Angola: economia e segurança

No rescaldo da visita do presidente João Lourenço a Lisboa, vale a pena fazer uma análise objectiva e realista das relações entre Angola e Portugal que parecem agora iniciar um novo capítulo. Lembremos alguns pontos capitais da história comum - passada, presente e futura.

É uma relação entre países, entre povos. Embora seja sempre mediada politicamente pelos governos, não deixa de a relação importante ser povo a povo, sociedade civil a sociedade civil, instituição com instituição, pessoas com pessoas.

Isto porque, ao contrário de outros espaços da expansão em África, a colonização de Angola no século XX foi intensa, estendendo-se bem para o interior. E foi uma colonização de homens sós, que ali criaram primeiras ou segundas famílias. Esta foi a regra até por volta de 1930, quando ficou concluído o caminho-de-ferro de Benguela e criado um espaço económico angolano. Foi a partir daí que começou a colonização de famílias.

Segundo números conservadores, eram 12 mil os portugueses brancos em 1910, 20 mil em 1920, 30 mil em 1930, cerca de 80 mil em 1950, cerca de 200 mil em 1970. Na altura da descolonização, entre 350 mil e 400 mil. Outros falam mesmo em meio milhão. Este incremento da colonização demográfica dependeu essencialmente da construção de infra-estruturas, dos preços das matérias-primas, sobretudo do café, e das políticas de Lisboa. A partir de 1945, os caminhos-de-ferro de penetração, o desenvolvimento dos portos e das estradas e a subida dos preços das matérias-primas agrícolas (café, algodão, açúcar) contribuíram para um aumento da imigração de origem europeia. Houve também um factor externo, a desvalorização do cruzeiro brasileiro no meio dos anos 50, que levou a uma mudança de rumo da emigração portuguesa que ia, até aí, para o Brasil.

Entre 1960 e 1970, deu-se uma rapidíssima transformação da economia angolana, com o PIB a crescer em termos nominais a uma média ponderada anual de 10% e o valor bruto da produção da indústria transformadora a cerca de 20%. Assim, a Indústria, que em 1960 representava 26% do PIB, em 1970 correspondia a 41%, com as indústrias alimentares, têxteis e químicas a liderar.

Esta economia era ainda essencialmente uma economia agrícola, agro-industrial e mineira, embora o petróleo tivesse passado de 5% do valor das exportações em 1969 para 30% em 1973. Lembremos que no Outono de 1973 o preço do crude quadruplicou. De qualquer modo, a seguir ao petróleo vinha o café (27%) e os diamantes (10%).

Com a independência e a guerra civil, que destruiu a infra-estrutura económica, em pouco anos a economia angolana passou a ser uma petro-economia, com tudo o que isso significa em termos económicos, políticos e sociais.

O fim da guerra civil e anos de preços do petróleo elevados criaram condições para uma mudança na economia. Mas as reformas foram sendo adiadas e, fora a reconstrução de infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias, a reconversão da economia foi tardando. Até que, a partir de 2014, a quebra dos preços do petróleo impulsionou e tornou mais premente e urgente essa necessidade.

Hoje, o problema central da economia angolana está precisamente em acelerar essa reconversão. Na sua visita a Lisboa, o presidente João Lourenço não deixou de salientar que só recuperando rapidamente a capacidade de produção agrícola do país diminuirão as importações de bens alimentares e baixará o risco de desemprego entre os 700 mil jovens que a cada ano entram no mercado de trabalho.

Há um ponto forte que Angola tem a seu favor: é um dos Estados mais estáveis da região austral, sendo que, dos grandes - RDC e África do Sul -, Angola é o único estável. Teve uma longa guerra civil e fez a paz e a transição de um presidente para outro sem danos colaterais de maior; tem umas Forças Armadas, sobretudo um Exército e uma Força Aérea, do melhor e do mais operacional e experiente na África Central e Austral. Por isso pode e deve ser um Estado pivô da segurança da região.

Os Estados Unidos têm a tendência de olhar sempre para os Estados anglófonos como os seus parceiros principais na África Subsaariana. Isto é, para a Nigéria e para a África do Sul. Só que a Nigéria ainda não foi capaz de resolver a guerrilha do Boko Haram e a África do Sul tem pela frente graves problemas internos, desde a taxa de criminalidade (cerca de 57 homicídios por dia, maior ainda do que a do Brasil, proporcionalmente à população), até uma conflitualidade política latente com casos explosivos como a nacionalização sem indemnização das terras, na maioria pertencentes aos brancos Africaners.

Angola não tem nenhum desses problemas políticos, tem condições privilegiadas de estabilidade numa região sobre a qual pairam ameaças significativas de toda a ordem, desde o caos do Zaire até às virtuais mas possíveis ameaças jihadistas nas águas do Golfo da Guiné e nos países produtores de petróleo da região.

Professor universitário e autor

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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