Premium O verão em dez filmes

Agosto já começou e as temperaturas dispararam. A combinar com os dias soalheiros, sugerimos um itinerário de clássicos do cinema que, direta ou indiretamente, dão protagonismo a esta estação do ano.

Mergulho no Passado (1968), de Frank Perry e Sydney Pollack

Estreou-se há 50 anos e ainda agora tem um efeito desconcertante. The Swimmer é um filme em jeito de alucinação, longe de qualquer estrutura convencional, com Burt Lancaster perfeito no papel de um homem estranhamente atormentado, que numa esplendorosa manhã de verão decide fazer o caminho até casa... a nado. Como é que tal propósito se concretiza? Ele mergulha nas piscinas de amigos ou conhecidos abastados, nos subúrbios do Connecticut, fazendo um trajeto aquático até ao destino final. Nesta louca resolução mostra ser o verdadeiro "capitão da sua alma", como diz a certa altura. Mas a aparente liberdade do homem - que não traz consigo mais do que os calções de banho - acaba por dar lugar a um drama oculto, gradualmente revelado de piscina em piscina, de mulher em mulher (todas figuras de um passado), entre o azul vívido da água, do céu e dos seus olhos... Frank Perry levou este conto de John Cheever ao grande ecrã com uma boa dose de devaneio, só amenizado pelo toque de Sydney Pollack, que foi contratado no fim da produção.

A Festa dos Sentidos (1959), de Jean Renoir

Este filme da fase final da obra de Jean Renoir é um hino à natureza e uma homenagem aos quadros do pai, Pierre-Auguste Renoir (ainda que o título original, Le déjeuner sur l'herbe, seja de uma pintura de Manet). Aqui, o maior dos cineastas franceses explora o conflito entre a ciência moderna e as leis naturais, fazendo de um piquenique, num belo dia de sol, a grande ocasião para as forças da natureza derrubarem o pedantismo intelectual de um cientista. Falamos de um biólogo candidato à presidência da Europa que, divulgando os benefícios da inseminação artificial, acaba por não resistir a uma paixão súbita... No tal piquenique, encanta-se com uma simples rapariga do campo, na sequência de um vendaval mágico - despertado pela música de uma flauta tocada por um pastor -, que liberta os impulsos humanos. Mágica é também a linguagem visual de Renoir que, enquanto sublinha os temas do pai (como a jovem que se banha nua no lago), nos devolve a essência do seu cinema, este mesmo um gesto natural.

Um Verão de Amor (1951), de Ingmar Bergman

Um Verão de Amor resultou de um conto escrito pelo sueco Ingmar Bergman, com apenas 19 anos. Nele, como descreveu, falava-se sobre "umas férias de verão nas rochas e o primeiro grande amor". Desta simples conceção juvenil se fez esse muito maduro drama Sommarlek, centrado numa bailarina solitária, Marie, que recorda os dias mais felizes da sua juventude. Estamos perante uma das primeiras grandes manifestações da arte do cineasta, numa magnífica obra, que no seu preto-e-branco nos transmite a luz quente de um interlúdio do passado, quando a protagonista viveu um amor de sonho, numa idílica paisagem. É um romance que se saboreia entre morangos silvestres, ar puro, passeios num lago e uma casa de bonecas. Embora toldado pela tragédia, Um Verão de Amor não deixa de ser um dos mais luminosos filmes de Bergman, com uma beleza que aquece os olhos e o coração.

A Colecionadora (1967), de Eric Rohmer

Quando se pensa em Eric Rohmer e verão, o título que imediatamente nos ocorre é Paulina na Praia (1983). Contudo, aquele que chamamos para esta lista, em lugar do mais óbvio, não fica nada atrás nesta ideia de atmosfera estival - e é, de facto, um dos seus filmes elementares. Trata-se de um dos Seis Contos Morais, escritos e filmados pelo cineasta, que observa três personagens numa casa de férias, extraindo desta preguiça dos dias vazios uma singular elegância cinematográfica. No centro de A Colecionadora está precisamente uma jovem, Haydée, que "coleciona" amantes fugazes por diversão. Algo que se torna um interessante tema de discussão e dá lugar ao charme e à espontaneidade do jogo intelectual: é sobretudo na dinâmica da palavra que o cinema de Rhomer se revela. Mas a palavra não surge aqui por oposição aos desígnios da pele... Veja-se como o realizador filma, em pormenor, o corpo de Haydée quando esta se passeia à beira-mar.

Um Lugar à Beira-Mar (1991), de Takeshi Kitano

Cinema japonês? Com certeza. Um Lugar à Beira-Mar é um dos mais belos, sensíveis e poéticos filmes de Takeshi Kitano, no qual se experimenta o cinema numa espécie de nostalgia pelas suas origens enquanto arte universal (a era do mudo). Tal acontece porque esta é a história de um jovem surdo, Shigeru, que ganha a vida na recolha de lixo, e um dia, nessa rotina, encontra uma prancha de surf em boas condições. Começa então a ir para a praia treinar, na companhia da namorada, também surda, e debaixo dos olhares trocistas dos outros rapazes que sabem surfar. A sua deficiência dá azo a momentos tão cómicos quanto dramáticos, como aquele em que, numa competição, é desqualificado por não ouvir a chamada... Aqui o verão é palco de uma narrativa, ao mesmo tempo, simples e imensa, em que cada imagem vale por mil palavras.

