Premium Bem onde não estamos

- Próximo!

A fila era longa mas progrediu com rapidez, eu aproximei-me do rapaz da caixa com um pacote de leite, um quilo de maçãs e uma embalagem de cápsulas de café.

- São sete euros e vinte, se faz favor... Amanhã vais lá?

- Desculpe? Lá onde?

- Não tem mais pequeno?... Ahah, vamos partir tudo!

- Vamos partir o quê? Tenho 20 cêntimos, dá-lhe jeito?

- Obrigado... Ya, vou levar a Mizé e a Lecas... vais curti-las bué...

A perspetiva de uma noite diferente começava a animar-me o espírito quando reparei que o rapaz tinha um microfone discreto que lhe descia da orelha para o canto da boca. Recolhi o troco, agradeci e desejei-lhe um bom fim de semana com a Lecas e a Mizé.

É cada vez mais difícil saber com quem falamos ou captarmos a atenção dos nossos interlocutores. A meio de uma confidência dolorosa, envolvendo um episódio de infância na sala da catequese, damos pelo nosso amigo a varrer com o dedo as pretendentes do Tinder; nas aulas já apanhei alunos a trocar mensagens pelo telemóvel, a comprar vestidos leves para o Verão e até a matar zombies numa Lisboa pós-apocalíptica; no trânsito tornou-se impossível lançar eficazmente um insulto sem que pensem que estamos a contribuir para o Fórum TSF através do mãos-livres.

A realidade prosaica deixou de interessar-nos, há sempre qualquer coisa mais cativante noutra dimensão qualquer - um vídeo de gatinhos, uma invasão de zombies ou uma conversa com a Mizé. Eu gosto do Minipreço da minha rua e hei de lá voltar, talvez da próxima vez leve uma bata branca coberta de sangue e uma cabeleira de palhaço, a ver se o rapaz da caixa se consegue interessar.

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