Venezuela: no hospital público onde nada funciona

Visita àquele que é comummente considerado o melhor hospital público de Caracas. E a Iolanda, que aguarda por uma operação a um aneurisma cerebral.

Entrámos clandestinamente. Se o disséssemos não nos permitiam a entrada. Há coisas que não se mostram. Escolhemos aquele que é comummente considerado o melhor hospital público de Caracas, o Hospital Dr. Miguel Perez Carreño. Tudo impressiona, mas talvez o mais chocante é ver gente à espera... da morte. Aparentemente sem sinais de indignação. Talvez por falta de esperança ou de forças. E, em muitos casos, esta gente, se fosse tratada, podia ter alta.

Ainda não é hora de visita, mas entramos facilmente. "Levo o almoço", explicou o marido da paciente que íamos ver, à entrada. "E tu?", perguntam-me. Limitei-me a mostrar um pequeno aparelho respiratório que levava num saco de plástico. Tinha medo de me denunciar com a fala. Pelos vistos, o mais comum é levar medicamentos, algum equipamento ou comida aos doentes. As refeições do hospital são intragáveis. O pequeno-almoço pode ser um chá vermelho, que ninguém sabe identificar e uma arepa sem recheio. O almoço, também servido diretamente na bandeja, não é melhor. Esparguete branco. Sem mais. A ementa desse dia compreendia ainda um sumo natural que chegou azedo. Estava calor.

Só à saída nos revistaram a mochila (explicam-me que há quem tente "levar" algum equipamento hospitalar). À entrada seguiu-se apenas um gesto para passar. Subimos as escadas. Dos inúmeros elevadores, no grande hospital que já foi uma referência em toda a América Latina, apenas dois funcionam, um deles para as urgências. Iolanda (nome fictício, a identidade, pede-me, só pode ser divulgada depois de terminar o pesadelo, ou seja, depois da operação e do processo de recuperação, até lá nada) aguarda-nos sentada numa das sete camas da enfermaria. Um quarto pequeno para tanta gente, sete doentes e muitas visitas. A unir aquelas pacientes - nunca este nome foi tão apropriado - o mesmo diagnóstico, aneurisma cerebral. Aguardam cirurgia. Uma delas há mais de um ano.

Junto à janela, num fogão elétrico, duas panelas libertam vapores. Sim, há quem cozinhe na enfermaria. No interior, numa casa de banho com a porta aberta, salta à vista um recipiente cheio de água na base do duche. Serve para as limpezas, incluindo da sanita. As falhas na distribuição de água canalizada são regulares. Melhor dizendo, a distribuição de água tem hora marcada. Apenas duas vezes por semana, apenas algumas horas. Num hospital, no melhor hospital público de Caracas. "O melhor porque funciona. Funciona, ponha entre aspas", explica Iolanda. De meia-idade, magra, Iolanda tem dois filhos, um casal, a menina de 8 anos e o rapaz já na universidade. Tem também a mãe em casa, com 80 anos.

"Há gente que vem do interior do país. Ficam sem ninguém por perto para ajudar. Há gente que morre por não ter resposta"

Trabalhava na empresa do marido quando percebeu que algo de grave se passava. Explicaram-lhe que era um aneurisma cerebral. Foi em janeiro. Aguarda, desde então, por uma cirurgia. Várias vezes adiada. Por diversas razões. Porque não há sala, porque falta material ou um medicamento... até porque faleceu o médico. O tal pesadelo que não acaba. Tem de arranjar os medicamentos e todo o material cirúrgico necessário para a operação à cabeça. Alguns vindos de fora, como Estados Unidos ou Panamá. E sangue, quatro unidades. 30 milhões de Bolívares cada, o preço da altura em que o salário mínimo rondava os 2,5 milhões... A inflação não para. E, como se não bastasse, tinha também de contratar um anestesista, de fora, pois, o hospital não tem. Pago à parte.

Até agora já gastou mais de mil dólares, muitos milhões de bolívares, no mercado paralelo. Os orçamentos que pedem - devido à hiperinflação - só valem, no máximo, por três dias. Não foi para uma clínica privada porque não tem posses e também tinha de levar as mesmas coisas, além de pagar a diária. Muito dinheiro. Sente que já não vive.

Já quis abandonar o hospital, mas os filhos e o marido conseguiram dissuadi-la. Entretanto, enfrentou uma depressão. Superou. Os filhos precisam dela, ainda. Quando fala dos filhos não consegue evitar a emoção. Choramos todos. "É meu ponto fraco" assume enxugando as lágrimas. É o ponto forte, diria eu. Sabe que tem a casa "de pernas para o ar, mas são valentes".

"Escreve. Escreve que, se houver mais sanções ao país, quem sofre não é quem manda, mas gente como a minha mulher"

Diz quem a conhece que Iolanda era a batuta de casa, o pilar da família. Uma dor de cabeça em janeiro mudou tudo. O calvário começou desde que entrou naquele hospital. Sabe que tem um vaso dilatado na cabeça que, a qualquer momento, pode rebentar e ser fatal. Uma espada de Dâmocles sobre a cabeça, permanente. "Peço a Deus que livre as pessoas de caírem nisto", diz. "Há gente que vem do interior do país. Ficam sem ninguém por perto para ajudar. Há gente que morre por não ter resposta." Desde que está hospitalizada Iolanda viu duas colegas de quarto serem operadas. Uma delas aguardava há um ano. Um ano de não vida.

O marido de Iolanda despede-se. Tem de ir trabalhar. "Mucho gusto, Nicolás, mas não és Maduro", tenta brincar com o nome. E deixa um pedido: "Escreve. Escreve que, se houver mais sanções ao país, quem sofre não é quem manda, mas gente como a minha mulher."


PS.: Iolanda já foi operada com sucesso e com a ajuda de muita gente que contribuiu para pagar as despesas. Mas ainda é Iolanda, nome fictício, pois ainda prossegue a sua recuperação.

Texto originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira.
Leia mais reportagens ao longo da semana no site do DN

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.