Premium A Realpolitik económica de Costa

Quando não há muito dinheiro... os ânimos exaltam-se. É assim dentro de qualquer lar, mas também de qualquer país. E se nos lembrarmos de que a dívida pública bateu máximos históricos, então as emoções ficam mesmo ao rubro. Quer se alinhe mais à direita ou mais à esquerda, há que fazer muitas contas.

Tudo isto vem a propósito de, em véspera do debate Estado da Nação, o primeiro-ministro, António Costa, ter dito que o exercício da governação faz-se tomando opções e que para se realizar certos investimentos não se poderá fazer outros, em jeito de resposta aos professores que reclamam pela reposição das carreiras.

As escolas e também as famílias com alunos a frequentar o ensino público vivem momentos difíceis, com milhares e milhares de estudantes que continuam sem ver atribuídas as notas dos exames. A Saúde e os hospitais públicos vivem um caos que, segundo alguns observadores, se agravará com o horário das 35 horas de trabalho. E da dívida pública já nem se fala, pois aproxima-se de 130% do produto interno bruto... Governar sempre foi e sempre será uma questão de opções. E há coisas que os números explicam, independentemente da ideologia.

Para alguns partidos apoiantes do governo, António Costa poderá ter tido uma espécie de "escapadela liberal de verão". Mas se não quisermos receber, de novo, a troika em Lisboa, então temos de assumir as escolhas que fazemos e a razão das mesmas.

Outros terão dito, em surdina, que faltou sensibilidade e um toque humano ao homem de esquerda e que não se pode comparar uma estrada à situação dos professores. Outros ainda elogiam o pragmatismo que o governante revelou. Não só assumiu que não há dinheiro como, de forma hábil, vai criando fissuras políticas na coligação parlamentar, o que poderá dar jeito, a prazo, para uma estratégia de atuação a solo.

As palavras de António Costa, que tanto chocaram certos quadrantes, despertaram na minha memória algumas lembranças - certamente sinal de alguns cabelos brancos e idade - que ao longo da profissão de jornalista fui ouvindo da boca de outros protagonistas. Recordo, por exemplo "é a vida!", de António Guterres; "o país está de tanga", de Durão Barroso; "habituem-se!" de António Vitorino; ou, ainda, "qual é a parte que não perceberam que não há dinheiro?", de Vítor Gaspar.

Há várias formas de dizer que falta dinheiro. Mas que ele falta não deixa de ser uma realidade. Se dúvidas houver acerca disso, é melhor falar-se já com Mário Centeno - agora também presidente do Eurogrupo -, que pode ajudar e explicar a fazer as contas. A meu ver, António Costa mais não fez do que realpolitik, defendida por Henry Kissinger.

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