Trump em Londres: depois da pompa, é hora de política e protestos

Entre a receção oficial, o banquete da rainha Isabel II Trump tweetou que russos saíram da Venezuela, aproveitou para ameaçar novamente o México e para menosprezar os protestos contra si em Londres. Nesta terça-feira vai reunir-se com a primeira-ministra demissionária Theresa May. Líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, junta-se aos manifestantes e vai discursar contra o presidente dos EUA.

A rainha Isabel II e o presidente dos EUA, Donald Trump, prestaram homenagem aos soldados que participaram no Dia D nos discursos que fizeram nesta segunda-feira à noite no banquete no Palácio de Buckingham. E lembraram a relação especial que existe entre o Reino Unido e os Estados Unidos da América.

"Numa altura em que enfrentamos os desafios do século XXI, o [75.º] aniversário do Dia D recorda-nos o que os nossos países conquistaram juntos. Sob os sacrifícios partilhados da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha e os EUA trabalharam com outros aliados para construir um conjunto de instituições internacionais, por forma a garantir que os horrores do conflito jamais seriam repetidos. Se o mundo mudou, estamos para sempre conscientes do propósito original destas estruturas: nações que trabalham juntas para garantir a paz tão arduamente garantida", declarou a monarca britânica, referindo-se a instituições multilaterais, como a ONU, que Trump tanto tem atacado e posto em causa.

O presidente dos EUA, por seu lado, também prestou homenagem aos militares e recordou o Dia D. "O regime nazi largou bombas sobre esta cidade e o Palácio de Buckingham foi bombardeado várias vezes", assinalou, lendo o seu discurso. Agradecemos os bravos filhos do Reino Unido e dos EUA que derrubaram os nazis e o regime nazi. Reafirmamos os valores comuns", garantiu o republicano multimilionário, dando como exemplo os valores "da liberdade" e do "Estado de direito". Trump reafirmou, antes do brinde, "amizade eterna entre os povos" do Reino Unido e dos EUA.

Presentes estavam a rainha Isabel II, o príncipe Carlos e Camila, o príncipe William e Kate e a primeira-ministra Theresa May. O príncipe Harry, bem como a mulher, Megan, não estiveram presentes O banquete desta segunda-feira à noite foi boicotado pelo speaker da câmara dos Comuns, John Bercow, pelo líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, e pelo líder dos liberais-democratas, Vince Cable.

Receção com pompa e circunstância pela família real

O primeiro dia de visita de Estado ficou marcado pela pompa das cerimónias, desde a receção com 82 salvas de canhão à chegada ao Palácio de Buckingham, para um almoço com a rainha, até ao banquete de Estado à noite. A refeição de quatro pratos foi servida num serviço de prata, encomendado pelo rei George IV em 1806 quando ainda era príncipe de Gales.

O Air Force One aterrou no aeroporto de Stansted pouco depois das 09.00, com o presidente e a primeira-dama a seguirem de helicóptero para a residência oficial do embaixador dos EUA no Reino Unido, onde ficarão alojados durante os três dias de visita de Estado.

O primeiro ponto na agenda era o almoço em Buckingham, antecedido de uma revista às tropas. Depois, a rainha mostrou a Trump alguns dos objetos da sua coleção de arte privada relacionados com a história dos dois países.

O presidente seguiu para outro ponto alto de qualquer visita de Estado, em especial uma que serve para assinalar os 75 anos do Dia D (o desembarque das tropas aliadas nas praias da Normandia que marcou o princípio do fim da II Guerra Mundial): a visita à Abadia de Westminster, com a deposição de flores no túmulo do soldado desconhecido. As comemorações oficiais serão na quarta-feira.

Ainda antes do banquete, houve tempo para uma passagem por Clarence House, a residência oficial do príncipe Carlos, para um chá.