Férias em Roma (1953), de William Wyler

Um verdadeiro clássico de Hollywood, com uma atriz inigualável: Audrey Hepburn. Tão inigualável que William Wyler fez questão de atrasar o início da rodagem, à espera que esta terminasse a sua participação numa peça da Broadway, para depois obter um dos mais memoráveis romances de verão, filmado sob um abrasador sol de Itália. No papel de um jornalista americano, o galã Gregory Peck acompanha Audrey na sua jornada turística de vinte e quatro horas em Roma, ignorando estar na presença de uma princesa que decidiu esquivar-se, por um dia, às obrigações reais. E é sob a direção de Wyler, um dos mais hábeis, talentosos e então experientes realizadores da indústria americana, que esta comédia romântica se constrói dentro do melhor modelo hollywoodesco, ainda que fora dos estúdios - Férias em Roma foi mesmo rodado nas ruas desta cidade, em dias de altas temperaturas.

A Ultrapassagem (1962), de Dino Risi

Continuamos em paisagem italiana soalheira, mas agora com uma dupla masculina: de um lado, um quarentão sedutor e bon vivant (Vittorio Gassman), do outro, um tímido estudante de Direito (Jean-Louis Trintignant). Estes são os protagonistas de A Ultrapassagem, o extraordinário road movie de Dino Riso, e um dos grandes sucessos da cinematografia italiana que, de Roma a Viareggio (Toscana), desenha um acurado retrato dessa sociedade nos anos 1960. Dentro da concentração temporal de dois dias, seguimos à boleia no carro desportivo de Gassman, que convence o jovem Trintignant a "viver um pouco a vida". Somos levados pelo espírito leve da própria época de estio. Mas na sua aparente ligeireza de sátira de costumes - em consonância com os tecidos leves e fatos de banho -, este é um olhar que implica uma certa gravidade, espelhada na força do argumento de Risi, que contou com a colaboração de Ettore Scola.

Não Dês Bronca (1989), de Spike Lee

Neste filme faz um calor dos diabos. Todas as personagens se queixam: "It"s hot!" Na verdade, trata-se do dia mais quente do ano no bairro de Bedford-Stuyvesant, em Brooklyn, onde se assiste ao agitado quotidiano de um entregador de pizas, interpretado pelo próprio Spike Lee. Com o título original Do the Right Thing, esta é uma sinfonia urbana - com banda sonora dos Public Enemy - que expõe a tensão racial no coração de Nova Iorque, crescendo até ao ponto em que a violência, literalmente, explode na forma de um incêndio. Aqui, as temperaturas extremas são tanto climáticas como metafóricas: os rostos e os corpos suam, os olhares entre negros e brancos deitam faíscas... Nesta que é uma das melhores expressões do seu cinema político, Spike Lee observa a energia da cidade com uma leitura estilizada e audaz, fazendo-nos também sentir o calor inebriante daquele dia.

As Férias do Sr. Hulot (1953), de Jacques Tati

Eis o mais divertido e familiar dos títulos desta lista, protagonizado pela mais querida figura do burlesco francês. Com efeito, As Férias do Sr. Hulot corresponde à apresentação no grande ecrã dessa personagem assumida pelo próprio realizador, cujas aventuras dariam origem às suas restantes longas-metragens. Aqui vemo-lo numa estância balnear, Hôtel de la Plage, a causar, involuntariamente, a desordem nos dias tranquilos dos veraneantes que lá se encontram: desde o momento em que abre a porta do hotel, deixando entrar uma ventania, até ao famoso número cómico da partida de ténis, não há descanso. A bondade e a cortesia conjugam-se então com o french flavour da banda sonora de Alain Romans, e o anacronismo de tal postura faz as delícias das crianças (esses seres milagrosos que têm um lugar especial nos seus filmes).

Tubarão (1975), de Steven Spielberg

Mesmo que quiséssemos, não poderíamos contornar a obra que inaugurou os blockbusters de verão. O clássico de Steven Spielberg impõe-se, para lá da sua dimensão de êxito comercial, como um marco na história dos filmes americanos feitos para esta altura do ano. Isto é, na reconfiguração de um certo produto de Hollywood. As coisas estavam a mudar na indústria, e depois de Tubarão, nunca mais se entrou no mar sem um pensamento - mesmo que breve - de que o perigo se pode esconder debaixo de água... Este é um filme que trabalha o thriller de um ponto de vista comunitário (como uma fobia universal), alimentando a ideia da ameaça e reduzindo ao mínimo a aparição do "monstro do mar", numa inteligente gestão narrativa. E ainda agora se sentem as suas réplicas: em breve chega às salas portuguesas Meg - Tubarão Gigante.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".