitar para o fim do jogo para tentar ajudar a equipa a ganhar. Mas há várias razões para que nem sempre seja assim. Há mais jogadores, há um treinador que escolhe e sabe o que faz, e as escolhas têm dado resultado, pois estamos em 3.º lugar no campeonato e só a dois pontos do líder. O que eu quero é ganhar. Se vencermos e eu marcar fico contente, mas o mais importante é a equipa.

A vida em Sevilha corre-lhe bem, mas no AC Milan, na época passada, nem por isso...
O André do Milan é o mesmo André de Sevilha. O que posso dizer é que tudo influencia. Não tenho resposta para o que aconteceu na época passada. Eu não me quero alongar nesse assunto, sou jogador do Milan, mas agora estou cedido ao Sevilha. Desde que vim para aqui senti a confiança de toda a gente. Os adeptos, o treinador e os colegas, todos me têm acarinhado e ajudado a adaptar, e isso vê-se em campo. A chamada afición tem estado comigo. Sendo eu formado no FC Porto e tendo jogado no Dragão, estou habituado a adeptos ferrenhos e com vontade de entrar em campo. E aqui em Sevilha é assim. Sinto que estão com a equipa e só não entram em campo porque não podem ou não conseguem [risos].

Se os golos em Sevilha têm sido importantes, na seleção também. A sensação que fica quando joga pela seleção é que lhe dá um gosto enorme jogar com aquela camisola...
Desde que o mister Fernando Santos me chamou pela primeira vez que me sinto bem na seleção. Os colegas são um espetáculo, receberam-me muito bem, de braços abertos mesmo. Já me dou bem com todos, conheço-os muito bem e é como voltar a casa. Sou feliz a jogar pela seleção, assim como sou feliz agora a jogar pelo Sevilha.

Tem 14 golos pela seleção. E foi o mais rápido a fazer um hat trick, o mais rápido a chegar aos cinco golos e só dois jogadores (Eusébio e Peyroteo) precisaram de menos jogos para chegar aos 14 golos...

A verdade é que só depois de ler os jornais é que soube disso. Normalmente é assim, ou então porque alguém me diz depois. Quando entro em campo só quero marcar golos. Depois, claro que me sinto orgulhoso e satisfeito com o meu trabalho, mas não olho muito a isso.

A parceria com Cristiano Ronaldo é tudo aquilo que podia pedir ou quer mais?
Se todos os jogadores pudessem pedir o melhor do mundo para jogar com ele na seleção, quem não o pediria? Para mim é muito mais fácil jogar com ele do que sem. A qualidade que o Cristiano tem facilita tudo e todos. Apesar de termos quase dez anos de diferença damo-nos bem dentro e fora de campo.

O André brilha em Espanha, CR7 brilha em Itália. Não cabem os dois no mesmo campeonato?
[Risos] Claro que sim, como cabemos na mesma seleção. O Cristiano fez a sua opção, eu fiz a minha. Eu achei que era melhor vir para Espanha, ele achou que o melhor para ele era ir para Itália.

A Liga das Nações vai voltar. Como jogador como olha para esta nova competição da UEFA?
Como todas as outras. Uma competição para ganhar. Na seleção todos os jogadores têm fome de vencer.

Depois daquela final da Taça de Portugal de 2016 [o FC Porto foi derrotado pelo Sp. Braga nos penáltis], em que marcou dois golos, um deles espetacular, foi difícil não ser eleito para o Euro 2016?
Naquela altura o mister tomou a opção dele, eu como jogador tive de a respeitar. E pelo que aconteceu, o mister acertou na escolha (Eder). Talvez se eu fosse não ganhássemos. Eu senti-me muito feliz com a conquista deles e quando acabou o Europeu festejei que nem um doido.

Então se estivesse no lugar do Fernando Santos e já sabendo como a história acabava, convocava-se a si ou levava o Eder?
Se eu estivesse no lugar do mister, ele estaria no meu e eu teria de convocar o Eder na mesma...

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