May e Huwaei na ementa do segundo dia de visita

Depois de vários momentos de confraternização com a família real britânica, o segundo dia de viagem será dedicado à parte política da viagem. Trump irá tomar o pequeno-almoço com a primeira-ministra Theresa May, no âmbito de um encontro entre empresários do Reino Unido e dos EUA. Espera-se que Trump suscite a questão da Huwaei.

Em declarações feitas na semana passada, citadas pela Reuters, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente dos EUA, John Bolton, disse: que os britânicos ainda não tomaram a sua decisão final sobre a Huawei e a 5G. No início de maio, Theresa May, que abandona o n.º 10 de Downing Street a 7 de junho, demitiu o ministro da Defesa, Gavin Williamson, por fuga de informação, sobre o acordo com a Huwaei para desenvolver a rede 5G.

Em causa, revelou a imprensa, está a informação veiculada pelo jornal Telegraph, que noticiou que a primeira-ministra acordou que a chinesa Huawei ajudasse a desenvolver a rede 5G do Reino Unido, apesar dos vários alertas feitos sobre os riscos de segurança nacional que isso pode vir a representar para o país.

Trump quer que os EUA ganhem a corrida do desenvolvimento da 5G e não admite que o seu país seja ultrapassado neste campo por qualquer outro. Não podemos permitir que qualquer outro país ultrapasse os EUA nesta poderosa indústria do futuro (...), simplesmente não podemos permitir que isso aconteça", disse Donald Trump, em abril, na Casa Branca.

O desenvolvimento da 5G tem sido marcado por polémicas relacionadas com a fabricante chinesa Huawei. Esta é acusada de espionagem industrial e outros 12 crimes pelos Estados Unidos, país que chegou a proibir a compra de produtos da marca em agências governamentais e que tem tentado pressionar outros países a excluírem a empresa no desenvolvimento das redes 5G.

May anunciou a demissão da liderança do Partido Conservador depois de não ter conseguido garantir o Brexit. Apesar de ficar interinamente no cargo de primeira-ministra, até à escolha do sucessor, qualquer discussão com Trump será supérflua, porque o sucessor - há já 13 candidatos - poderá decidir seguir um caminho diferente nas relações com o velho aliado do outro lado do Atlântico.

Trump e May vão ainda almoçar e visitar os gabinetes de guerra de Churchill, a partir dos quais o então primeiro-ministro britânico trabalhava durante a II Guerra Mundial.

Haverá ainda uma conferência de imprensa conjunta, com May provavelmente a lembrar a última visita de Trump, em 2018, quando o presidente norte-americano alegou que teria feito um melhor trabalho a negociar a saída do Reino Unido da União Europeia e acusando-a de não ter seguido os seus conselhos.

Enquanto isso, a primeira-dama Melania estará com o marido de Theresa May, Philip, e ambos irão participar numa festa de jardim em Downing Street.

O dia culminará com um jantar e uma festa de agradecimento oferecidos por Trump e Melania na residência do embaixador dos EUA, no qual o príncipe Carlos e Camila vão participar em nome da rainha Isabel II.

Protestos em Londres com balão e discurso de Corbyn

Um jovem de 18 anos encontrou uma forma original de protestar contra a visita de Trump, escrevendo uma mensagem no relvado da propriedade da família, perto do aeroporto de Stansted. "As alterações climáticas são verdadeiras", lia-se numa das mensagens, junto ao desenho de um urso-polar. A outra era mais colorida: dizia "oi Trump" e era acompanhada pelo desenho de um pénis.

"Decidi escrever as mensagens porque Trump em especial, mas muitos líderes no mundo inteiro, recusam acreditar nas alterações climáticas e recusam ter alguma coisa que ver com as alterações climáticas", disse à Reuters o jovem Ollie Nancarrow, que passou o fim de semana com o cortador de relva a escrever as mensagens gigantes na relva. "Preocupam-se com uma série de outros assuntos, mas nada disso tem importância se não arranjarmos o clima primeiro", acrescentou.

O segundo dia de visita de Trump deverá também ficar marcado pelos protestos. Um protesto contra a visita de Trump, mas também contra o que ele representa, desde o aumento da extrema-direita e dos populismos no mundo até aos ataques aos direitos das mulheres e minorias, passando pelo clima.

