Premium Bem onde não estamos

- Próximo!

A fila era longa mas progrediu com rapidez, eu aproximei-me do rapaz da caixa com um pacote de leite, um quilo de maçãs e uma embalagem de cápsulas de café.

- São sete euros e vinte, se faz favor... Amanhã vais lá?

- Desculpe? Lá onde?

- Não tem mais pequeno?... Ahah, vamos partir tudo!

- Vamos partir o quê? Tenho 20 cêntimos, dá-lhe jeito?

- Obrigado... Ya, vou levar a Mizé e a Lecas... vais curti-las bué...

A perspetiva de uma noite diferente começava a animar-me o espírito quando reparei que o rapaz tinha um microfone discreto que lhe descia da orelha para o canto da boca. Recolhi o troco, agradeci e desejei-lhe um bom fim de semana com a Lecas e a Mizé.

É cada vez mais difícil saber com quem falamos ou captarmos a atenção dos nossos interlocutores. A meio de uma confidência dolorosa, envolvendo um episódio de infância na sala da catequese, damos pelo nosso amigo a varrer com o dedo as pretendentes do Tinder; nas aulas já apanhei alunos a trocar mensagens pelo telemóvel, a comprar vestidos leves para o Verão e até a matar zombies numa Lisboa pós-apocalíptica; no trânsito tornou-se impossível lançar eficazmente um insulto sem que pensem que estamos a contribuir para o Fórum TSF através do mãos-livres.

A realidade prosaica deixou de interessar-nos, há sempre qualquer coisa mais cativante noutra dimensão qualquer - um vídeo de gatinhos, uma invasão de zombies ou uma conversa com a Mizé. Eu gosto do Minipreço da minha rua e hei de lá voltar, talvez da próxima vez leve uma bata branca coberta de sangue e uma cabeleira de palhaço, a ver se o rapaz da caixa se consegue interessar.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.