O preço da dopamina

"Deixem-me dizer-vos uma coisa sobre os ricos: eles são diferentes de nós", escreveu F. Scott Fitzgerald, num dia particularmente complicado. "Pois são, têm mais dinheiro", terá respondido Hemingway, num dos primeiros exemplos registados de tweet sarcástico. Os ricos podem ou não ser diferentes dos não ricos, mas os super-ricos são diferentes de ambos, facto amplamente demonstrado no programa A Vida dos Super-Ricos (SIC Caras). Enquanto os ricos se limitam a comprar casas na montanha com vista para uma queda de água, os super-ricos compram uma montanha no Colorado e erguem um castelo com uma queda de água na sala de jantar. Enquanto os ricos se limitam a comprar iates, os super-ricos compram superiates, ou até mesmo megaiates. Um dos episódios inclui uma entrevista ao holandês Henk de Vries, que se tornou rico a construir megaiates para os super-ricos. "Um burocrata, mesmo um burocrata rico, não é o tipo de pessoa que tende a comprar um iate", explica. "As pessoas que tendem a comprar os meus iates são empreendedores." E os empreendedores estão cada vez mais exigentes em relação às dimensões dos seus iates. "Já tive de alargar o meu estaleiro duas vezes", confessa com um sorriso envergonhado, enquanto aponta para um espaço maior do que a Arena de Amesterdão.

Num episódio posterior há uma visita guiada ao megaiate de um super-rico, que o costuma alugar aos meramente ricos por 280 mil dólares por semana. "Gostava que os espectadores pudessem cheirar", diz o apresentador, "estes lençóis vaporizados com eucalipto". Porque o programa é americano, muitos dos super-ricos são americanos. Têm nomes como John Paul DeJoria ou Joe Massaro, e alcunhas como "o magnata da chapa de metal". Dizem coisas como "eu sempre fui maluco!", ou "acho que toda a gente devia ter um pavão", ou "a minha mulher Eloise gosta de coisas catitas", enquanto apontam para um Lamborghini cor de pérola com estofos Chanel, ou explicam como adquiriram acidentalmente uma cabana desenhada por Frank Lloyd Wright quando pretendiam apenas comprar uma ilha deserta. O super-rico mais modesto da semana foi um gestor de Filadélfia chamado Frankie Frederico, cuja maior excentricidade é o consumo regular de uma sanduíche de queijo que custa 120 dólares. "Nunca imaginei que uma sanduíche de queijo pudesse saber tão bem, mas vale cada cêntimo", garantiu, enquanto a câmara ensaiava um impotente grande plano de algo que parecia uma sanduíche de queijo de dois euros.

Mas nem sempre é fácil adivinhar o preço correcto de um produto através da mera observação, como O Preço Certo (RTP1) faz questão de demonstrar diariamente há quinze anos. Um ambientador com aroma a lavanda pode ter todo o aspecto de custar 3,5 euros, mas na verdade custar 2,99. Um frasco de água micelar pode ter todo o aspecto de custar 5 euros, mas na verdade custar 8,99. Felizmente, a competência na adivinhação de preços não é essencial. O formato foi importado da América, e nas suas origens era uma cândida celebração do capitalismo de consumo, em que os concorrentes desenvolviam técnicas sofisticadas para avaliar o valor de mercado de um Cadillac ou de um frigorífico falante, mas ao atravessar o Atlântico adaptou-se naturalmente à esplêndida mistura de magia, paganismo, catolicismo e campanha autárquica que é a nossa religião nacional.

