"O Miguel, se fosse vivo, perguntaria a si próprio 'Será que estou no filme certo?'"

Helena Sacadura Cabral

"O Miguel, se fosse vivo, perguntaria a si próprio 'Será que estou no filme certo?'"

A morte do filho Miguel foi um teste feito por Deus e Helena Sacadura Cabral acha que passou. Votar nas próximas eleições é incógnita. Ministros Vítor Gaspar e Centeno, qual o melhor? António Costa faz milagres como a Nossa Senhora de Fátima...

A economista Helena Sacadura Cabral já é mais autora de livros do que qualquer outra coisa, afinal publicou recentemente Tempo de Esperança (Editora Clube do Autor) e com ele perfaz 30 volumes publicados desde que pensou mudar de vida. Ainda foi no milénio anterior, quando o emprego no Banco de Portugal já não a satisfazia. Ela, que foi a primeira mulher a entrar na instituição, viu na escrita um futuro que já leva perto de três décadas e, é impossível esconder, ser também mãe de dois líderes políticos que optaram por espaços políticos extremados.

Tudo isso esteve sobre a mesa enquanto conversava sobre o que é ser Helena Sacadura Cabral em 2019, com regressões e evoluções em redor de temas que a intrigam, irritam ou com que, simplesmente, convive. É o caso da banda sonora que utiliza para escrever: "Quando preciso de energia, ouço António Variações; quando quero ficar serena, é António Zambujo. É com eles que me entendo."

Não pensa em parar de escrever, no entanto garante que saberá retirar-se a tempo: "Não refiro nomes, cada um que enfie a carapuça, mas vejo pessoas na televisão que já não têm idade para lá estarem assiduamente." Dá a solução: "A partir de certa altura exerce-se a influência de outra forma." Nada que a preocupe neste mês de agosto, pois é o único momento da vida em que para mesmo e aprecia a cidade de Lisboa, levantando-se mais tarde e aproveita para flanar como tanto gosta de fazer em Paris: "Vou passear para os jardins da Gulbenkian, caminhar para o Jardim da Estrela, ir ao cinema, ver exposições, almoçar com os amigos..." Em seis palavras resume o que faz: "Sair de casa como os alcoólicos." Ou seja, "parar aqui para beber um café, acolá para conversar". Também é a fase em que faz um curso intensivo da vida do jet-set: "Só leio revistas tipo Hola!, onde vejo as casas dos famosos, fico a saber quem está grávida ou vai casar-se. Entro numa fase de debilidade mental e fico atualizada até chegar o inverno e voltar a estar desatualizada."

Helena - vamos deixar os apelidos para trás - é uma bestseller. Os seus livros vendem muito, muitíssimo, e saem cadenciados e sem atrasos: "Sou muito germânica, em tudo diferente da maior parte das pessoas que escrevem e têm um drama na altura da entrega. Eu, pelo contrário, envio o original para a editora por antecipação e só fico descansada quando já tenho tudo entregue." Explica melhor: "É uma questão de disciplina! Sou muito organizada, ao contrário dos meus filhos, que são o contrário. O Paulo não, é muito organizado naquilo que é o trabalho dele, mas o Miguel era mais desorganizado - tinha a quem sair! Eu sou verdadeiramente uma obcecadazinha da arrumação e, mesmo assim, ainda me acontecem percalços... um e-mail que vai para o spam... só é possível escrever os livros que eu escrevi com uma disciplina férrea de trabalho. Quando trabalho, é mesmo a sério."

Perguntas indispensáveis para já: o Miguel (Portas) sai a quem? "Sai mais ao pai, que era mais desarrumado. Os artistas, por norma, não são arrumados. São folhas de papel sobre a secretária, rolos que se enrolam uns nos outros, e ninguém pode limpar o pó da mesa ou fica tudo fora do sítio nem que seja por uns milímetros." E o Paulo (Portas)? "É desorganizado como o pai era, mas naquilo que é da responsabilidade dele não. Tem sempre os papéis arrumados, com dossiês de tudo. Aí tem o meu lado, mas é só nisso."

