Spike Lee com o dedo apontado a Trump

O seu novo filme transforma Spike Lee num herói anti-Trump. É o seu grande regresso com BlackKksman - O Infiltrado, uma história verdadeira sobre os bastidores do Ku Klux Klan. Estreia-se na quinta-feira e em Cannes o realizador falou ao DN.

Tem fama de ser o mais rezingão dos cineastas, mas desta vez é só sorrisos. Numa mesa-redonda com diversos jornalistas europeus, apanhamos um Spike Lee francamente bem-disposto. Se BlackKklansman - O Infiltrado não tivesse tido a ovação tremenda que teve e todas as críticas positivas, o realizador nova-iorquino certamente não estaria um doce, ele que é conhecido por não ser simpático para a imprensa e por subestimar qualquer jornalista que não seja de descendência afro.

A conversa começa com um plano de E Tudo o Vento Levou, de Victor Fleming, que está no filme, uma provocação de Lee para dar o ponto de partida para um discurso sobre uma história de racismo, afinal, o tema central de BlackKklansman, história real sobre um polícia afro-americano que se consegue infiltrar no seio do KKK, a organização racista, através da ajuda de um parceiro branco.

Aos poucos ganha um poder tão grande que fica chefe da secção regional. Uma história tão extraordinária que parece mentira e que é narrada por Lee com uma ira política que faz paralelo com a atual situação dos EUA (não é por acaso que no genérico final há muitas imagens reais de Trump...). "Vocês aqui na Europa pensam que o E Tudo o Vento Levou é um dos melhores filmes de sempre? Bom, não está na minha lista", começa por dizer num tom de voz bem alto. Faz-se um silêncio no terraço do Palais de Cannes. Está um dia lindo de sol de maio e ouvem-se ao longe as gaivotas.

E continua: "Por acaso, esse plano que mostro no meu filme é muito bom, não é? Alguém me chamou a atenção de que, no Kundun, o Scorsese faz o mesmo com os monges. Seja como for, um filme como O Nascimento de Uma Nação também está cheio de grandes planos. Quando estava na escola de cinema, só me falavam desse filme do ponto de vista técnico, ninguém dizia que era uma forma de recrutamento para o Ku Klux Klan... Em consequência, muita gente morreu devido a esse filme! E não é por acaso que a Leni Riefenstahl se inspirou nele. O próprio George Lucas, em Guerra das Estrelas, também rouba a sequência quando filma os soldados alinhados, ele já o admitiu! Isso mostra o poder do cinema! A grande razão para o facto de sermos o país mais poderoso do mundo - e estamos a deixar de o ser - prende-se com a cultura que exportamos, qual poderio nuclear, qual quê! Dominámos o mundo com a cultura pop, com a Levis, com a Nike, a Apple, a música jazz, blues, o rock "n" roll, a televisão e o cinema!"

Depois de se estrear em Cannes, BlackKklansman tem provocado um coro de controvérsia, tudo o que o realizador mais queria: "Ainda ontem a CNN não parou de falar do filme!", diz a rir à gargalhada. A mesma gargalhada da "malta do bairro" dos seus filmes. É genuína: "O meu filme causa tanta controvérsia que eles até passam o trailer! Obrigado! Estou feliz! Há pouco falava do poder negativo do cinema, mas também há este, o positivo! Sabe que mais, senhor jornalista português nascido em Angola: hei de morrer convencido de que a arte pode mudar o sistema! Mas, claro, isso não tem de acontecer a toda hora." E mais uma rajada das suas gargalhadas...

Lee soube de onde vinha o jornalista, pois antes de chegarmos à mesa quis apertar a mão a cada um dos jornalistas e perguntar a sua nacionalidade. Digamos que é um cineasta atento, embora há uns anos, em Cannes, quando promovia A Rapariga: Código 6, um filme com Madonna que passou estupidamente despercebido, estava literalmente a marimbar-se para a imprensa e só perguntava onde poderia ver o jogo de basquetebol dos Lakers...

Sobre BlackKklansman, há que perceber onde Lee quis chegar com o humor. Antes da resposta, lembra que o melhor a fazer com a tragédia da chegada de Trump ao poder é rir. Rir e chorar. "O que nós fazemos aqui neste filme com o tom de humor não é único! Já outros cineastas fizeram o mesmo com temáticas sérias. Olhe, por exemplo, o Kubrick quando fez Dr. Estranhoamor, o Billy Wilder em O Grande Carnaval ou o Sidney Lumet no Escândalo na TV... Também o Há Lodo no Cais, do Kazan, tem humor. Ainda assim, confesso, é muito complicado, temos de encontrar o balanço certo."

Humor irado. Humor para estes dias de cólera. Spike Lee, no fim da conversa, pede mais uma memória cinéfila: "Lembram-se de O Ano de Todos os Perigos, de Peter Weir? Sim, esse filme mesmo, com o Mel Gibson. Pois bem, estamos a viver o ano de todos os perigos. Coloquei Charlottesville e imagens do Trump para mostrar que ele escolheu não unir as pessoas com aquela tragédia. Teve a chance de denunciar grupos de ódio e de terrorismo e não o fez. Esses grupos ficaram felizes, claro!"

A carga de denúncia daquelas imagens é fortíssima. Saímos abalados do filme. BlackKklansman - O Infiltrado (não fazer confusão com Infiltrado, de 2006 , também de Lee...) já venceu em Cannes (Grand Prix) e Locarno (prémio do público) e deve chegar aos Globos de Ouro e aos Óscares.

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