Premium Stephen Fry, o sábio inquieto

A primeira vez que ouvi referir Stephen Fry "fora da caixa" - que é como quem diz por via inesperada - aconteceu há mais de vinte anos, quando o cantor e autor brasileiro Zeca Baleiro se estreou. Além de uma canção com o nome do ator inglês (nascido em 1957), o músico maranhense escolheu como título do seu álbum de estreia uma pergunta: Por Onde Andará Stephen Fry?. A explicação é de uma simplicidade desarmante: uma notícia do jornal Folha de S. Paulo dava conta de que, na sequência do desencanto com uma aventura teatral em Londres, Fry desaparecera de todos os radares profissionais, familiares e de amizade. Reapareceu mais tarde, na Bélgica, mas o episódio serviu na perfeição para que se discorresse sobre os altos e baixos de um percurso artístico. No caso de Fry, tudo ganhava uma proporção maior, tendo em conta a sua condição de doente bipolar, facto que só é chamado aqui porque o próprio o discute aberta e publicamente.

Felizmente para quem se mantém atento aos passos deste homem, muitos dos seus capítulos como ator enchem-nos as medidas, desde as séries televisivas de comédia, com destaque para A Bit of Fry and Laurie (partilhada com o seu compadre e colega na Universidade, Hugh Laurie, que ficou muito conhecido pela série Dr. House) e para Blackadder, protagonizada por Rowan Atkinson (a que é redutor tratar por Mister Bean), a uma filmografia muito seleta, mas nem por isso menos intensa. Ficam alguns exemplos: Os Amigos de Peter, que reunia uma trupe fantástica de atores, como Laurie, Kenneth Branagh, Emma Thompson ou Imelda Staunton, V de Vingança, o inesquecível Gosford Park, de Robert Altman, ou Eu, Peter Sellers. Fry faz narração, dá a voz a filmes de animação, apresentou programas de televisão (com destaque para alguns concursos culturais), foi a "cara" de documentários em defesa dos animais. Por duas vezes, vestiu a pele de Oscar Wilde, primeiro na série Ned Blessing: My Life and Times, depois no insuperável Wilde, de Brian Gilbert - mesmo com os meritórios esforços de Rupert Everett, em The Happy Prince, ninguém mostrou tanta alma, tanto brilho, tanta depressão, tanta bizarria e tantas contradições no dramaturgo irlandês.

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