Vinho. Já há empresas a antecipar vendas para o Reino Unido

Produtores temem efeitos de uma saída sem acordo com "caos" nas alfândegas e uma desvalorização da libra, que poderá chegar aos 25%.

A indefinição quanto aos termos da saída do Reino Unido da União Europeia está a deixar os empresários à beira de um ataque de nervos. Mas há já quem comece a precaver-se contra uma saída sem acordo a 29 de março. É o caso do grupo The Fladgate Partnership, detentora das marcas Taylor's e Fonseca, entre outras, e que se assume como líder nas vendas de categorias especiais de vinho do Porto no Reino Unido. A dona da Taylor's tem uma empresa de distribuição local, a Mentzendorff, em parceria com a JV e a Bollinger, empresa essa que aumentou os seus stocks no mercado britânico em "mais de 60 mil caixas", o equivalente às necessidades para três meses.

"Não é fácil antecipar vendas. Há alguns que podem ter capacidade de stockagem, mas muitos não têm e, por isso, o que fizemos foi alugar mais espaço de armazenagem no Reino Unido para aumentarmos os nossos stocks no mercado para três meses. São cerca de 60 mil caixas adicionais de vinho do Porto, champanhe e outros produtos", explicou, ao DN/Dinheiro Vivo, o CEO da Fladgate Partnership, Adrian Bridge. E acrescenta: "Se tivermos um hard Brexit, vai ser uma confusão. Haverá lugar a tarifas e ninguém sabe de quanto. A incerteza é um problema e nós precisamos de stocks para garantir que conseguimos manter os preços estáveis. Imagina-se que a libra irá desvalorizar-se, eventualmente na ordem dos 15%, mas ninguém sabe quanto tempo é que isso durará, achamos que seria seguro termos stocks para três meses para termos tempo de avaliar e reagir em conformidade."

O CEO da Taylor's lembra que 15% de desvalorização da libra será "brutal". "As margens estão já tão esmagadas que não há forma de absorver isto. Uma garrafa de Late Bottled Vintage (uma categoria especial de vinho do Porto, muito apreciada no Reino Unido) custa hoje 14,99 libras. Com uma desvalorização de 15% e mais eventuais taxas alfandegárias, vai passar a custar 19,99 libras. Não são só cinco libras mais. É a possibilidade de a grande distribuição se desinteressar em ter o produto na prateleira", diz Adrian Bridge. O mercado britânico vale 40% das vendas do grupo Fladgate Partnership. "Em risco para a nossa empresa estão qualquer coisa como nove a dez milhões de euros de vendas. É um risco imenso", frisa, admitindo que, desde o referendo em 2016, o grupo procura reforçar a presença em mercados alternativos, um processo que leva tempo a mostrar resultados.

Também o grupo Symington tem uma empresa de distribuição no Reino Unido, a Fells, que, garantem fontes contactadas pelo DN/Dinheiro Vivo, está também a reforçar stocks no mercado. Dominic Symington não o confirma, preferindo dizer que a opção está a ser estudada, como forma de "manter o normal abastecimento ao mercado até que a situação pós-Brexit se normalize". O problema são os custos adicionais que a medida gera. "Grande parte dos clientes faz, habitualmente, a importação direta. Se formos nós a antecipá-la, isso significa que temos de assumir os custos de armazenamento e de distribuição", explica. O mercado britânico vale cerca de 25 milhões de euros, aproximadamente um quarto das vendas do grupo. "A nossa preocupação não é tanto uma eventual acumulação de mercadorias nas alfândegas, porque isso será sempre uma situação de curto prazo, o que nos preocupa é o longo prazo e a relação cambial entre a libra e o euro e o efeito que isso terá no preço dos artigos na prateleira", sustenta.

O próprio Banco de Inglaterra admite que a saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo poderá levar a uma desvalorização da libra de 25%, o que se traduzirá, simultaneamente, num aumento do preço dos bens importados, a par de uma redução no poder de compra dos consumidores. E os números das exportações nacionais de vinhos parecem indiciar que os importadores britânicos estão já a antecipar esse movimento, procurando vinhos mais baratos. É que, apesar das quebras a dois dígitos nos licorosos, que representam cerca de 65% das vendas para este mercado, as exportações nacionais de vinho para o Reino Unido só caíram 4% até novembro, à boleia do aumento de 16% nas vendas de vinhos tranquilos, os chamados vinhos de mesa. Para algumas fontes ouvidas pelo DN/Dinheiro Vivo, isso "pode significar que os importadores estarão à procura de vinhos menos caros, para fazer frente a uma eventual desvalorização da libra, e Portugal e Espanha surgem como fornecedores alternativos a França e Itália".

Associação europeia reúne-se com Michel Barnier

O tema do Brexit estará nesta segunda-feira em cima da mesa na reunião que o Comité Vins, o representante europeu das empresas do setor, tem agendada com Michel Barnier, negociador-chefe da União Europeia para o Brexit. Um encontro onde Portugal estará representado por George Sandeman, presidente da Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal (ACIBEV) e vice-presidente do Comité Vins. Ana Isabel Alves, secretária-geral da associação, assume que a grande preocupação se prende com as questões alfandegárias.

"Como todos, queremos que haja um acordo e que se evite o aparecimento de impostos de importação e uma série de outros entraves. Não é só o que se vai pagar mais, mas todas as burocracias associadas e que podem pôr em causa as nossas exportações para o Reino Unido", diz. A harmonização e convergência de legislação, designadamente nos regulamentos de rotulagem, mas também sobre as práticas enológicas e o reconhecimento das denominações de origem, são outras das matérias que geram apreensão. "Todas estas questões estão definidas pela OCM dos Vinhos e é fundamental que o Reino Unido continue a reconhecer as regras previamente estabelecidas", defende.

A ACIBEV representa os principais atores do setor em Portugal, contando com 90 associados com mais de 600 milhões de euros de volume de negócios, e aos quais já fez chegar a brochura com o plano de contingência preparado pela sua congénere britânica, a Wine and Spirit Association. Esta alerta para a "situação de caos" que será gerada nas alfândegas no caso de uma saída sem acordo. A associação recomenda às empresas para que "reforcem os seus stocks em cerca de 20%".

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