Premium Se querem salvar o jornalismo, comecem por respeitá-lo

A profissão que escolhi corre risco de vida. Há muito que está nos cuidados intensivos. Tem dias em que apresenta ligeiras melhoras, noutros piora drasticamente e, muitas vezes, só sobrevive à custa de uma reanimação dolorosa, que deixa marcas.

Nos últimos anos, vi muita gente boa largar a profissão. Porque caiu no desemprego. Por falta de perspetivas. Por cansaço. Porque tem uma família para sustentar e o amor à profissão não paga contas de supermercado. Gente - de quem provavelmente, já nem se lembram - que contribuiu decisivamente para amadurecer a nossa democracia. Foram para assessores de políticos, de clubes de futebol, para agências de comunicação, para grandes empresas que não pagam o suficiente para alguém ser rico, mas pagam as contas que o jornalismo não paga.

Nos últimos anos, vi muita gente abandonar projetos ditos de referência por outros menos jornalísticos, "apenas" porque pagam melhor. Gente que sofre todos os dias, quando se levanta para ir trabalhar, porque não sente o menor orgulho no que faz, mas precisa de viver. Gente que, ainda assim, prefere manter-se por aqui, na esperança de que um dia surja um projeto que se lembre deles e que os faça voltar a ter orgulho e vontade de ir trabalhar.

Nos últimos anos, vi muitos jovens entrarem nas redações sem a menor vocação e sem qualquer referência. Jovens jornalistas que não leem jornais, não gostam de política, nem de economia, abominam desporto, internacional nem pensar e, com sorte, dizem que gostam de cultura. Pode ser que, assim, alguém os mande para um concerto. Pior: jovens jornalistas que não sabem escrever português, muito menos o que é escrever um texto jornalístico.

Nos últimos anos, vi muitas direções, administrações e acionistas de empresas de comunicação social cometerem muitos erros. De casting e, pior ainda, de falta de visão estratégica. Vi muitos oportunistas que quiseram entrar nos media para cumprir missões pessoais e políticas e, agora, que já não precisam, fogem a sete pés porque começa a sair-lhes cara a "brincadeira". Nos últimos anos, vi de tudo, só não vi muita vergonha.

"A profissão que escolhi corre risco de vida. Há muito que está nos cuidados intensivos"

A crise dos media está longe de ser um problema exclusivamente português. Ela está a afetar empresas de comunicação social um pouco por todo o mundo e talvez tudo isto faça parte do processo. Todos os setores de atividade atravessam crises e, normalmente, são essas crises que possibilitam as mudanças. Quase sempre para melhor. O problema é tudo o que se perde pelo caminho. E, pelo caminho, talvez a qualidade do jornalismo tenha de cair, antes de voltar a subir.

O Presidente da República lançou o tema para debate, alertando para as dificuldades que as empresas de comunicação social atravessam: deve o Estado intervir? A pergunta tem, para mim, duas respostas: não e sim. Por esta ordem.

Não, o Estado não deve intervir se isso significar subsidiar as empresas de comunicação social, direta ou indiretamente. Porque isso é manter estas empresas ligadas às máquinas, num coma profundo que acabará em morte no dia em que o Estado ficar sem recursos financeiros, como já aconteceu. Basta ver o que se continua a passar com o serviço público, onde a dependência do Estado não evita a precariedade e continua a alimentar um conjunto de parasitas e sobreviventes. Mas, sobretudo, o Estado não deve subsidiar as empresas de media porque isso seria mais uma machadada na independência do jornalismo.

Mas sim, o Estado pode e deve intervir noutras áreas. A começar na regulação. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social devia fazer corar de vergonha os partidos políticos, o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República e o Presidente da República. Quando não estão numa guerra interna, alguns dos boys que a compõem - salvo honrosas exceções - têm como único propósito alimentar o seu pequeno poder, aplicando multas e multinhas, enchendo as redações de burocracia e, com isso, ajudando a justificar os ordenados que recebem.

Sim, o Estado pode ajudar. Melhorando o sistema de ensino, tornando-o mais exigente e mais adaptado à realidade. Não deixando que as universidades e politécnicos, entregues à sua própria sorte numa luta fratricida por alunos, continuem a abrir cursos que não têm qualquer adesão à realidade e que acabam por atirar para as redações milhares de jovens, todos os anos, e que acabam ou por baixar a qualidade do jornalismo ou no desemprego.

Sim, o Estado pode ajudar. Se começar por dar o exemplo e respeitar o jornalismo. Não fazendo dele o bode expiatório sempre que alguma coisa corre mal. Deixando que os jornalistas façam o seu trabalho que é o de questionar, em vez de marcarem "declarações sem direito a perguntas". E não alimentando esta ideia de que a comunicação social é toda igual.

O resto terão de ser as empresas de comunicação social a fazer pela vida. A encontrarem gestores que percebam efetivamente do negócio, que saibam reconhecer o bom jornalismo, encontrando formas de o tornar rentável, ao invés de olharem para as redações como "fábricas" de notícias enlatadas.

"Sim, o Estado pode ajudar. Se começar por dar o exemplo e respeitar o jornalismo"

O resto terão de ser as direções e os jornalistas a não desistirem e a serem mais exigentes. A compreenderem que o jornalismo não tem de ser pior só porque existe internet, mas que a internet pode ser a salvação deste negócio.

Quanto maior é a voragem das redes sociais, das fake news, dos novos poderes, mais o bom jornalismo se torna necessário. E se não queremos matar o jornalismo de vez, então temos de ser sérios na discussão e temos de saber separar o trigo do joio. Porque as redações - apesar de tudo - ainda têm bons profissionais, que procuram todos os dias notícias - na verdadeira aceção da palavra - e acreditam na informação livre e rigorosa.

Porque entre os milhares de jovens que surgem todos os anos nas redações, ainda há muitos que chegam com o mesmo sonho e com a mesma paixão que os seniores traziam quando começaram.

Porque ainda há empresas de comunicação social que, apesar das dificuldades financeiras, continuam a aguentar o embate e a procurar novas fontes de receita.

E porque, no meio desta confusão que é o digital, um dia as pessoas vão precisar de se refugiar em marcas credíveis. E nem sequer se vão importar de pagar por isso, desde que lhes garantam qualidade. Mas é preciso que essas marcas sobrevivam, que se saibam reinventar e que respeitem o jornalismo. Porque só assim será respeitado pelos outros.

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Daniel Deusdado

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