O que falta saber na companhia aérea nacional e um osso duro de roer

O ministro Pedro Nuno Santos parece gostar de fazer de polícia mau. Utiliza um estilo negocial com o intuito de intimidar e evidenciar "ou é o que vos digo ou é o caos" para levar a água ao seu moinho. É um estilo.

Na política o que parece é e Pedro Nuno Santos é um osso duro de roer. Um elemento polémico entre os seus pares que, calculo, deve dar imenso jeito ao primeiro-ministro, sempre que o caldo tem tendência para entornar nas áreas que tutela.

Pedro Nuno Santos, que não tem ainda uma longa carreira enquanto ministro, tem lidado com pastas difíceis. Antes de todas as polémicas em redor dos transportes, começou por recolher poucos amigos na EDP. Depois veio o aeroporto, os comboios, a TAP, e devo estar a esquecer-me de muitos outros temas quentes com que já lidou. E vai continuar lidar, tendo em conta a enorme crise económica, e diria também política, que Portugal vai viver. À medida que a crise sanitária e a crise económica se prolongam, e entram numa nova etapa, as posições vão-se afastando para os extremos.

A forma como, na quinta-feira à noite, o ministro Pedro Nuno Santos anunciou uma nacionalização que afinal não é nacionalização da TAP, mas uma tomada de posição de 72,5% do capital da companhia aérea pelo Estado, foi um jogo de palavras de ataque e defesa em relação à oposição, de explicação e de justificação em relação aos contribuintes. Afinal, estamos a falar de 1,2 mil milhões de euros a injetar na TAP, mais 55 milhões de euros a troco de 22,5% da participação de David Neeleman, e a procissão ainda vai no adro. O cenário de forte instabilidade e nuvens negras vai continuar para todas as transportadoras aéreas da mundo, e a companhia de bandeira nacional não é exceção.

Em relação à crise que ainda aí vem e cujas consequências, certamente, vão atravessar várias legislaturas, restam poucas dúvidas. Sobre a TAP restam várias.

Ainda falta saber se será o Estado a fazer - e o Governo a dar a cara - pela reestruturação da companhia. O mesmo Estado que já tinha na empresa seis representantes, de currículo reconhecido, mas poucas provas dadas que se conheçam. Se a reestruturação a que a TAP está obrigada por Bruxelas implicar cortar, pelo menos, 20% dos trabalhadores, estamos a falar de duas mil pessoas que vão diretamente para o desemprego. Se há decisões impopulares, esta é uma delas, cortar postos de trabalho. E se é uma decisão impopular nas empresas privadas, imagine-se quando a liderança é pública e depende dos eleitores. Este é o primeiro ponto.

O segundo ponto que falta explicar - e que no caso da Efacec, elogio seja feito ao ministro de Estado, da Economia e de Transição Digital, ficou logo esclarecido - é saber até quando quer o Estado ficar na TAP. O anúncio para a entrada na companhia aérea foi feito sem prazo, sem intenção de saída. Teremos percebido todos bem e, de ora em diante, a TAP ficará sempre para o Estado, em 72,5%? Ou deveria ter sido anunciada para a TAP uma medida transitória - ou como se referiu no caso da Efacec uma "nacionalização não duradoura" -, com a intenção de, mais tarde, voltar a passar a empresa para a mão de privados do setor, que a saibam gerir?

O Estado pode voltar a vender a companhia que, a seu tempo, voltará a ser um ativo valioso para o Estado. A TAP é um ativo monetizável. Não agora, que o setor está perante um apagão. Mas quando a pandemia se desvanecer, a TAP voltará a recuperar valor e o hub de Lisboa voltará a ser um ponto central na distribuição de voos para vários continentes, reduzindo a posição periférica que, quer queiramos quer não, Portugal ocupa no mapa.

Jornalista

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