Como fugir ao calor na Amareleja? Trabalhar de madrugada e comer gaspacho

Na terra que em 2001 registou o recorde de temperatura em Portugal (47,3 graus), há muito que se conhecem os truques para evitar o tempo quente. Chapéus de palha e dormir a sesta são apenas alguns.

Agostinho Balola enfrenta o calor em cima do andaime e de trincha em riste. Está de "peito aberto" para mais um dia de trabalho que há de terminar lá para a hora de almoço. Nem ele, que se diz "imune ao calor", arrisca continuar a pintar a fachada do prédio à mercê dos tórridos 44,7 graus que se registaram durante a tarde na Amareleja.

"Tenho 73 anos. Sou o pintor mais velho no ativo no Baixo Alentejo e ainda salto de paraquedas. Se fosse preciso aguentar o calor ficava no andaime", afiança, para logo admitir que "as tintas se deterioram e o trabalho sai aldrabado". Assim, vai aproveitar a tarde para descansar à sombra, relatava logo pelas 10.00 desta manhã - quando ainda soprava uma ligeira mas refrescante brisa pelas ruas da Amareleja - depois de ter pegado ao serviço pelas 06.00.

"Estava fresquinho e deu para avançar com a pintura nestas quatro horas", dizia, enquanto o presidente da Junta, Joaquim Mário, partilha da opinião e também por isso tem implementado o horário de verão entre as 06.00 e as 13.00. "Para lá dessa hora, ninguém rende", admite, numa altura em que o termómetro da viatura do DN já marcava 36 graus, enquanto o da Farmácia Portugal - permanentemente exposto ao sol - chegava a uns suspeitos 42.

"Temos sempre de tirar seis a oito graus ao termómetro da farmácia", comentava Amélia Santos, enquanto ajeitava o lenço na cabeça e puxava as mangas da camisa azul-escura até aos pulsos. "Quanto mais tapados estivermos e mais escura for a roupa menos calor temos nestes dias", explicava, abrindo uma fresta da porta do quintal para gritar lá para dentro: "Nunca esquecer de beber água. Ouviu, pai?" O idoso respondia que "sim", deixando-se ver ao lado de um alguidar, onde estava a ser preparado um generoso gaspacho para o almoço.

E "há lá coisa melhor para comer nestes dias quentes", questionava Francisco Galhão, do alto dos seus 93 anos. Era um dos amigos instalados à sombra na Praça General Humberto Delgado, praticamente desde que Rosa Vale abriu o café, pelas 07.00 horas, permitindo que as cadeiras cruzem a rua para dar de sentar ao grupo.

A dificuldade em dormir devido ao calor levou-os a acordarem mais cedo do que o habitual, aproveitando a extensa manhã para centrarem o "debate" em torno da diferença entre o calor de hoje e o de verões anteriores. "O problema é que este chegou de repente. A Amareleja costuma ter estas temperaturas em julho", sublinhava Domingos Francisco.

Por seu lado, Francisco Carrilho, o mais novo do grupo, com 58 anos e desempregado do setor agrícola, recordava a mais tórrida tarde na Amareleja, em que os termómetros subiram até aos 47,3 graus, um recorde nacional registado em 2001. "Nunca esteve tanto calor. Aí é que se passou um mau bocado, mas entrámos na história do país", ironizava.

Vila fantasma na hora da sesta

Por detrás do balcão do café, Rosa Vale confirma o inevitável gaspacho para o almoço, mas revela um petisco do mais simples que se conhece, mas que reúne muitos apreciadores à volta de um copo de vinho: "um tomate partido ao meio e temperado com sal é um sucesso. Precisamente porque é muito fresco", testemunha Rosa, que também anuncia caracóis e gambas. "São para a noite. A esplanada fica na rua até haver gente, porque ninguém quer ir para casa. Ontem fechei à 01.00 e às 07.00 já aqui estava", dizia.

A relação com os clientes é tão próxima que qualquer um está autorizado a abrir a porta da arca para retirar uma cerveja gelada. "É à confiança e nem preciso olhar, que ninguém abala sem pagar", refere a dona do café com menos de 20 metros quadrados onde o ar condicionado é suficiente para refrescar o estabelecimento, mesmo de porta aberta. Mas nem isso impede os clientes de se irem chegando para as suas casas à medida que se aproxima a hora de almoço.

"Temos o hábito da sesta. Ajuda a acalmar o calor", diz António Martinho já depois do meio-dia, quando as ruas vão começando a ficar despovoadas. "Daqui a pouco parecemos uma vila fantasma", acrescenta.

Ainda há tempo para uma visita à drogaria de José Torres. Está à vista que os chapéus de palha em exposição logo à entrada ganham procura por estes dias. "São a melhor proteção contra o calor. E quanto mais larga for a aba, melhor", diz, confirmando que chapéus de palha há muitos e para todos os gostos. "Para homem é o modelo tipicamente alentejano, mas para a senhora há com laço, com fita, com fita fina ou copa direita", refere.

Perto das 13.00 o calor aperta mais. A brisa que a meio da manhã se fazia sentir parou. Diz-se por aqui que "não mexe uma palha". A hora é de recolher. Portas e janelas estão agora fechadas a sete chaves para impedirem o calor de entrar e acentua-se o som do canto das cigarras que vem lá do descampado que circunda a Amareleja. Agora o termómetro da farmácia já marca 48 graus, mas volta-se a sugerir que lhe tiremos uns seis graus de desconto. Ficamos pelos 42.

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