Vamos à entrevista...

Os seus livros têm vários registos. Como é capaz de mudar de estilo?
Eu sou muito versátil. Ainda no outro dia um pequeno-almoço com um grupo de mulheres que o que as une é terem mudado de profissão - às vezes mais do que uma vez. Na minha vida, eu sempre pensei com algum tempo nas coisas que quero fazer. Portanto, o primeiro registo vem de quem decidiu que um dia ia sair do Banco de Portugal e iria começar uma nova carreira. O que é que aconteceu? Dei início a essa nova carreira uns dois anos antes de sair do Banco de Portugal, quando a Madalena Fragoso me convidou para uma coisa que havia no Diário de Lisboa, a Página Feminina. Inaugurámos a Página Feminina, a seguir veio a Máxima, e era sempre colaboradora - tenho carteira de jornalista. Acontece que a certa altura disse: "É isto que quero fazer. Não vou deixar de fazer economia, porque eu gosto de ser economista", mas não será mais uma obrigação. Ainda leio muito sobre economia - não sei bem para quê porque a economia hoje está ao serviço da política e não serve para mais nada, mas continuo a tentar atualizar-me e tenho assinaturas de jornais económicos.

E como se confronta com outros estilos literários?
Depois de dar os primeiros passos cumulativamente com a minha anterior carreira, vem um novo registo que deriva de a anterior carreira já não ser um gosto e, mesmo não sendo uma obrigação, continuei e continuo a dar consultoria nessa área. Portanto, persiste um lado de economista, que se humanizou muito pelo facto de ter começado a escrever. Os números para mim passaram a ter um outro encanto e a vê-los de uma outra forma. Isto não se entende à primeira, ou seja, o facto de escrever e de comunicar com os outros fez-me olhar o meu processo como economista de uma maneira diferente. Acho que o que pode ser mais importante nessa minha formação económica é explicar como pode ser simples uma coisa que quase toda a gente torna difícil. Os nossos economistas adoram usar termos estrangeiros... que a gente nem sabe o que significam e temos de ir ao dicionário rapidamente ver o que é. Tudo isso massifica muito a economia em vez de a mostrar bonita. É a economia que temos!

No seu tempo de Banco de Portugal os gestores também se esqueciam das decisões que tinham tomado como agora?
Não. Entrei no banco de uma forma muito curiosa porque antes estava no Banco Português do Atlântico a trabalhar com um senhor que foi depois secretário de Estado do Comércio, Xavier Pintado, no gabinete de estudos. Fui sempre colocada em áreas de estudo que me davam gosto. Também ensinei na faculdade anos e anos porque me dava prazer tornar simples aos alunos que achavam aquilo muito difícil. E estou a dizer isto sem sentido crítico, a economia pode ser explicada de forma muito simples se a não quiserem complicar e é pena que as televisões não tenham programas em que se ensine esta área, sobretudo no domínio financeiro - a iliteracia financeira é muito grande entre nós. É pena que não haja programas que ensinem um pouco as pessoas o que é realmente esta área porque trata de coisas que são do quotidiano. É como quando se escolhe a escola de um filho num sítio e não noutro por entrarem em consideração vários fatores: o dinheiro, a qualidade da escola, a proximidade da casa ou os amigos. Tudo isto é uma versão que tem por detrás um pensamento económico.

