Premium A saga de grandeza de LeBron James tem novo palco

Grande figura da NBA atual procura nos LA Lakers a projeção definitiva para a discussão sobre o melhor de todos os tempos

O acrónimo GOAT nunca teve tanta projeção como nestes tempos. Os adeptos do futebol, por exemplo, começaram agora a confrontar-se com ele: Lionel Messi deixou-se fotografar com um bode (goat, em inglês) para a capa da revista nova-iorquina Paper Magazine; Cristiano Ronaldo cofiou a barbicha após marcar um golo no Mundial.

G.O.A.T - Greatest Of All Time. O melhor de todos os tempos. Na NBA, os adeptos já convivem com o acrónimo há muitos anos. E a discussão, de facto, sobre quem é o bode (goat) da modalidade prolonga-se no tempo. Para LeBron James, essa foi a missão que lhe foi destinada, quando entrou na melhor liga de basquetebol do mundo, em 2003, apelidado já com "nicknames" de proclamada grandeza histórica, como The King (O Rei) ou The Chosen One (O Escolhido). O predestinado a reclamar o trono de Michael Jordan como o GOAT desta história.

Após somar, no mês passado, a sexta derrota em nove presenças nas Finais da NBA, LeBron James percebeu que estava na altura de dar mais um passo em frente numa carreira que, desde cedo, passou a ter como único objetivo atingir o maior reconhecimento histórico possível de grandeza. E, em matéria de fama e popularidade, há algum sítio e equipa capazes de promover mais uma celebridade do que Los Angeles (Hi, Hollywood!) e os Lakers? LeBron também achou que não e tomou assim a sua "terceira decisão" na NBA. The Decision 3.0.

Depois de em 2010, frustrado por sete anos sem conseguir ganhar qualquer título, ter anunciado em direto na TV que deixava os Cleveland Cavaliers para liderar, em Miami, um trio de super-estrelas (com Dwyane Wade e Chris Bosh) que iria revolucionar a liga e fazer alastrar a moda dos Big Three (grandes trios); e de, em 2014, já com dois anéis de campeão nos dedos, ter escolhido dessa vez uma capa de revista para revelar o seu regresso a casa, onde iria finalmente levar os CAVS a terminar um dos mais longos jejuns do desporto profissional nos Estados Unidos (52 anos sem um grande título para a cidade de Cleveland); agora, ao fim de novo ciclo de quatro anos, LeBron James limitou-se a deixar sair um comunicado na conta de Twitter da agência que o representa, a Klutch Sports Group, anunciando a mudança para os LA Lakers, num contrato de quatro anos a valer 132 milhões de euros.

Aos 33 anos, LeBron James junta-se a uma das formações com mais história na NBA e a um dos mais mediáticos mercados dos EUA, Los Angeles. E mesmo se o estado atual dos Lakers não projeta as melhores hipóteses de êxito imediato no que concerne à disputa do título de campeão, o desafio de liderar o ressurgimento da mais glamorosa equipa da liga numa era que esta atravessa a sua pior fase histórica - há cinco anos sem aceder sequer aos play-off - parece encaixar com perfeição nas aspirações de grandeza de LeBron, dentro e fora dos pavilhões.

"Penso que nesta decisão terão pesado sobretudo duas coisas: a família, já que LeBron tem duas mansões em LA e passa lá muito tempo no verão; e o facto de poder preparar melhor também o pós-basquetebol, pois está num grande mercado", diz Ricardo Brito Reis, um dos comentadores habituais da NBA na SportTV, que reforça, no entanto, a evidência que levou muitos seguidores a ficarem surpreendidos com esta decisão de LeBron James: "Das opções que estavam em cima da mesa - Philadelphia 76ers, Boston Celtics, Houston Rockets e os próprios Cleveland Cavaliers -, os Lakers são talvez a equipa menos apetrechada para ganhar anéis no imediato e para lhe permitir continuar a construir o seu legado na perseguição ao fantasma de Jordan."

Os Lakers não ganham um título desde 2010 e não vão aos play-off desde 2013, quando foram varridos na primeira ronda pelos San Antonio Spurs. Nos últimos cinco anos, acumularam registos negativos e não conseguiram sequer chegar aos 50% de vitórias em qualquer temporada - a melhor foi mesmo a última, com 42,7%, correspondentes a 35 vitórias e 47 derrotas.
Mas esta é também a segunda equipa com mais títulos na NBA (16, um menos do que os Boston Celtics). A equipa com mais Finais (31). A equipa que mais super-estrelas promoveu e/ou acolheu ao longo da história da competição, de Jerry West a Elgin Baylor, de Wilt Chamberlain a Kareem Abdul-Jabbar, de Kobe Bryant a Shaquille O'Neal, sem esquecer, claro, a lendária época do show-time dirigido por Magic Johnson nos anos 1980.