Uma plateia constituída por cinquenta presidentes de junta e cem eleitores bate palmas em uníssono. Uma voz nomeia quatro afortunados, que ocupam o seu posto junto ao altar. "O vosso aplauso para o apresentador mais bem-disposto do planeta Terra!", exige a voz. Porquê especificar o planeta, a não ser para dissimular a verdade? Qualquer observador atento e desassombrado há muito percebeu que Fernando Mendes é um visitante e não um nativo do nosso mundo e que todo o programa é estruturado como um longo subterfúgio para o manter interessado, impedindo-o de transcender os limites materiais e ascender à dimensão superior de onde veio. Os concorrentes trazem-lhe oferendas: figos, mel, incenso, doçaria regional, galhardetes municipais, a carne de animais sacrificados. Em troca exigem o que sempre exigiram aos deuses: auxílio, respostas, e a possibilidade de mandar um beijinho ao vice-presidente da Associação Recreativa de São Brás de Alportel. Fernando Mendes aceita as oferendas com a magnanimidade própria de uma criatura mais antiga que o próprio Tempo. A sua silhueta já decorava as paredes de Lascaux e Altamira. Quando os hominídeos da savana sonhavam os seus sonhos aflitos, era a voz dele que ouviam, gritando "Espectáculo!". As sociedades primitivas conheciam o Fernando Mendes, e temiam e respeitavam os seus desígnios e caprichos. Entretanto os milénios passaram, e Fernando Mendes esqueceu-se dos seus poderes e do seu estatuto divino. Hoje reproduz apenas os gestos da fantasia terrena que adoptou, observando o mundo e os seus processos com o carinho distante do demiurgo amnésico. Por vezes ainda tenta interferir nos assuntos humanos e distribui a sua omnisciência pelos adereços do acaso, ajudando concorrentes que estimam um preço demasiado baixo para a montra final. "18 mil euros!", gritam eles, falivelmente humanos, ao que Fernando Mendes diz algo como "olhe bem lá PARA CIMA, para os holofotes", mas o concorrente raramente percebe que deve arriscar uma quantia mais elevada, inevitabilidade que lhe provoca uma contida exasperação, que logo se dissipa. Os antigos rituais sobrevivem apenas em fragmentos. "Vamos girar a roda com força", ordena Fernando Mendes, e só um brilho de glicerina nos seus olhos denuncia a surpresa que sente quando, em vez de choverem estrelas do firmamento, a única coisa que acontece é aparecer um Fiat Punto no meio do palco.

Nunca é fácil não sabermos quem somos, que foi o subtema do programa Novos Fora nada (TVI 24), dedicado a perceber o que são os millennials. Os dois comentadores residentes não estavam certos de pertencer à categoria. "Eu afinal sou millennial ou não?", questionava-se um. "Eu não sei se encaixo bem", duvidava o outro. Uma minimontagem tentou definir as duas classificações anteriores: os baby boomers (imagens de Woodstock, concerto dos Beatles) e a geração X (teledisco de Michael Jackson, Ferris Bueller, Pacman). Os millennials são aparentemente definidos por uma ligação permanente à internet que lhes permite ver vídeos de Woodstock e dos Beatles num tablet e pegar no telemóvel para jogar Pacman ironicamente. O pretexto para o programa foi um estudo que submeteu millennials de cinco países, incluindo Portugal, a várias dezenas de perguntas, e levou a várias conclusões.

Os millennials ligam pouco à política. São mais activistas de causas do que militantes sectários. São cosmopolitas, mas patriotas. Gostam de vestir a camisola da selecção e fazer compras em lojas de conveniência. "Neste estudo não entram os indianos", protestou o moderador. "O millennial indiano tem de estar aqui!" "Eu acho que não há geração millennial nenhuma", arriscou um dos comentadores, com um argumento irrefutável: "O meu avô tem Instagram." Já na presença da responsável pelo estudo, o outro comentador foi ao fundo da questão: "Eu acho que isto é tudo uma simplificação dos diabos, e não devemos perder-nos em questões superficiais. Ao preparar-me para o programa descobri uma coisa interessantíssima: a dopamina..."

A descoberta de coisas interessantíssimas sobre a dopamina é um fenómeno universal: é impossível sobreviver muitos anos no mundo desenvolvido sem sermos obrigados a ouvir alguém que acabou de descobrir algo interessante sobre a dopamina e quer partilhar connosco o seu fascínio. A "coisa interessantíssima" sobre a dopamina, que assim resgatou o debate à simplificação e à superficialidade, é que a reacção química que produz no cérebro de um alcoólico ou ludopata saciado é semelhante à que produz no cérebro de quem acabou de receber um like no Facebook.

Eis uma definição tão plausível de millennial quanto todas as outras ensaiadas ao longo do programa: uma pessoa com uma capacidade inesgotável para descobrir coisas interessantíssimas na internet que provam que a internet faz muito mal às pessoas.

Cronista

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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