Falemos então de dois ministros das Finanças dos últimos tempos. Mário Centeno fala em português normal, já Vítor Gaspar era incapaz de o fazer...
Eles são duas faces de uma moeda que é a chamada economia. Vítor Gaspar não é uma pessoa muito da minha simpatia, digamos que o que digo seja inquinado porque o considerava uma pessoa distante. Nesse aspeto Centeno - mesmo que não concorde com todas as suas medidas - está mais próximo das pessoas. E não se furta às perguntas. Tenho visto fazerem-lhe perguntas e ele dá a justificação. Posso achar que não é exatamente isso mas há proximidade e não se furta às perguntas. Posso dizer "Bom, não é exatamente isto", mas aquele homem dá-me a sensação de que tem mulher e filhos e que pergunta "Ó Maria, o que é o pequeno-almoço?". É uma pessoa normal. Vítor Gaspar achava-o um homem intangível. Quando falava, eu tinha de me esforçar para entender e não ficava ciente se teria compreendido bem e tinha de ler o que dissera para perceber bem. São duas pessoas completamente diferentes, daí que tivessem feito políticas diferentes também. São dois ministros com Portugal em situações completamente diferentes. A acreditar no que diz o governo - e eu não tenho razões para não acreditar no governo -, estamos muito melhor. Portanto, Mário Centeno governa estando nós muito melhor e Gaspar governou estando nós muito pior. Se for verdade, Centeno está melhor do que Gaspar, Aliás, este foi-se embora e não está com intenções de voltar. Aliás, ninguém quer voltar, nem o Álvaro [Santos Pereira] estará virado para voltar. Vieram, foram-se embora e não mais voltarão.

Acha que a política de Centeno é mais aceitável do que a de Gaspar?
Sempre achei que Mário Centeno não era um político e, portanto, isso dava-me uma certa tranquilidade. É evidente que um político para tomar medidas tem de ter bases além das considerações políticas e se tem uma formação económica ela é-lhe útil. O que me custa mais é que a economia seja transformada em instrumento de uma certa forma de fazer política. Mário Centeno parecia-me uma pessoa que tinha vindo do gabinete de estudos, do Banco de Portugal, de um meio que eu conhecia bem e parecia-me um economista de uma fornada melhor e mais atualizada do que a minha - mas de uma fornada comum. Ultimamente, ou porque é o contacto com o mundo da Comunidade Europeia ou porque quando se está muito tempo ao lado dos políticos acaba-se por se ficar político também, acho que o Mário Centeno que conheci não é o mesmo que vejo agora. Ele mantém a mesma proximidade mas tem um cuidado enorme nas palavras que usa para explicar as suas cativações - que nunca são cativações, são antes umas transferências -, ou seja já há um lado político em Mário Centeno. Por isso é um bocadinho difícil responder à pergunta: um ou outro? Foram duas pessoas completamente diferentes, mas, se me perguntar, eu digo que tenho muitas saudades do Silva Lopes.

Que está esquecido, como refere num dos seus textos sobre o tempo que duram os heróis do 25 de Abril.
Pois, mas era um homem a quem este país deveu muito. E nessa altura havia o Fundo Monetário Internacional também, havia uma senhora chamada Teresa Ter-Minassian e havia muita complicação... Os portugueses estão hoje com um problema grave porque o ensino está muito condicionado. Podem dizer: olha lá está a retrógrada, o que ela quer é o ensino do tempo dela! Claro que hoje é diferente, até porque temos métodos tecnológicos que permitem aos alunos responderem todos a mesma coisa porque vão consultar a internet. A História que ouço dizer que se dá, o que se ensina na organização política, é canalizado sob uma certa forma que, não sendo ideológica se explica de uma ou de outra forma conforme se é de direita ou de esquerda.

Acreditava que geringonça ia durar tanto tempo?
Eu acredito em Fátima e quando se acredita em Fátima tem de se acreditar em milagres. Entre a Nossa Senhora aparecer aos pastorinhos e António Costa conseguir mostrar-nos que o país está muito melhor não há grande diferença. Portanto, é um milagre. Nunca pensei que a Nossa Senhora fosse aparecer aos pastorinhos também, portanto nunca pensei que isto durasse tanto. Honra lhe seja feita, aliás considero António Costa um dos mais hábeis políticos que conheço.