Magic - em cujo estilo de jogo (capaz de atuar em qualquer posição e de envolver toda a equipa com a sua liderança e inteligência de jogo) LeBron James já disse várias vezes rever-se mais do que no de Michael Jordan (muito mais um marcador de pontos com letal instinto competitivo) - foi também um dos protagonistas principais nesta "terceira decisão" de LeBron na NBA. Contratado no ano passado por Jeannie Buss, a herdeira do histórico Jerry Buss, para devolver a grandeza aos Lakers, Magic Johnson consegue com LeBron a sua primeira grande vitória como presidente das operações de basquetebol da franquia de LA.

A decisão de James foi dada a conhecer no domingo à noite, um dia depois de Magic ter visitado LeBron na sua mansão em Brentwood, na parte ocidental de LA. "É uma grande vitória para Magic e para o Rob Pelinka, diretor geral. Conseguiram finalmente uma super-estrela para alavancar a reconstrução dos Lakers", refere Ricardo Brito Reis. E que super-estrela... "Não era possível fazer melhor do que contratar o melhor do mundo", acrescenta.

O que nos traz de volta à discussão sobre bodes. Ou GOATs. Se LeBron James é reconhecidamente o melhor jogador desta era na NBA, a verdade é que isso não tem sido suficiente para traduzir a reconhecida grandeza em títulos, limitados até aqui a três (2012, 2013, e 2016) e ensombrados por esse lastro de seis finais perdidas. Nos últimos anos, em Cleveland, LeBron confrontou-se com uma equipa de época que lhe frustrou a superioridade individual: os revolucionários Golden State Warriors, que obrigaram toda a liga a começar a jogar atrás da linha de três pontos e, quando LeBron os conseguiu derrotar em 2016, ainda acrescentaram Kevin Durant à receita para dar cabo da concorrência.

Agora, pela primeira vez na carreira, e depois de oito Finais consecutivas a Este, LeBron muda-se para o meio do turbilhão do Oeste, dominado pelos Warriors que o têm impedido de obter mais títulos e onde entretanto cresceu também uma nova super-equipa, em Houston (Rockets). Com LeBron nos Lakers, o Oeste da NBA fica ainda mais selvagem.

O desafio de fazer crescer a coleção de títulos que lhe permita chegar aos seis conseguidos por Michael Jordan aumenta, pois. "Se os Lakers não mexerem mais na equipa até ao deadline do mercado não dá sequer para chegar às Finais de conferência", arrisca o comentador da SportTV e fundador do site Borracha Laranja, dedicado ao basquetebol. Os Lakers vão mexer, contudo. Já começaram a mexer, aliás, com a aquisição de nomes experientes como Lance Stephenson, um inimigo de longa data de LeBron, e JaVale McGee, poste que foi campeão pelos Warriors, para ajudarem a compor o elenco de apoio à nova super-estrela. Mas LeBron e os Lakers têm consciência de que faltam outros grandes nomes para poder devolver a equipa e o agora seu principal jogador aos títulos.

Kahwi Leonard (Spurs) e DeMarcus Cousins (Pelicans) são os dois nomes mais cotados para se juntarem a LeBron na cidade dos anjos, depois de Paul George ter decidido ficar em Oklahoma. À volta, para já, uma série de interessantes jovens jogadores, como Brandon Ingram, Kyle Kuzma ou o mediático Lonzo Ball, cujo potencial pode ser alavancado pela presença de LeBron.

Se conseguir liderar os Lakers de volta ao topo da NBA, terminando com a dinastia dos Golden State Warriors, LeBron James assinará a sua maior afirmação como aspirante a GOAT do basquetebol, um trono para o qual o registo de Michael Jordan continua difícil de superar. "Acho que independentemente do que ainda vier a acontecer, o LeBron James já tem um lugar no top 3 dos melhores de todos os tempos. E vai acabar a carreira como o segundo melhor de sempre", diz Ricardo Brito Reis, para quem "Jordan está e estará sempre lá no topo" e o outro nome do top 3 "é quase impossível de escolher" entre tantas opções.

E mesmo que a reunião de LeBron com os Lakers não resulte em títulos, outros fatores de grandeza estão seguramente garantidos: James vai ter mais capas de revista do que ninguém, vai bater recordes de vendas de camisolas, vai certamente voltar ao topo das votações para os jogos All-Star (na época passada tinha sido ultrapassado por Giannis Antetokounmpo na conferência Este), vai aumentar salários, patrocínios, subir nas listas de riqueza da Forbes, potenciar a sua produtora de media e os vários negócios em que está envolvido.

Em LA, o showtime está de volta e passa a ser dirigido por LeBron James.

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