Escolha de chairman causa tensão entre Montepio e Associação Mutualista

Escolha do novo presidente para a Caixa Económica está no centro de guerra surda entre banco e acionista. Ligação passada de João Ermida a rival de Tomás Correia desagrada à Mutualista.

O pedido de avaliação está nas mãos do Banco de Portugal, mas o nome de João Ermida não é bem acolhido junto da nova administração da Associação Mutualista Montepio Geral para ocupar o lugar de chairman do Montepio. Os novos gestores da maior mutualista do país tomam posse hoje após a vitória da lista liderada por António Tomás Correia nas eleições, que terminaram a 7 de dezembro.

O facto de João Ermida ter sido sócio de António Godinho, que concorreu contra Tomás Correia nas duas últimas eleições da Associação, é um dos motivos para o mal-estar que cresce entre a Mutualista e o seu banco. Carlos Tavares tem vindo a acumular as funções de chairman e presidente executivo da Caixa Económica Montepio Geral (CEMG), mas só o pode fazer até 21 de janeiro.

O DV/DN sabe que entretanto Tomás Correia já confirmou junto do BdP que subscreve o nome de João Ermida proposto para chairman. Na sequência das notícias que têm sido veiculadas nos media e que põem em dúvida o apoio da Mutualista ao nome de Ermida, o BdP pediu à Associação que confirmasse a proposta. O que aconteceu. Contudo, sabe o DV/DN, a expectativa é de que o nome seja chumbado pelo supervisor.

Aparentemente, Tomás Correia e Carlos Tavares estão ambos de acordo em relação ao gestor proposto para novo chairman, mas internamente, na Mutualista, a expectativa é a de que Ermida seja chumbado e não chegue a presidente da CEMG. Acontece que, de início, a Mutualista recebeu de forma positiva o nome daquele responsável, proposto por Carlos Tavares, mas entretanto soube-se que Ermida foi sócio do rival de Tomás Correia nas eleições. Pelo que, apesar da imagem de aparente normalidade e paz, nasceu nova tensão entre a Associação Mutualista e a Caixa Económica - que espera ver o próprio Banco de Portugal a chumbar o nome de João Ermida.

O pedido ao supervisor foi feito pela CMEG por indicação do seu acionista, a Associação Mutualista. Mas apesar de ter sido a Mutualista a indicar que o banco fizesse o pedido de autorização prévia ao supervisor, a instituição demarca-se da escolha de João Ermida, atribuindo a proposta a Carlos Tavares. Além disso, preferia ver como chairman alguém mais distante desse responsável, dado que lhe caberá supervisionar o presidente executivo (cargo que será ocupado por Tavares).

Há da parte da Mutualista a expectativa de que João Ermida possa então não ter o aval do supervisor para assumir o cargo, no decorrer da avaliação de adequação e idoneidade (fit & proper), que está em curso. O chumbo do supervisor deixaria aberta a porta para a escolha de um nome mais do agrado da Associação e sem ligações a rivais de Tomás Correia. Mas mesmo que Ermida receba luz verde do Banco de Portugal, a nova gestão da Mutualista, que toma posse hoje, e a quem cabe a decisão final, estará inclinada para o travar.

Guerra nos media

As reservas à escolha de Carlos Tavares apenas surgiram depois de a Mutualista ficar a saber que Ermida tinha sido sócio de António Godinho numa sociedade que acabou por perder a sua licença junto do Banco de Portugal em 2015 - a Sartorial. O facto de Ermida estar afastado da banca há largos anos é outro fator que não agrada à Associação, que preferia um nome da casa para assumir o lugar. João Ermida foi tesoureiro do Santander a nível global e passou pelo BPN.

Nas últimas semanas tem vindo a crescer o diferendo público entre a CEMG e a Associação Mutualista, patente em diferentes artigos nos media. Ao que o DN/Dinheiro Vivo apurou junto de fontes próximas do processo, a Mutualista considera que o desempenho de Carlos Tavares à frente da CEMG fica aquém do desejado. Não só devido a problemas surgidos com os nomes propostos pelo CEO para a sua equipa no banco - como o de Álvaro Nascimento, que chegou a ser apontado para chairman - como em relação às próprias contas da instituição, passando pela questão levantada em torno do auditor do banco (Carlos Tavares quererá manter a KPMG, contra as orientações da CMVM). Oficialmente, nem a Associação Mutualista nem a CEMG comentam o tema.

O Banco de Portugal quer ver o assunto resolvido rapidamente. E tem pouco tempo para fazer a avaliação em causa. Uma solução para a liderança da CEMG terá de surgir até 21 de janeiro. Uma que agrade à nova administração da Associação Mutualista, a Carlos Tavares e ao Banco de Portugal.

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