O seu filho Miguel ainda se reveria no Bloco de Esquerda que ajudou a fundar?
Meu Deus me valha, lá de cima deve ter alguns arrepios. Os homens e as mulheres do tempo dele já saíram todos. Estão ou continuam ligados ao Bloco: o Fazenda, o Louçã, a Ana Drago, o Rui Tavares foi fazer outro partido... Nem sabemos onde é que eles estão. Por isso, não sei onde estaria o Miguel se fosse vivo. Enquanto mãe que o conhecia razoavelmente, sei como ele era. O Miguel levou muitos anos para sair do PCP e sei que passou um período em que já não se revia no partido. É como naqueles casamentos que duram mais do que devem durar e há sempre um período em que dizemos o que é que estou a fazer neste filme? Acho que o Miguel, se fosse vivo, perguntaria a si próprio "Será que eu estou no filme certo? Não me enganei no guião? Os atores têm os papéis bem distribuídos?" Não sei, suponho que ele continuaria no Bloco de Esquerda talvez ainda durante algum tempo mas não creio que ele permanecesse. Posso ser muito injusta para o atual Bloco de Esquerda, que me perdoe a Dra. Catarina, mas não vejo o Miguel muito à vontade neste funcionamento do Bloco/geringonça - mas posso estar enganada, enfim.

Não querendo ser injusto, devo perguntar sobre o outro filho: Paulo Portas revê-se neste CDS?
Foi ele que escolheu Assunção Cristas. Se o meu filho escolhe bem ou se escolhe mal, essa já é uma posição que não me interessa. Digamos que a sucessão foi feita por ele porque Assunção Cristas foi escolhida pelo Paulo. Por princípio, nós não falamos de política! Foi uma escolha dele, de uma mulher na política, e há hoje várias e no CDS então há várias mulheres. Uma mulher na política tem vantagens e tem desvantagens, pessoalmente acho muito complicado misturar vida pessoal e familiar... Nunca ninguém me viu numa posse de um filho, nunca ninguém me viu entrar no CDS, nunca ninguém me viu entrar num Ministério dos Negócios Estrangeiros, nunca ninguém me viu entrar num Ministério da Defesa... Faço uma rigorosíssima diferença entre o meu filho Paulo ou o ministro Paulo Portas, o meu filho Miguel ou o deputado Miguel Portas. E não permito a ninguém que ultrapasse isso. Se alguma ultrapassagem houver, alguma vez, um dia, sou eu que a autorizo. De resto, não há ninguém que possa apontar-me o que quer que seja. Nem à posse de um filho eu fui. Nunca, e não há a mínima possibilidade de me apontarem isso. Assunção Cristas tem uma grande qualidade para mim, além de outras que tem com certeza enquanto política, é que irrita imenso o António Costa. Acho imensa graça quando eles se pegam um com o outro, devo dizer. Devo ser como a portuguesa doméstica que diz: "Olha, lá estão eles zangados outra vez." Eu era muito amiga do pai do António Costa, um ser fabuloso e um dos grandes do PCP que temos honra em conhecer. Ríamo-nos muito, e quando vejo António Costa lembro-me às vezes do Orlando. É um habilíssimo político.

Vai votar nas legislativas?
Essa é uma matéria sobre a qual não posso dizer o que farei. Desde Jorge Sampaio que tenho grandes hesitações sempre ao aproximar das eleições - já é há bastante tempo! Mas também confesso: já votei Bloco de Esquerda para apoiar o meu filho Miguel e já votei CDS para apoiar o meu filho Paulo. Estas épocas em que há eleições ainda são mais terríveis para mim, até porque as últimas eleições deram-me um grande desgosto porque ninguém falava do essencial. Aí tenho de dizer que a Marisa foi um caso único, o resto dos candidatos era só ordinarices e dizer mal por dizer mal.

Pode dizer-se que é uma boa mãe...
Não sou uma boa avó, mas sou boa mãe. Muito boa mãe.