Nos céus de Londres voltará a voar o balão gigante de Trump bebé, que marcou a visita do ano passado do presidente norte-americano. O balão de seis metros mostra Trump de fralda e telemóvel na mão. A diretora do Museu de Londres, Sharon Ament, fez saber que gostaria de ter o balão na coleção permanente do museu, referiu a Newsweek.

"Os protestos de amanhã contra a visita de Estado de Donald Trump são uma oportunidade de mostrar solidariedade com aqueles que ele atacou na América, à volta do mundo e no nosso próprio país - incluindo, ainda nesta manhã, Sadiq Khan", escreveu o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, que tem previsto falar na manifestação contra Trump em Trafalgar Square.

Apesar de tudo, o chefe do Estado norte-americano, também no Twitter, escreveu na segunda-feira à noite que ainda não viu protestos nenhuns e que tudo o que surgir poderá ser fake news. "A visita está a correr muito bem. A família real tem sido fantástica. A relação com o Reino Unido é muito forte. Multidões tremendas de pessoas que amam o nosso país. Não vi protestos nenhuns ainda, mas tenho certeza de que as fake news estão à procura deles. Muito amor por aqui. E também um grande acordo de comércio, uma vez que o Reino Unido se livre das algemas. Já estamos a começar as conversações!" Por algemas, Trump queria dizer União Europeia.

O presidente tweetou ainda sobre outros temas, antes do banquete oferecido pela rainha, tais como México e Venezuela. Numa das mensagens afirma: "A Rússia informou-nos que retirou todo o seu pessoal da Venezuela".

Polémica com o mayor londrino Sadiq Khan

O ataque sobre o qual Corbyn se referia ocorreu ainda antes de Trump aterrar. Lançando a polémica, o presidente usou o Twitter para criticar o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, pela sua atitude "desagradável" em relação à visita do chefe de Estado norte-americano ao Reino Unido.

Khan tinha afirmado que o país não deveria "estender a passadeira vermelha" a Donald Trump. O mayor de Londres também disse publicamente que a primeira-ministra deveria dizer ao presidente que ele "está errado numa série de assuntos", tais como as suas opiniões sobre as mulheres e sobre os imigrantes.

Em resposta, Trump afirmou ainda que Sadiq "tem feito um péssimo trabalho como mayor de Londres". "Ele é um falhado e deveria concentrar-se em combater o crime em Londres em vez de se focar em mim...", escreveu Trump. Além disso, lembrou que os EUA são "de longe o aliado mais importante do Reino Unido".

Noutro tweet, Trump comparou Khan ao "muito burro e incompetente mayor de Nova Iorque", Bill de Blasio, "que também fez um trabalho terrível". Este já respondeu a Trump, dizendo que considera um elogio ser comparado com o mayor de Londres, de quem é um grande fã. E diz que Khan é muito melhor do que o "Brexit Bojo", numa referência a Boris Johnson, que Trump considera um "amigo". O ex-chefe da diplomacia britânica oficializou hoje a sua candidatura a líder do Partido Conservador.

Um porta-voz de Khan respondeu entretanto aos ataques de Trump, dizendo que as mensagens que o presidente partilhou nas redes sociais são "mais sérias do que insultos infantis". E acrescentou: "Sadiq representa os valores progressistas de Londres e do nosso país, avisando que Trump é o exemplo mais notório de uma crescente ameaça de extrema-direita em todo o mundo, que está a pôr em risco os valores básicos que definiram as nossas democracias liberais durante mais de 70 anos."

Na verdade, a troca de insultos entre Khan e Trump não é de agora. Já em 2016 Donald Trump desafiou Sadiq Khan a fazer um teste de inteligência (QI) depois de o inglês ter dito que as opiniões de Donald Trump sobre o islão eram de um "ignorante". Entre outras trocas de palavras menos simpáticas.

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Adriano Moreira

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Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.