Miséria e dedicação nos bairros de lata de Caracas

Centenas de milhares de venezuelanos sobrevivem nas favelas com códigos próprios. "Podes entrar, mas já não sais", avisam sobre o bairro de Petare, considerado, por alguns, o mais violento do mundo.

Nicolau Fernandez
Dentro de uma barraca, num bairro de lata que não para de crescer. | foto Nicolau Fernandez
O aviso é claro para quem quer passar aquele degrau. | foto Nicolau Fernandez
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Kevin tem 18 anos e está na universidade. | foto Nicolau Fernandez
Um bairro de lata em Caracas. | foto Nicolau Fernandez

Caracas é uma cidade rodeada de bairros de lata. Locais proibidos. Com códigos próprios. É possível fazer uma viagem, sempre arriscada (quase toda a gente a desaconselha e da forma mais veemente) entre ruelas tortas, escadarias íngremes e passagens irregulares ou sombrias. Um percurso onde se pode dar de caras, a qualquer momento, com a extrema violência, mas também vivenciar a entrega total e gratuita aos outros, de gente que não desiste, se não de transformar estes submundos, pelo menos de acompanhar quem lá vive em condições sub-humanas.

Toda a gente enaltece o vale de Caracas. É único, de facto, especialmente contemplado a partir de Altamira ou do monte Ávila! Na verdade, o vale é uma ilha rodeada de bairros de lata por quase todos os lados. Cerros (montanhas) habitados que acolhem centenas de milhares de pessoas. Vivem em ranchos (barracas) sem o mínimo de condições. E cada rancho é um mundo, cheio de submundos. Há sempre quem tente melhorar alguma coisa como limpar, pintar, arranjar os degraus, trazer algum conforto e qualidade de vida, mas não passa de um penso rápido numa ferida enorme e infetada, um alívio momentâneo para uma dor insuportável.

A tentativa para entrar no maior bairro de lata de Caracas, considerado por alguns o mais violento do mundo, o bairro de Petare, foi frustrada. Ficou claro, depois de dois dedos de conversa, que ninguém faz isso. Muito menos dizendo quem vai e para o que vai. Especialmente se é jornalista. Não é manifestamente bem-vindo. "Isso não nos interessa. Para quê? De que nos serve? Podes entrar, mas já não sais." As pituitárias habituam-se mais facilmente do que a mente ao que se vê. Quando se sai já não se é o mesmo. Fica-se a remoer o cenário visto. A estratégia tem, então, de ser outra. Num outro bairro entro acompanhado de um grupo de voluntários, num outro acompanho umas irmãs que todos respeitam. Num deles o aviso está no desenhado no chão. Uma arma e um "estás avisado". Ao passar o degrau ficas a saber que a lei, a partir dali, é outra.

Numa conversa, os moradores raramente se olham nos olhos. Um simples olhar pode desencadear uma qualquer reação. O melhor é baixar a cabeça. Os voluntários sabem disso, sabem que há sempre uma desconfiança. Faz parte da sobrevivência. Mesmo assim não desistem. Há vários projetos, alguns ligados a instituições religiosas, de várias confissões, com o objetivo assumido de difundir a fé, outros ligados a organizações não governamentais ou instituições, como universidades ou a Organização Internacional do Trabalho, a OIT, que promove uma sensibilização contra o trabalho infantil.

Tem 25 anos e um sorriso sem maquilhagem. É filha de madeirenses. Era professora universitária. Só encontrá-la no meio daquele bairro, a tratar pelo nome algumas crianças (de ambos os sexos), jovens (apenas um ou outro rapaz) e idosas, daria uma reportagem. Mas não quer. Em nome da humildade. É uma das regras da congregação que livremente aceita e compreende. Não é protagonista de nada. Quer ser apenas um instrumento de Deus neste mundo, nestes mundos.

Tem um irmão, mas quer ser irmã de todos. Está a fazer o noviciado, vive numa pequena comunidade, com outras irmãs e vai ao bairro ensinar, ajudar, estar, ouvir, falar de um amor divino, independentemente das escolhas de cada um. Trabalha com outras irmãs, sabe quem mora nas barracas por onde passa. Conhecem-na, mas um dia apontaram-lhe uma arma. Quando a reconheceram pediram-lhe desculpa. No final faço mais uma tentativa para gravar, mas diz que está com pressa, "está na hora de rezar". Precisa. Tem de ir. Adeus, irmã, também minha irmã. Tinha de falar dela, sem falar.

É um jovem de 18 anos e tinha tudo para dar errado. Está na universidade, quer concluir o curso de Turismo. Trabalha aos fins de semana para ajudar nas despesas. É a única pessoa do bairro que nos autoriza a fotografar enquanto fala das dificuldades em conciliar o trabalho e o estudo. Por vezes, também tem de trabalhar durante a semana, na oficina de um familiar. Além do sorriso, tem objetivos claros, arranjar um trabalho e retirar a família do bairro. Assume como missão principal conseguir melhores condições de vida para si e para a família. Nem que tenha de emigrar. Viu muitos amigos sucumbir nas escolhas que fizeram. Sabe que não é fácil, mas não desiste.

Bairro Adentro foi o nome dado a um programa criado ainda pelo presidente Hugo Chávez para levar a saúde aos bairros de lata. Consistia na contratação de médicos, até do estrangeiro, nomeadamente de Cuba, e na construção de pequenos centros de saúde, nos próprios bairros. Chávez inaugurou pelo país os CDI - Centros de Diagnóstico Integral -, no entanto a maioria encerrou e os equipamentos desapareceram. Os que não fecharam funcionam a meio-gás. Um deputado da oposição, Alejandro Mejía, dava conta de que apenas 30% estariam a funcionar e mal. "70% dos CDI no país estão encerrados ou funcionam com severas deficiências", declarou.

Texto publicado originalmente no Diário de Notícias da Madeira