Porque diz que não é boa avó?
Não tenho tempo para os meus netos. Trabalho muito, tenho um horário de quase dez horas por dia. Sou eu que cozinho, sou eu que escrevo, sou eu que ganho o dinheiro para me manter... Não tenho marido para ganhar para mim... Estas coisas pagam-se. Eu não tive empregos que me dessem grandes rendimentos e o que as pessoas julgam que são as pensões do Banco de Portugal se forem ver a minha saberão como é.

Então, escreve por dinheiro?
Tirei um curso com uma bolsa de estudo, pelo que tive de ser a melhor ou perdia essa ajuda. O meu pai não via com muita simpatia que eu tirasse um curso superior, eu sim e a minha mãe também - se fosse uma boa canalizadora ou pedreira estava muito melhor do que com as curvas da procura e da oferta. Cozinho bem e se a cabeça deixar de funcionar ainda posso fazer comida para fora, não me aflige nada e teria tanto orgulho como ser economista. Como estudei com uma bolsa sinto-me na obrigação de devolver à sociedade uma parte daquilo que me foi dado. Dei aulas na universidade, onde se ganha pouco, e entendo que escrever é a forma que me está mais à mão para a cidadania. Ou seja, eu não escrevo para obter empregos, eu não escrevo para que me paguem - não tenho publicidade no blogue -, limito-me a dizer aquilo que penso e já é uma coisa ótima poder dizer aquilo que penso. Já só por isso o 25 de Abril valeria a pena. Ou de poder ter uma posição religiosa e não sofrer as consequências de a ter. É um exercício de cidadania e é a minha maneira de dar voz, passe o autoelogio, a quem não a tendo como eu não tem a chance de ir à televisão dizer o que pensa ou de escrever sobre o que pensa. É puro prazer e ato de cidadania. Talvez seja a razão de as pessoas gostarem de mim - tenho muita gente que gosta.

Publica muitos textos sobre Deus e religião. Acha que Deus não se esqueceu da humanidade?
Acho que não. O meu Deus é aquele em que acredito, Batizei-me quase com 21 anos e sabia o que fazia. A minha mãe decidiu que havia duas coisas que não faria antes de ter consciência: batizar e furar as orelhas. Considerava que era uma coisa bárbara. Só as furei aos 40 anos, o que diz bem da lentidão que levo a fazer certas coisas. O meu Deus é um Deus com o qual não tenho nenhuma dificuldade em conversar. Às vezes, a minha dificuldade é em conversar com a Igreja, ou seja, com os representantes que se arrogam difundirem a doutrina de Deus cá na terra. Aí tenho algumas incompatibilidades e dificuldades. Algo que um diretor espiritual como Tolentino [Mendonça] não tivesse entendido. Tive a sorte de ter tido ao longo da minha vida três diretores espirituais, qualquer deles ouviu algumas barbaridades da minha parte, mas nunca os escandalizei nem eles tentaram que pensasse de maneira diferente. Tentaram apenas que eu pensasse e que pensasse muito bem sobre aquilo em que acreditava. Daí que não possa acreditar que haja um Deus que se esqueceu da humanidade. Agora, há uma coisa que é o livre-arbítrio e nunca ninguém ouviu queixar-me da minha vida, porque tudo o que de bom e de mau aconteceu, tirando a morte de um filho - isso não está nas nossas mãos, está nas de Deus e, possivelmente, foi um teste a mim própria e naturalmente poderei dizer que Ele não terá ficado lá muito insatisfeito com o teste, acho que me portei bem... -, creio, portanto, que Deus existe e nós temos a liberdade de escolher bons ou maus caminhos. Por norma, escolhemos muito os maus caminhos, o da guerra, o do confronto e o da intolerância. Basta ver o texto da Fátima Bonifácio que quase fazia cair o governo e mostra bem que estamos a discutir essas posições em vez de programas de governo para as próximas eleições.

