Trunfos, desafios e promessas. O que espera o 43.º líder do Sporting?

São seis os candidatos à sucessão do destituído Bruno de Carvalho. O gestor que foi guarda-redes de futsal (João Benedito), o economista-banqueiro sobrinho-neto do fundador (Ricciardi), o médico da equipa que já foi militar (Frederico Varandas), o advogado outsider (Rui Jorge Rego), o advogado que já foi a figura máxima do clube (Dias Ferreira) e o empresário que já foi presidente do Tourizense (Tavares Pereira).

Isaura Almeida
 | foto Carlos Costa/Global Imagens
 | foto  Jorge Amaral/Global Imagens
 | foto Miguel Pereira/Global Imagens
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 | foto Carlos Costa/Global Imagens
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Um (João Benedito, Lista A ), dois (José Maria Ricciardi, Lista B ), três (Frederico Varandas, Lista D ), quatro (Rui Jorge Rego, Lista E ), cinco (Dias Ferreira, Lista F ), seis (Fernando Tavares Pereira, Lista G )... candidatos à presidência do Sporting. Eram sete, mas entretanto Pedro Madeira Rodrigues, da Lista C, abdicou de ir a votos e deu o apoio a Ricciardi, confirmando assi que o número 7 é mesmo sinónimo de azar para os lados de Alvalade.

O dia das eleições (8 de setembro) será também aziago para mais cinco deles, pois só um será feliz e cumprirá o sonho de ser o 43.º presidente do Sporting.

Todos fizeram promessas aos sócios. Todos tentaram mostrar ter a solução para os problemas do Sporting, tanto na área da formação e do futebol como na área financeira, passando pelas modalidades e direitos e deveres dos sócios. Mas a fórmula do sucesso varia de candidato para candidato. Cada um deles reclama ser o líder de que o clube precisa nesta altura e promete uma presidência unificadora, mas, tal como nas outras áreas, diferem no caminho a seguir para o conseguirem.

E todos eles parecem saber que o eleito não terá missão fácil, a avaliar pelos últimos acontecimentos e revelações. Presidente destituído, providências cautelares, dívidas ao fisco e à Segurança Social que se tornaram uma verdadeira dor de cabeça para quem vier a liderar o Sporting, apesar de o trabalho da comissão de gestão, liderada por Torres Pereira (clube) e Sousa Cintra (SAD), ter sido amplamente elogiado por todos os candidatos.

Ir novamente a votos (ainda em 2017 Bruno de Carvalho foi reeleito) foi a solução encontrada para fazer face ao turbilhão sem precedentes que se abateu sobre Alvalade em maio, depois da invasão à Academia, por elementos das claques, que resultou na agressão a jogadores e treinadores. Incidentes que deram origem à detenção de 39 adeptos e que, posteriormente, acabaram por conduzir à queda de Bruno de Carvalho em assembleia geral (23 de junho). Foi a primeira vez que um presidente caiu por vontade dos sócios.

Mesmo sem o desistente Pedro Madeira Rodriques, o ex-presidente (Bruno de Carvalho) e o seu antigo vice-presidente (Carlos Vieira) - estes dois impedidos de ir a votos por motivos disciplinares -, as seis listas candidatas a este ato eleitoral são um recorde, superando as cinco de 2011, quando Godinho Lopes subiu à presidência com 36,55% dos votos, batendo Bruno de Carvalho por apenas mais 0,40% (Pedro Baltazar, Abrantes Mendes e Dias Ferreira eram os outros candidatos).

Desta vez, são seis e e todos apresentaram listas para os diferentes órgãos sociais do clube (conselho diretivo, mesa da assembleia geral e conselho fiscal e disciplinar). O gestor que foi guarda-redes de futsal (João Benedito), o economista-banqueiro sobrinho-neto do fundador (José Maria Ricciardi), o médico da equipa que já foi militar (Frederico Varandas), o advogado outsider (Rui Jorge Rego), o advogado que já foi presidente da mesa da assembleia geral do clube (Dias Ferreira), o empresário que já foi presidente do Tourizense (Fernando Tavares Pereira).

E poderiam até ser mais. Pelo caminho ficaram ainda possíveis candidatos como Luís Figo, Rogério Alves, Tomás Froes ou Zeferino Boal, que se juntou a José Maria Ricciardi.

O novo máximo de candidatos, por um lado, é apregoado por todos como sinal de vitalidade e democracia no clube, mas, por outro, tem sido motivo de preocupação para algumas figuras do universo leonino, que temem um vencedor legitimado por uma percentagem pouco expressiva de votos.

Um deles será eleito pelos sócios (qualquer um maior de 18 anos e com as cotas em dia e pagas até 20 de julho). Todos prometeram manter José Peseiro, menos Pedro Madeira Rodrigues, que tinha anunciado Claudio Ranieri como trunfo eleitoral, mas entretanto desistiu de ir a votos. Aliás, estas eleições prometem ficar marcadas pelos "nomes" envolvidos. Quase todos os candidatos jogaram forte nesse campo, embora longe das mediáticas cinco unhas de José Gonçalves (Hans Eskillson, Ricardo Rocha, Rodolfo Rodríguez, Silas e Douglas) do verão de 1998.

João Benedito conseguiu Peter Schmeichel para embaixador da marca Sporting a nível internacional e eventual representante do clube em eventos além-fronteiras e André Cruz para diretor desportivo. Já Rui Jorge Rego apareceu (literalmente e para não deixar dúvidas) em Alvalade com Roberto Carlos, ex-jogador do Real Madrid e campeão do mundo pelo Brasil, para diretor do futebol.

