Premium Por que Espanha está de novo no centro da crise migratória?

Depois da Grécia e da Itália, Espanha tornou-se o principal porto de entrada na União Europeia. Nos primeiros sete meses do ano, houve 22 858 entradas. Mais do dobro do registado no mesmo período em 2017.

"A migração não começou com este governo. O que começou agora foi a política migratória, que não existia", disse ontem o primeiro-ministro espanhol na conferência de imprensa em que fez o balanço dos seus primeiros dois meses no Palácio da Moncloa. Antes de partir de férias, Pedro Sánchez anunciou a criação de um único comando operacional para centralizar todas as ações relacionadas com a imigração.

Em Espanha há quem alegue que o aumento do número de entradas ilegais - foram 22 858 nos primeiros sete meses do ano e quase duas mil só entre 25 e 29 de julho,segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM) - se deve à decisão de Sánchez de abrir as portas ao navio Aquarius. Este atracou em Valência, a 17 de junho, com 630 migrantes resgatados no Mediterrâneo, ao largo da Líbia, após ter sido impedido de atracar nos portos de Itália e de Malta pelos respetivos governos.

"Acho que Espanha reagiu muito positivamente [à situação do Aquarius]. Mas não se pode continuar assim", disse o comissário europeu para as Migrações, o grego Dimitris Avramopoulos, numa entrevista telefónica ao El País antes de viajar para Madrid para um encontro com o governo espanhol.

A Comissão Europeia disponibilizou mais três milhões de euros de assistência de emergência para ajudar Espanha a responder ao aumento da pressão migratória no país. Sánchez tinha escrito uma carta ao presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, a pedir precisamente mais assistência.

Por que está o foco em Espanha?

Espanha voltou a estar no centro dos problemas migratórios da União Europeia depois de cerca de 800 migrantes terem tentado saltar as vedações no enclave de Ceuta, nas primeiras horas da manhã de 26 de julho.

Dos 800, perto de 200 foram travados pela polícia marroquina, enquanto os outros 600 foram bem-sucedidos, atacando as autoridades espanholas com garrafas de plástico com excrementos ou cal viva (que irrita a pele), e usando serras e tesouras de jardim para cortar o arame.

Um dia depois, cerca de 50 migrantes desembarcaram na praia de Cañuelo, em Tarifa (Cádis), surpreendendo os banhistas. Um barco de borracha em dezenas de outros que têm cruzado o Mediterrâneo.

A culpa será de Sánchez?

O número de entradas através da rota de migração do Mediterrâneo Ocidental (Espanha) quase duplicou nos primeiros seis meses deste ano, para os 14 700, segundo os dados da Frontex (a agência europeia de fronteiras). A OIM tem um balanço mais recente, até 29 de julho, e fala em 22 858 entradas ilegais. Seja por mar, cruzando o estreito de Gibraltar aproveitando o bom tempo, ou por terra, saltando as vedações nos enclaves africanos de Ceuta e de Melilla.

A situação não é de agora: em 2017 tinha sido batido o recorde da última década, com 23 143 entradas ilegais segundo a Frontex (quase tanto quando nos três anos anteriores). De acordo com a OIM, até 29 de julho já tinham morrido 307 migrantes na rota do Mediterrâneo Ocidental, mais do dobro dos 124 do mesmo período no ano passado.

Nas rotas de migração do Mediterrâneo Central (Itália e Malta) tem havido uma queda nas entradas (16 100), devido a uma maior atuação da guarda costeira líbia, segundo a Frontex. Já na do Mediterrâneo Oriental (Grécia e Chipre), apesar de um aumento de entradas de 80% nos primeiros seis meses deste ano em relação ao mesmo período de 2017 (para os 24 300), em especial pelo aumento das entradas a pé da fronteira turca, os valores ainda estão muito aquém do pico de 2015 ou 2016.

Argumento político

O chefe da diplomacia espanhola, Josep Borrell, deixou claro que não há imigração massiva em Espanha: "Banalizamos a palavra massiva, quando era preciso medir as coisas em termos justos," afirmou ao lado do homólogo jordano, Ayman Safadi, lembrando que "600 pessoas não são massivas comparadas com o 1,3 milhões" de refugiados sírios que a Jordânia atualmente acolhe. "Vinte mil migrantes num país de mais de 40 milhões de habitantes não é migração massiva", reiterou.

Pedro Sánchez acusou o anterior governo de "não dar atenção nem recursos económicos" ao tema das fronteiras. Além do anúncio da criação do centro único de comando, o primeiro-ministro espanhol lembra que existe um plano de choque de 30 milhões de euros, até ao final do ano, para reforçar a segurança junto às praias, aumentar o número de espaços para prestar auxílio humanitário e criar um sistema de assistência aos migrantes.

O novo líder do Partido Popular, Pablo Casado, visitou nesta quarta-feira Algeciras, onde cumprimentou migrantes que foram resgatados junto às costas andaluzas, enquanto dizia que em Espanha "não há papéis para todos". Um discurso que a esquerda compara ao do ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, da Liga Norte (anti-imigração).

No próximo ano há eleições municipais em Espanha, ao mesmo tempo que as europeias, a 26 de maio, podendo o tema acabar por se tornar central na campanha. Também o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, já esteve na fronteira entre Ceuta e Marrocos, lembrando que "não se pode olhar para o outro lado" diante do problema da imigração ilegal. E pediu ao governo "ir mais além das ocorrências, da bondade e dos comités de marketing que estão apenas a criar um efeito de contágio".

E Marrocos?

Ontem, Sánchez falou ainda da necessidade de melhorar a cooperação europeia, lembrando que, "quando um migrante pisa a praia de Tarifa ou de Algeciras, não está a pisar Espanha, mas a Europa", assim como a necessidade de potenciar o diálogo e a cooperação com os países de origem e trânsito dos migrantes, referindo-se em especial a Marrocos, mas também à Argélia e à Mauritânia.

Segundo os dados do Frontex, a maioria dos que entraram neste ano pela rota do Mediterrâneo Ocidental são nacionais de Marrocos (2738), Guiné-Conacri (2729) e Mali (2266).

O governo marroquino considerou nesta semana insuficiente o apoio da União Europeia face aos "esforços e sacrifícios" que Rabat tem realizado para impedir que imigrantes cheguem a território europeu.

"Nós, como país, estamos a fazer grandes sacrifícios dentro das nossas possibilidades. Os números que circulam sobre o apoio [financeiro da UE] não chegam ao nível do nosso esforço e dos sacrifícios que realizamos", disse o porta-voz do executivo marroquino, Mustafa Jalfi, numa conferência de imprensa.

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.