Concorda com aquelas afirmações?
Eu li o texto e vejo que algumas pessoas leram o mesmo que eu e outras algo muito diferente. Não acho o texto feliz, agora daí a meter uma pessoa na cadeia! Voltamos a Deus, porque o homem tem uma natural apetência para o linchamento. É muito difícil ser juiz neste país porque a opinião pública julga antecipadamente certas pessoas. A ideologia, o politicamente correto e uma certa forma de viver e pensar apossou-se da sociedade portuguesa e se isso não me incomoda porque ninguém manda em mim para os mais jovens não sei como é que isto se resolverá.

Uma das críticas que faz à Igreja é a predominância do masculino.
Faço sim. Há dois papas que me tocaram muito: João XXIII com a abertura que fez com o Concílio e Bento XVI porque é um filósofo e com textos que confirmam uma cabeça muito bem oleada. Este Papa Francisco... Eventualmente, porque é um papa da América Latina, parece-me mais um bispo.

Francisco acabou por valorizar Bento XVI.
Exatamente. A questão do masculino resume-se assim: acho que um dia os padres vão casar-se e não vai demorar muito, quanto às mulheres na Igreja nem no tempo dos meus netos. E tenho muita pena.

Mesmo com este Papa?
Sou católica mas não sou estúpida. Há uma cúria romana que é um muro de Berlim e o que este Papa tem conseguido é surpreendente: a penalização civil dos padres da pedofilia deve ter sido arrancada a ferros. Só quando em instância última já não houver vocações é que deitarão a mão às mulheres. Nesses países longínquos e quase sem a presença da Igreja já permitem os padres casados para não se poder dizer que não há lá ninguém, mas ter mulheres a administrar os sacramentos na Igreja - que veria com muitos bons olhos - não será no meu tempo.

No filme Silêncio, de Scorsese, vê-se provação apenas. A Igreja é só isso?
O meu caminho para Deus é de alegria e não de sofrimento. O Deus em que eu acredito sofreu para que eu sofra o menos possível, portanto também tenho uma forma de não ver as coisas sempre pela ótica do copo meio vazio. Quando se pensa que há hoje computadores que fazem o que fazem porque não haverá um Deus que faz mais ainda? A tecnologia deveria permitir que as religiões se tornassem mais entendíveis porque mostram a capacidade de comunicação.

Isso não é exatamente o contrário, mostrar a superioridade do homem e não de Deus?
Não, porque nada dispensa o homem e enquanto assim for ele faz parte de Deus. Para mim Deus é alguém e quando falo com Ele falo ao mesmo tempo comigo.

Alguma vez sentiu a presença de Deus?
Sinto muitas vezes... Tantas vezes que senti quando o meu filho [Miguel] morreu... Aliás, como sinto a presença do Miguel. Curiosamente - por mais que esta afirmação escandalize quem me oiça ou quem me leia - sinto muitas vezes a presença do Miguel. Muitas vezes, muitas vezes, e é tão intensa que quase tem cheiro. As pessoas têm um cheiro especial, os meu filhos têm um cheiro muito próprio, que quase intuo à distância. Nós pegávamo-nos muito, tínhamos muitas semelhanças de feitio e, à medida que o Miguel envelheceu e foi pai, isso diluiu-se porque passou a estar do outro lado da barricada. Quanto a Deus, sinto muitas vezes a Sua presença, sinto. Não é física, pode ser uma aragem - agora dizem: "Lá está ela já com coisas de seita" -, um arrepio ou um cheiro. Lembro-me perfeitamente de que quando me batizei havia um cheiro de alfazema e de vez em quando, se estiver muito angustiada, ele regressa. Deve haver uma razão neurológica, eu não sou tontinha, haverá um neurónio qualquer em que a minha ansiedade ou a minha angústia ou a minha alegria ou a minha satisfação desencadeia qualquer coisa. Portanto, a presença de Deus sinto-a, sim, sinto. Como sinto a presença do Miguel.

