Premium Feminismo e progresso

Em 1908 o Diário de Notícias apoiava a luta pelo voto das mulheres. Inequivocamente.

"Se as mulheres estão destinadas a ser a regeneração da urna - seja-lhes permitido quanto antes o uso do voto."

Este era o final do principal texto da primeira página do Diário de Notícias de 4 de Julho de 1908. Apenas duas semanas depois da grande manifestação das sufragistas inglesas, em Hyde Park, em Londres - que ficou conhecida como Women"s Sunday, o domingo das mulheres - o jornal tomava posição num assunto fundamental para a sociedade cosmopolita. E avançava, moderno como no primeiro dia, para um apoio total à ideia de que as mulheres deviam votar.

Além dessa manifestação, ou comício, fala o jornal também das eleições municipais em Paris onde elas participaram.

Mas não só.

Na coluna intitulada "Assumptos do dia", o jornal chamas à luta das mulheres pela igualdade como um dos pontos fundamentais do progresso. "O mundo caminha, o progresso segue a sua marcha ascensional tendo por porta estandarte o braço da mulher."

Talvez contado não se acreditasse. Faz agora 110 anos, e parece tão atual, este texto, no ano de 2018 do #metoo e dos movimentos de emancipação em várias áreas. Para quem acha que é uma moda, leia:

"A sociedade tende a transformar-se e essa remodelação profunda é devida em grande parte à influência exercida pela mulher. É justo, é justificado esse movimento, que a muitos se afigura de revolta, que a outros parece ridículo e inexequível, mas que não é, já se vê nos seus naturais limites, senão uma aspiração benemérita, digna de ser aplaudida, compartilhada pelo homem, como sendo mais diretamente interessado na evolução moral da sua companheira de trabalho."

E mais: o jornal refere o importante papel das mulheres em prol do pacifismo. "Certamente não há empresa que melhor se coadune com o seu temperamento delicado", comenta esta espécie de editorial. Mas o que parece uma contradição com a posição tomada, é apenas um efeito de retórica, para dizer a seguir que "nem todo o elemento feminino se contenta, porém, com este papel simpático, aparentemente modesto, grandiosamente divino nos seus resultados. Nem todas se deixam impulsionar por esta corrente e fitam mais longe, e mais alto os seus olhares perscrutadores, inquietos e ambiciosos."

"A mulher deseja libertar-se do jugo que ela imagina ter-lhe sido até agora imposto, pretendendo ser equiparada ao homem, senão em todas as suas funções sociais pelo menos em algumas daquelas, a que se julga com absoluto direito. O sufragismo é um dos lemas que ela inscreve nos seus cartões de protesto."

A posição do jornal é bem clara: "Não estranhamos nem censuramos. E porque há-de a gente admirar-se que a mulher entre em pleno exercício do sufrágio quando as damas inglesas sobretudo na alta sociedade formam ligas de intrépidas combatentes em favor deste ou daquele partido?"

No final, uma dúvida. "O que resta saber é se para aquele pais (Inglaterra) ou para qualquer outro advirá alguma coisa de útil com a ingerência direta das mulheres na administração pública. Se a abundância dos políticos se considera já prejudicial o que será quando a concorrência feminina se tornar efetiva? Virão elas acaso dar exemplo de moralidade, saneando a corrupção que domina nas esferas do poder? Ou apenas aumentará a desordem?"

Uma dúvida legítima e muito positiva para a imagem das mulheres. Mas ainda sem resposta, porque 110 anos depois ainda não há igualdade em nenhuma esfera da vida pública.

Resta dizer que apenas dez anos depois, em 1918, a 28 de dezembro, as mulheres conseguiram ganhar o direito ao voto. Só as que tinham mais de 30 anos.

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João Gobern

País com poetas

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