Mas há mais e até davam para fazer um plantel de luxo. Quase todos ligados a títulos e épocas douradas. Balakov, Marco Aurélio e Delfim iriam pertencer à estrutura do futebol de Pedro Madeira Rodrigues, caso dele não tivesse desistido. Beto, Hugo Viana e Beto Acosta figuram no organograma de Frederico Varandas, por exemplo, e Ricardo será o homem forte do futebol com Dias Ferreira.

Tavares Pereira foi a exceção à regra. Não apresentou nomes sonantes do futebol e revelou apenas o apoio de Marco Chagas, antigo ciclista vencedor da Volta a Portugal.

Para muitos deles, ser presidente do clube é também ser presidente da SAD. Dias Ferreira e Rui Jorge Rego já disseram que, em caso de eleição, não assumirão a presidência da SAD. Dias Ferreira gostava de conseguir convencer Sousa Cintra a continuar na função, já o líder da SAD de Rui Jorge Rego será Paulo Lopo, atual presidente da SAD do Leixões. Os restantes cinco candidatos assumirão os destinos da empresa que gere o futebol profissional, por considerarem que é a melhor forma de defender os interesses do clube na Sociedade Anónima Desportiva (SAD) cotada em Bolsa.

Todos os candidatos falam da reestruturaçāo financeira como forma de atrair um ou mais investidores para a SAD, "sem que o clube perca a maioria do capital". Aliás, isso parece ser ponto de honra para todos. Tal como o ADN do Sporting, a formação, "a grande imagem a nível mundial" do clube, que deu duas Bolas de Ouro (Figo e Ronaldo) e que precisa de ser mais, e mais bem, explorada, na opinião de todos. "Modalidades" (são 55 no total), "futebol" e "união" são as três bandeiras dos seis candidatos, mas não poderão fazê-lo sem resolver os problemas financeiros do Sporting, clube com um passivo consolidado de cerca de 450 milhões de euros. Como?

José Maria Ricciardi sustenta que são precisos 120 milhões de euros e que existe a possibilidade de não haver dinheiro para salários em novembro. Sabe-se que esteve reunido com investidores em Nova Iorque. João Benedito não quer antecipar verbas e identifica 70 milhões de euros em receitas. Vê os empréstimos obrigacionistas como uma solução, lembrando que o Sporting é dos três grandes o que menos dinheiro tem a circular nesses empréstimos. O mesmo valor (120 milhões) que Rui Jorge Rego diz ter garantido junto de um investidor brasileiro (Júlio Brant), além do apoio da KNG, empresa chinesa.

Frederico Varandas considera que são precisos 125 milhões para "respirar", mas garante forma de ter receitas que cubram as despesas. Já Dias Ferreira admite conhecer a reestruturação financeira em curso e que isso o deixa descansado, pois sabe "como tornar o clube sustentável". E Tavares Pereira mostra-se confortável com a sua experiência em lidar com situações de crise, fazendo mesmo questão de anunciar que a campanha está a ser paga do bolso dele. Assim não fica "com o rabo preso".

O Sporting está em crise. Aliás, tem estado em crise constante desde há uma década a esta parte. Mas como chegaram os leões a esta situação?

Aos poucos a potência desportiva que dominava o panorama desportivo a nível nacional e se impunha a nível europeu e mundial nos anos 50 e 60 foi sendo ultrapassada pelo Benfica de Eusébio e pelo FC Porto de Pinto da Costa. Crise que só seria invertida com a chegada ao clube de João Rocha em 1973. Dizem que foi ele que "profissionalizou o clube", com a massificação da prática desportiva pelos sócios, dinamizando assim as modalidades de alta competição e criando outras fontes de receita para o clube. Uma espécie de oásis no deserto de títulos, que voltaria depois e que de alguma forma justifica os suspiros de saudade dos adeptos para com João Rocha - que dá o nome ao pavilhão do clube.

Depois deu-se o 25 de Abril e o clube falhou o salto para a modernidade no sentido resultadista (apenas quatro títulos de campeão nacional após a Revolução dos Cravos, o último em 2001-02). Chegar ao segundo lugar, que dá acesso aos milhões da Liga dos Campeões, foi muitas e demasiadas vezes a salvação da época. Pouco, muito pouco, para o clube centenário, que reclama 22 títulos, mas só 18 são reconhecidos pela Federação Portuguesa de Futebol.

Quando a bola bate na trave os resultados a nível financeiro também não ficam de boa saúde. Sem títulos e sem presenças na Champions, as contas do Sporting foram-se deteriorando, com o clube a recorrer à banca e à antecipação de receitas e à venda de jogadores. Os êxitos das reestruturações financeiras foram-se tornando verdadeiro oxigénio para o clube e apresentados como se de uma estrela para a equipa de futebol se tratasse. Isso, aliado a más opções desportivas no futebol sénior e de formação, levou a uma diminuição do entusiasmo dos adeptos, que se revelaram fiéis mesmo com longos jejuns de títulos.

Voltar a mostrar força no futebol (com o campeonato no topo das prioridades), garantindo ao mesmo tempo a sustentabilidade financeira e abandonando clichés como "somos um clube diferente" ou "o nosso ADN é a formação", é assim a missão maior de quem for eleito no dia 8.

Texto atualizado após a desistência de Madeira Rodrigues

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