Numa das crónicas diz que não é intelectual, no entanto faz logo um julgamento sobre Eduardo Lourenço e José Gil!
É que o José Gil é muito mais percetível do que o Eduardo Lourenço. Mais, não sinto o José Gil com um enquadramento ideológico castrante e no Eduardo Lourenço sinto que há uma ideologia. É uma questão de nuance entre ambos. O Gil é-me mais próximo do que o Lourenço, embora ache que este tenha coisas excelentes e que eu seria incapaz de produzir. O José Gil é mais próximo de mim.

Até trata de assuntos pouco normais nos filósofos, como a importância do ioga...
Também o nosso atual Papa diz que fez psicanálise. Acho isso de uma grande coragem simultaneamente e de uma enorme honestidade porque se antigamente alguém o dissesse - e eu fiz - era considerado maluquinho.

Acha que o país está a precisar de psicanálise?
Em que divã é que o sentávamos? Esse é o problema, não há ninguém para o fazer. Não acho que haja destinos marcados, isso é só para o fado, mas daqui a cem anos quando fizermos a história do país vamos descobrir que Portugal está, evidentemente, melhor. Tenho idade suficiente para saber que não há comparação entre o que temos hoje e tínhamos nos meus 30 anos - fui uma rapariga um bocadinho ousada para o meu tempo. Acho que o país precisava, sobretudo, que as pessoas se tolerassem umas às outras e que se ouvissem. Isto não é uma utopia da mãe do Paulo Portas - nestas alturas, sou sempre a mãe do Paulo e nunca a do Miguel - porque tive dois filhos que pensavam de maneira absolutamente diferente e mesmo assim eram tão parecidos. Costumo dizer que ligavam a fichas diferentes porque resolviam os problemas cada um à sua maneira. Cada um entendia a solução de uma forma e eu percebia que nem um nem o outro, eventualmente, teria razão. Em certas coisas pensaria mais perto do Miguel, noutras do Paulo, porque eu nunca tinha direito a um pensamento próprio. Se apoiava um, estava muito à esquerda; se apoiava outro, era uma rapariga de direita. Por isso é que acho que o país precisa de tolerância e que não prevaleça o que acontece neste momento, duas coisas que me preocupam em Portugal: a inveja e a intolerância. A inveja, porque ninguém fica satisfeito quando o outro tem e o próprio não. Tenho medo de que nos estejamos a encaminhar-nos para um mundo a fingir, como se vê agora pelas fake news.

Reclama que anda a trabalhar sete meses para o Estado e só cinco é que são para si. Isso é uma situação insustentável?
O Estado é um péssimo amante. Não me dá prazer e só me tira dinheiro. São as classes que vivem do trabalho que pagam os impostos, não o capital que paga o grosso dos impostos. Além de que há uma economia paralela muito grande que aguenta também este país. Conheço muitas pessoas que estão a viver assim, do que não declaram.

Compreende estes protestos dos professores, médicos, enfermeiros, ou é também eleitoralismo?
Compreendo, mesmo que haja um lado político - fazem essas coisas não numa altura normal mas nas alturas que tornam a vida mais difícil às pessoas. Uma greve que começa à sexta é para aproveitar o fim de semana! Agora que têm razões não duvido. Como esta dança das 35 horas! Eu venho de um tempo em que se trabalhava ao sábado o dia inteiro, e nunca tive férias de parto, de aleitamento. Para trabalhar tinha de ter autorização do marido. Acredito que António Costa tem uma grande capacidade de proximidade com a população, como acontece com Marcelo [Rebelo de Sousa]. De formas diferentes, são pessoas que não fogem ao contacto com o público, muito hábeis e cada um em sua matéria. São dois grandes políticos e eu nunca seria capaz de ser uma política.

Mas está sempre a dar opiniões nos seus textos.
Todos nós somos seres políticos. Quando me dizem que um sociólogo é completamente rigoroso eu não acredito, só se dividirmos o cérebro ao meio com uma serra.

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